São João Crisóstomo, “boca de ouro” da pregação

São João Crisóstomo, cuja festa ocorre a 27 de Janeiro, nasceu, entre 344 e 354, em Antioquia, na Turquia, uma das mais importantes metrópoles do mundo antigo. A sua família era cristã e rica. Nessa altura, Antioquia era a terceira maior cidade oriental do Império, depois de Constantinopla e Alexandria. No século IV, verificaram-se conflitos profundos no Oriente entre pagãos, maniqueus, arianos, apolinaristas, cristãos e judeus, e neste clima de grandes confrontos religiosos, filosóficos e teológicos cresceu João.    

Ficando órfão do seu pai, Segundo, alto oficial do exército sírio, tornou-se, desde cedo, aluno do famoso orador e professor Libânio. Nos relatos autobiográficos do santo lemos que, na sua juventude, era muito irrequieto, «acorrentado às paixões do mundo»; vimos também a saber que era um gastrónomo, amante da eloquência judicial e do teatro.   

Quando encontrou o Bispo Melécio, aos 18 anos de idade, pediu para ser baptizado. Foi então que começou a seguir os cursos de Exegese de Diodoro de Tarso, cuja escola era célebre pela interpretação literal das Sagradas Escrituras, em oposição à escola alexandrina, que, pelo contrário, privilegiava uma leitura de carácter também alegórico. Terminados os estudos, recebeu as ordens menores e retirou-se para um eremitério onde se dedicou ao estudo da Teologia. Provavelmente influenciado por São Gregório de Nazianzo, escreveu um tratado sobre o sacerdócio, De Sacerdotio, um verdadeiro marco para toda a Igreja, onde considera que o monaquismo não é a única forma de alcançar a perfeição cristã, pois a vida sacerdotal, ao serviço dos crentes e no meio das mil tentações do mundo, é a melhor forma de servir a Deus.        

No Inverno de 380-381, foi ordenado diácono, por Melécio, em Antioquia, e, em 386, foi ordenado sacerdote, tornando-se rapidamente famoso pela sua valentia na pregação. Em 392, na sequência dos decretos teodosianos, organizou uma expedição para demolir os templos pagãos, continuando, ao mesmo tempo, o seu notável trabalho como autor de obras teológicas, espirituais e educacionais. A sua conspícua produção literária é composta por tratados e várias centenas de homilias, em grande parte dedicadas à exegese das Escrituras, especialmente comentando as 14 cartas de S. Paulo. Entre as homilias exegéticas que nos chegaram, 67 são dedicadas ao Génesis, 90 ao Evangelho de Mateus, 88 ao Evangelho de João e 55 aos Actos dos Apóstolos. Por outro lado, o Comentário sobre Isaías e os 49 sermões sobre os Salmos assumem a forma de tratado; segue-se um considerável número de fragmentos de comentários perdidos. Entre os discursos não exegéticos estão 5 homilias Sobre a incompreensível natureza de Deus, 8 Contra os Judeus, 21 Homilias sobre as Estátuas, Instruções para os Catecúmenos. Contrariamente ao costume generalizado da época de falar por alegorias, adoptou um estilo directo utilizando as passagens bíblicas para formar e ensinar a viver a vida quotidiana.    

Em 397, o imperador bizantino Arcádio escolheu São João Crisóstomo para ocupar a cátedra episcopal de Constantinopla e foi consagrado Patriarca a 28 de Fevereiro de 398. Governou a Igreja que lhe foi confiada com grande força e rigor, lançando-se contra a corrupção e a licenciosidade dos poderosos, com excepção do seu protector, Eutrópio, a quem não conseguiu salvar da morte em 399. Pelo seu trabalho de moralização cristã ganhou muitos inimigos na corte, onde havia pessoas que alimentavam o ódio e a inveja por ele, de modo que, apesar dos seus esforços para conduzir pelo recto caminho as almas, mesmo sacerdotais, os resultados desejados nem sempre chegaram devido a uma dura oposição. Todavia, a sua fama espalhou-se. Estimado e admirado como pregador, o Bispo de Constantinopla, que viveu entre os séculos IV e V, é considerado o maior orador cristão da língua grega, de tal forma que foi apelidado de Crisóstomo, ou seja, “boca de ouro”.         

