Uma carta aberta e fraterna aos nossos irmãos bispos na Alemanha

Numa época de rápida comunicação global, os acontecimentos que ocorrem numa nação têm um impacto inevitável na vida eclesial noutros locais. Assim, o processo do “Caminho Sinodal”, como é actualmente empreendido pelos católicos na Alemanha, comporta consequências para a Igreja em todo o mundo. Isto inclui as Igrejas locais das quais somos pastores e os muitos fiéis católicos pelos quais somos responsáveis. 

À luz disto, os acontecimentos na Alemanha obrigam-nos a expressar a nossa crescente preocupação pela natureza de todo o processo do “Caminho Sinodal” alemão e o conteúdo dos seus vários documentos. Os nossos comentários aqui presentes são deliberadamente breves. Esses pedem, e nós encorajámo-lo fortemente, maiores reflexões (como, por exemplo, An Open Letter to the Catholic Bishops of the World, do Arcebispo Samuel Aquila) por parte de cada um dos bispos.         

Todavia, a urgência das nossas observações aqui contidas encontra o seu fundamento na carta aos Romanos, capítulo 12, e, em particular, na advertência de São Paulo para não «se acomodarem a este mundo». A seriedade destas observações brota da confusão que o “Caminho Sinodal” já causou e continua a causar, e do potencial de cisma que, inevitavelmente, resultaria na vida da Igreja. A necessidade de reforma e de renovação é tão antiga quanto a própria Igreja. Na sua raiz, este impulso é louvável e não deveria nunca ser temido. Muitas das pessoas envolvidas no processo do Caminho Sinodal são, sem dúvida, pessoas dotadas de um carácter excepcional.

No entanto, a história cristã está repleta de esforços bem intencionados que, porém, perderam o seu enraizamento na Palavra de Deus, num encontro fiel com Jesus Cristo, numa verdadeira escuta do Espírito Santo e na submissão da nossa vontade à vontade do Pai. Estes esforços falharam porque ignoraram a unidade, a experiência e a sabedoria acumuladas pelo Evangelho e pela Igreja. A partir do momento em que não deram ouvidos às palavras de Jesus: «sem mim, nada podeis fazer» (Jo 15, 5), tais esforços foram infrutíferos e prejudicaram tanto a unidade como a vitalidade evangélica da Igreja. O caminho sinodal da Alemanha corre o risco de conduzir a um tal beco sem saída.

Como vossos irmãos bispos, as nossas preocupações incluem, mas não se limitam, quanto se segue:  

1. Não ouvindo o Espírito Santo e o Evangelho, as acções do Caminho Sinodal minam: a credibilidade da autoridade da Igreja, incluindo a do Papa Francisco; a antropologia cristã e a moral sexual; e a fiabilidade das Escrituras.      

2. Embora apresentando um folheado de ideias religiosas e um vocabulário religioso, os documentos do Caminho Sinodal alemão parecem, em grande parte, inspirados não pela Escritura e pela Tradição – que, para o Concílio Vaticano II, constituem «um só depósito sagrado da Palavra de Deus» – mas pela análise sociológica e pelas ideologias políticas contemporâneas, incluindo as de “género”. Olham para a Igreja e para a sua missão através da lente do mundo e não através da lente das verdades reveladas na Escritura e na autorizada Tradição da Igreja.       

3. O conteúdo do Caminho Sinodal parece também reinterpretar, e assim diminuir, o significado da liberdade cristã. Para o cristão, a liberdade consiste no conhecimento, na vontade e na livre capacidade de fazer o que é correcto. A liberdade não é “autonomia”. A liberdade autêntica, como ensina a Igreja, está ligada à verdade e é ordenada ao bem e, em suma, à bem-aventurança. A consciência não cria verdade, nem a consciência é uma questão de preferências pessoais ou de auto-afirmação. Uma consciência cristã devidamente formada permanece sujeita à verdade sobre a natureza humana e às normas de uma vida recta reveladas por Deus e ensinadas pela Igreja de Cristo. Jesus é a verdade que nos torna livres (Jo 8).      

4. A alegria do Evangelho – essencial à vida cristã, como sublinha frequentemente o Papa Francisco – parece estar completamente ausente das discussões e dos textos do Caminho Sinodal. Como tal, esta é uma falha eloquente para um esforço que visa a renovação pessoal e eclesial.        

5. O processo do Caminho Sinodal, em quase todas as suas fases, é obra de peritos e comissões, sendo burocraticamente pesado, obsessivamente crítico e virado para o interior. Reflecte, pois, por si só, uma forma amplamente generalizada de esclerose eclesial e, ironicamente, assume um tom antievangélico. Nos seus efeitos, o Caminho Sinodal mostra mais uma submissão e obediência ao mundo e às suas ideologias do que a Jesus Cristo como Senhor e Salvador.          

6. A atenção do Caminho Sinodal ao “poder” na Igreja sugere um espírito fundamentalmente em desacordo com a verdadeira natureza da vida cristã. Afinal, a Igreja não é apenas uma “instituição”, mas uma comunidade orgânica; não um sistema igualitário, mas familiar, complementar e hierárquico – um povo selado na unidade pelo amor de Jesus Cristo e pelo amor recíproco em Seu Nome. A reforma das estruturas não é, de modo algum, a mesma coisa que a conversão dos corações. O encontro com Jesus, como se vê no Evangelho e na vida dos santos ao longo da história, muda os corações e as mentes, traz cura, afasta de uma vida de pecado e de infelicidade, e demonstra a força do Evangelho.         

