Missa antiga: a amnésia de Roche que contradiz Bento XVI

Foi tornada pública a resposta de D. Arthur Roche, Prefeito da Congregação para o Culto Divino, aos pedidos de esclarecimento do Arcebispo de Westminster, o Cardeal Vincent Nichols, sobre alguns pontos do motu proprio Traditionis Custodes. A 28 de Julho passado, o cardeal perguntava à Congregação competente se estava para chegar uma instrução aplicativa do motu proprio de 16 de Julho e interrogava-se sobre alguns aspectos que o texto de TC deixava em suspenso.  

O cardeal perguntava, entre outras coisas, se o artigo 8 de TC, com o qual vinham revogadas «as normas, instruções, concessões e costumes anteriores, que não estejam em conformidade com as disposições deste Motu Proprio», deveria ser alargado à administração dos sacramentos na forma extraordinária e ao Breviarium Romanum. De facto, TC não fazia qualquer referência a isso, enquanto Summorum Pontificum, no art. 9, §§ 1-3, conferia explicitamente aos párocos a licença «para usar o ritual mais antigo na administração dos sacramentos do Baptismo, do Matrimónio, da Penitência e da Unção dos Enfermos, se tal for aconselhável para o bem das almas», e aos Ordinários «a faculdade de celebrar o sacramento da Confirmação usando o antigo Pontifical Romano», e aos clérigos constituídos in sacris a possibilidade de usar o Breviário de 1962.   

Que a resposta de Mons. Roche não seja inequívoca é o mínimo que se pode dizer, porque, por um lado, afirma que para a Congregação seria claro «que a nova legislação revogue o que anteriormente foi concedido de forma excepcional e limitada», mas, ao mesmo tempo, reconhece que TC «menciona apenas o uso do Missale Romanum de 1962 e as celebrações eucarísticas». Em suma: sim, não, escolhei vós. Desde que se siga o critério orientador de todo o motu proprio, ou seja, tolerar as excepções e impedir o desenvolvimento: «Houve consideráveis mal-entendidos das medidas precedentes – explica Mons. Roche – com o aumento de práticas, desenvolvimento e promoção, que, em não pequena parte, encorajaram um crescimento que não tinha sido previsto ou sancionado pelos pontífices anteriores».     

Roche segue a linha expressa por Francisco na carta que acompanha TC, segundo a qual as intenções de reconciliação do mundo “tradicionalista” de João Paulo II e Bento XVI foram, mais tarde, mal compreendidas como se tivessem sancionado um “crescei e multiplicai-vos”.       

Summorum Pontificum tinha permitido a cada sacerdote de rito latino, nas Missas sem povo, celebrar usando o antigo Missal (art. 2), permitindo também a participação dos fiéis (art. 4); tinha alargado esta possibilidade aos institutos de vida consagrada e às sociedades de vida apostólica, desde que nas comunidades isto pudesse acontecer, «frequente ou habitualmente ou permanentemente», com a autorização dos Superiores Maiores (art. 3). Instava também os párocos a acolherem os pedidos de grupos estáveis ligados à antiga liturgia, prevendo celebrações tanto nos dias feriais como nos dominicais, e também em ocasiões particulares (art. 5). É evidente que se trata de um acto de governo que visa tirar os antigos ritos litúrgicos da natureza excepcional do regime de indulto; caso contrário, ter-se-ia ficado com a legislação prevista, em 1984, pela Quattuor abhinc annos. É também evidente que estas concessões teriam necessariamente multiplicado o número dos sacerdotes, dos fiéis, das celebrações; não se compreende, por conseguinte, como se pode afirmar que os precedentes pontífices não previram nem sancionaram uma perspectiva de crescimento.        

A resposta de Roche, além de ser contrariada pelo texto do motu proprio de 2007, demonstra também ser completamente estranha a quanto aconteceu, durante quarenta anos, na Igreja no que diz respeito ao antigo rito latino. «O aumento de práticas», como as celebrações dos sacramentos, na forma antiga, além do uso apenas do Missal, não foi o resultado de uma deturpação, mas uma faculdade que a Igreja reconheceu aos institutos “tradicionais”, desde 1988, com a Fraternidade de São Pedro, até 2006, com o Instituto do Bom Pastor. Depois, o motu proprio de Bento XVI, como vimos, estendeu a todos os sacerdotes e aos Ordinários o uso do ritual antigo também para os sacramentos.       