Destituiu muitos sacerdotes indignos, incluindo o Bispo de Éfeso, e chamou monges errantes para viverem em mosteiros. O seu estilo de vida, sóbrio, frugal, dedicado à oração, foi de carácter monástico e o seu exemplo sagrado espalhou-se gradualmente entre o clero constantinopolitano. O Padre da Igreja foi muito influente ao opor-se rigorosamente às heresias, levantando a sua voz com autoridade na Ásia Menor.         

Em 402, muitos dos inimigos de João voltaram-se para o Patriarca de Alexandria do Egipto, Teófilo de Alexandria, cuja Igreja estava em desacordo com a de Constantinopla. Teófilo apareceu no Sínodo do Carvalho, na cidade religiosamente dirigido por Crisóstomo, com uma multidão de bispos alexandrinos e menorizou João, que foi deposto e exilado pelo Imperador, que o tornou a chamar, mas a 9 de Junho de 404 foi definitivamente afastado. Durante três anos esteve confinado em Cucuso, nas montanhas da Capadócia, onde trabalhou arduamente, e, em 407, recebeu ordens para se mudar novamente para Pitiunte, no Mar Negro.    

O seu banimento foi uma demonstração tanto da supremacia do poder secular sobre o poder religioso como da rivalidade entre Constantinopla e Alexandria na luta pela preeminência dentro da Igreja Oriental; tais questões criaram enormes problemas religiosos e políticos para o Império, que resultaram na perda do Egipto. Pelo contrário, no Ocidente a superioridade espiritual de Roma já era um facto indiscutível no século V, mas a agitação e as guerras tinham empobrecido economicamente os territórios despovoados e em grave crise, pelo que o peso político romano no Oriente diminuiu. Um exemplo do limitado papel da Igreja Ocidental no Império Oriental pode ser visto no facto de que as pressões do Papa Inocêncio para defender João Crisóstomo não foram tidas em conta.                       

O santo bispo morreu a 14 de Setembro de 407, em Comana, no Ponto, e as suas últimas palavras, como diz a tradição, foram: «Glória a Deus em todas as coisas». Em 438, sob o governo de Teodósio II e a pedido do Bispo Proclo, os seus restos mortais foram solenemente transladados para a Igreja dos Santos Apóstolos, em Constantinopla. Mais tarde, foram transportados para Roma e colocados na Basílica de São Pedro. Segundo uma tradição, as relíquias chegaram aqui na altura da Quarta Cruzada, após o saque de Constantinopla de 1204.  

Em 1568, o Papa São Pio V proclamou-o Doutor da Igreja e incluiu-o no Breviarium Romanum, juntamente com São Basílio, Santo Atanásio e São Gregório de Nazianzo.        

Cristina Siccardi        

Através de Radio Roma Libera

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1 Comentários

  1. “São João Crisóstomo, “boca de ouro” da pregação”.

    “Em 392, na sequência dos decretos teodosianos, organizou uma expedição para demolir os templos pagãos”

    Em 397, o imperador bizantino Arcádio escolheu São João Crisóstomo para ocupar a cátedra episcopal de Constantinopla e foi consagrado Patriarca a 28 de Fevereiro de 398.

    Governou a Igreja que lhe foi confiada com grande força e rigor, lançando-se contra a corrupção e a licenciosidade dos poderosos

    Pelo seu trabalho de moralização cristã ganhou muitos inimigos na corte, onde havia pessoas que alimentavam o ódio e a inveja por ele, de modo que, apesar dos seus esforços para conduzir pelo recto caminho as almas, mesmo sacerdotais, os resultados desejados nem sempre chegaram devido a uma dura oposição.

    Destituiu muitos sacerdotes indignos, incluindo o Bispo de Éfeso, e chamou monges errantes para viverem em mosteiros.

    O seu estilo de vida, sóbrio, frugal, dedicado à oração, foi de carácter monástico e o seu exemplo sagrado espalhou-se gradualmente entre o clero constantinopolitano.

    O Padre da Igreja foi muito influente ao opor-se rigorosamente às heresias, levantando a sua voz com autoridade na Ásia Menor.

    Resposta:

    Precisamos urgentemente de Novos S. João e de todos os Santos e Santas, Padres da Santa Igreja, do passado, para expulsar os sacerdotes indignos, corruptos, sodomitas, hereges, apostatas, idolatras, mações, satanistas, são os vendilhões infernais das almas, tão duramente compradas por tão alto preço.

    Eles irão colher o que andam a semear, o dó é a perdição de tantas almas.

    Misericórdia, Senhor
    Vinde em Nosso Auxílio, socorrei-nos e salvai-nos.


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