7. O último e mais imediato e angustiante problema do Caminho Sinodal na Alemanha é também terrivelmente irónico. Com o seu exemplo destrutivo, pode levar alguns bispos, e levará muitos leigos fiéis, a desconfiar da própria ideia de “Sinodalidade”, impedindo ainda mais o diálogo necessário no seio da Igreja sobre o cumprimento da sua missão de converter e de santificar o mundo.          

Neste momento, a última coisa que a nossa comunidade de fé precisa é de mais confusão. Ao discernirdes a vontade do Senhor para a Igreja na Alemanha, estai certos das nossas orações por vós.

Francis Cardinale Arinze (Onitcha, Nigéria), Raymond Cardeal Burke (Saint Louis, EUA), Wilfred Cardeal Napier (Durban, África do Sul), George Cardeal Pell (Sydney, Austrália), D. Samuel Aquila (Denver, EUA), D. Charles Chaput (Filadélfia, EUA), D. Paul Coakley (Oklahoma City, EUA), D. Salvatore Cordileone (São Francisco, EUA), D. Damian Dallu (Songea, Tanzânia), D. Joseph Kurtz (Louisville, EUA), D. J. Michael Miller (Vancouver, Colúmbia Britânica, Canadá), D. Joseph Naumann (Kansas City no Kansas, EUA), D. Andrew Nkea (Bamenda, Camarões), D. Renatus Nkwande (Mwanza, Tanzânia), D. Gervas Nyaisonga (Beia, Tanzânia), D. Gabriel Palmer-Buckle (Cape Coast, Gana), D. Terrence Prendergast (Ottawa-Cornwall, Ontário, Canadá), D. Jude Thaddaeus Ruwaichi (Dar es Salaam, Tanzânia), D. Alexander Sample (Portland no Oregon, EUA), D. Joseph Afrifah-Agyekum (Koforidua, Gana), D. Michael Barber (Oakland, EUA), D. Herbert Bevard (São Tomás, Ilhas Virgens Americanas), D. Earl Boyea (Lansing, EUA), D. Neal Buckon (Auxiliar, Serviços Militares, EUA), D. William Callahan (La Crosse, EUA), D. Massimo Camisasca (Reggio Emilia-Guastalla, Itália), D. Liam Cary (Baker, EUA), D. Peter Christensen (Boise City, EUA), D. Joseph Coffey (Auxiliar, Serviços Miliares, EUA), D. James Conley (Lincoln, EUA), D. Thomas Daly (Spokane, EUA), D. John Doerfler (Marquette, EUA), D. Timothy Freyer (Auxiliar, Orange, EUA), D. Donald Hying (Madison, EUA), D. Daniel Jenky (Peoria, EUA), D. Stephen Jensen (Prince George, Colúmbia Britânica, Canadá), D. William Joensen (Des Moines, EUA), D. James Johnston (Kansas City-St. Joseph, EUA), D. David Kagan (Bismarck, EUA), D. Flavian Kassala (Geita, Tanzânia), D. Carl Kemme (Wichita, EUA), D. Rogatus Kimaryo (Same, Tanzânia), D. Anthony Lagwen (Mbulu, Tanzânia), D. David Malloy (Rockford, EUA), D. Gregory Mansour (Eparquia de São Maron de Brooklyn, EUA), D. Simon Masondole (Bunda, Tanzânia), D. Robert McManus (Worcester, EUA), D. Bernadin Mfumbusa (Kondoa, Tanzânia), D. Filbert Mhasi (Tunduru-Masasi, Tanzânia), D. Lazarus Msimbe (Morogoro, Tanzânia), D. Daniel Mueggenborg (Reno, EUA), D. William Muhm (Auxiliar, Serviços Militares, EUA), D. Thanh Thai Nguyen (Auxiliar, Orange, EUA), D. Walker Nickless (Sioux City, EUA), D. Eusebius Nzigilwa (Mpanda, Tanzânia), D. Thomas Olmsted (Phoenix, EUA), D. Thomas Paprocki (Springfield, Illinois, EUA), D. Kevin Rhoades (Fort Wayne-South Bend, EUA), D. David Ricken (Green Bay, EUA), D. Almachius Rweyongeza (Kayanga, Tanzânia), D. James Scheuerman (Auxiliar, Milwaukee, EUA), D. Augustine Shao (Zanzibar, Tanzânia), D. Joseph Siegel (Evansville, EUA), D. Frank Spencer (Auxiliar, Serviços Militares, EUA), D. Joseph Strickland (Tyler, EUA), D. Paul Terrio (Saint Paul em Alberta, Canadá), D. Thomas Tobin (Providence, EUA), D. Kevin Vann (Orange, EUA), D. Robert Vasa (Santa Rosa, EUA), D. David Walkowiak (Grand Rapids, EUA), D. James Wall (Gallup, EUA), D. William Waltersheid (Auxiliar, Pittsburgh, EUA), D. Michael Warfel (Great Falls-Billings, EUA), D. Chad Zielinski (Fairbanks, EUA).

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