Fé e Igreja em Dante (1.ª parte)

Não só um compêndio de toda a doutrina cristã, a Divina Comédia representa também, e sobretudo, uma resposta eficaz aos desafios dos dias de hoje. Bento XV já o escreveu, em 1921, na encíclica In præclara summorum, em que se lê: «Nós acreditamos que os ensinamentos deixados por Dante em todas as suas obras, mas especialmente no seu tríplice poema, podem servir qual validíssimo guia para os homens do nosso tempo». Mas não só. Característica do Sumo Poeta é a de atrair mentes, corações e almas à fé, a ponto de levar o Dr. Giovanni Galletto, psicólogo e psicoterapeuta, a escrever um livro de 218 páginas, publicado, este ano, pela Fede&Cultura, com o título muito explícito Il Vangelo secondo Dante. Quando la fede incontra la poesia. O apelo à fé é tão forte nesta obra que «alguns, mesmo recentemente, distantes sim, mas não adversos a Cristo», estudando-a, «por graça divina, começaram, primeiro, a admirar a verdade da fé católica e, depois, acabaram por se atirar entusiasticamente para os braços da Igreja».

Singular a ponto de fazer reflectir é o que Dante, referindo-se a Santo Agostinho, considera ser, com razão, o maior milagre: «A rápida difusão do Cristianismo é já em si um milagre muito maior do que os milagres narrados, tanto mais se considerarmos que a difusão se deu através da pregação de homens, os apóstolos, privados de meios e de cultura». Encontramos novamente este conceito claramente no Paraíso, canto XXIV, versos 106-111: «Se o mundo se converteu ao cristianismo sem que aqueles que o pregavam fizessem milagres, só isto é um milagre tal que todos os outros não passam de uma centésima parte dele; tanto mais que tu, ó Pedro, pobre de meios e sem cultura, entraste no mundo para semear a semente da boa planta, já uma videira frutífera e agora reduzida a uma silhueta estéril». 

Além disso, «para a salvação é necessária a fé em Cristo», como escreve Dante: «Nunca ascendeu a este reino quem não acreditou em Cristo». Não bastam, pois, nem o saber, nem apenas a razão: «A sabedoria humana é, em si mesma, incapaz de compreender e penetrar as verdades supremas e, para tal compreensão, precisa da luz da fé», escreve Galletto, evocando os versos 52-57, do canto XIX, do Paraíso, do Sumo Poeta: «Portanto, a vossa visão intelectual, que é necessariamente apenas um raio da mente divina com que todas as coisas são preenchidas, não pode, pela sua natureza, ser tão poderosa a ponto de discernir, de penetrar, o princípio do qual deriva, ou seja, o próprio Deus, muito para além do que lhe é sensatamente perceptível».    

Luigi Bertoldi

Através de Radio Roma Libera 

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