A interpretação do Prefeito da Congregação para o Culto Divino, que faz lembrar muito a dos cúmplices que, durante anos, deliraram – e continuam a fazê-lo – sobre um “espírito do Concílio”, chega ao ponto de fazer, com nonchalance, uma afirmação contradita, apertis verbis, por Bento XVI. «O mal-entendido e a promoção da utilização destes textos, depois de simples limitadas concessões pelos anteriores pontífices, foram utilizadas para encorajar uma liturgia diferente da reforma conciliar (e que foi, de facto, ab-rogada pelo Papa S. Paulo VI) e uma eclesiologia que não pertence ao magistério da Igreja». É pena que Bento XVI tenha dito exactamente o contrário; e não apenas uma vez. O primeiro artigo de SP considera lícito o uso da «edição típica do Missal Romano, promulgada pelo Beato João XXIII em 1962 e nunca ab-rogada, como forma extraordinária da Liturgia da Igreja». Para evitar que alguém fizesse ouvidos de mercador sobre este ponto, na sua carta aos bispos, de 7 de Julho de 2007, Ratzinger
reiterava que, «quanto ao uso do Missal de 1962, como forma extraordinária da Liturgia da Missa, quero chamar a atenção para o facto de que este Missal nunca foi juridicamente ab-rogado e, consequentemente, em princípio sempre continuou permitido». 

De onde vem, então, o mal-entendido (fraudulento)? Interpretação falsa e tendenciosa dos actos pontifícios relacionados com a antiga liturgia, antecedentes ao pontificado de Bergoglio; contradição aberta e óbvia com o que Bento XVI ensinou (com o qual, no entanto, se continua a afirmar estar em perfeita continuidade), e, finalmente, o teatro da carta perdida. O Cardeal Nichols lembra a Roche a existência de um indulto de 1971, concedido pela Congregação para o Culto Divino ao então Arcebispo de Westminster, o Cardeal John Carmel Heenan, para todos os bispos de Inglaterra, para dar aos fiéis a oportunidade de assistir à Missa antiga em determinadas circunstâncias. Estas circunstâncias dizem respeito, sobretudo, às celebrações fúnebres. Incrível, mas verdadeiro, Roche, nascido em West Yorkshire, Bispo Auxiliar de Westminster, depois Bispo de Leeds e, finalmente, Primeiro Secretário e, depois, Prefeito da Congregação que tem competência universal para o Culto, não tem memória desta carta e não a consegue encontrar nos arquivos. Se alguém estiver em contacto com Roche, diga-lhe que a pode encontrar aqui.        

Mas Roche já decidiu, independentemente: «Em qualquer caso, deve ter-se em conta que o n. 8 de Traditionis Custodes revoga todas as normas, instruções, permissões e utilizações anteriores que não estejam em conformidade com a legislação em vigor». Os institutos e as comunidades de rito antigo estão avisados.        

Luisella Scrosati        

Através de La Nuova Bussola Quotidiana          

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2 Comentários

  1. "Missa antiga: a amnésia de Roche que contradiz Bento XVI"

    Se alguém estiver em contacto com Roche, diga-lhe que a pode encontrar aqui.

    "Mas Roche já decidiu, independentemente: «Em qualquer caso, deve ter-se em conta que o n. 8 de Traditionis Custodes revoga todas as normas, instruções, permissões e utilizações anteriores que não estejam em conformidade com a legislação em vigor». Os institutos e as comunidades de rito antigo estão avisados".

    Estamos avisados, também estamos avisados, que NÃO vamos seguir, o que dizeis, hipócritas, obscenos, idolatras, hereges, apostatas, mações, bandidos.
    ides vos encontrar no INFERNO.

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  2. SUPORTEM AS RÍGIDAS SANÇÕES CONTRA AQUELES QUE CONTRAPUSEREM À INTOCÁVEL E IRREVOGÁVEL "QUO PRIMUM TEMPORE"!
    14 - Assim, portanto, que a ninguém absolutamente seja permitido infringir ou, por temerária audácia, se opor à presente disposição de nossa permissão, estatuto, ordenação, mandato, preceito, concessão, indulto, declaração, vontade, decreto e proibição.
    Se alguém, contudo, tiver a audácia de atentar contra estas disposições, saiba que incorrerá na indignação de Deus Todo-poderoso e de seus bemaventurados Apóstolos Pedro e Paulo.
    Dado em Roma perto de São Pedro, no ano da Encarnação do Senhor mil quinhentos e setenta, no dia 14 de Julho, quinto de Nosso Pontificado – Pio Papa V.
    *QUO PRIMUM TEMPORE
    No ano de 1570, indict. 13, no dia 19 de Julho, 5º ano do Pontificado do nosso Santo Padre em Cristo Pio V, Papa pela Providência divina, as cartas anexas foram publicadas e afixadas nas portas da Basílica do Príncipe dos Apóstolos e da Chancelaria Apostólica e de igual maneira à extremidade do Campo Flora como de costume, por nós Jean Roger e Philibert Cappuis, camareiros, Scipico de Ottaviani, Primeiro Camareiro.
    * http://www.montfort.org.br/bra/documentos/decretos/quoprimum/

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