São João Nepomuceno, mártir do sigilo da Confissão

Pode-se morrer para manter o segredo da Confissão? Aconteceu ao mártir João Nepomuceno, geralmente representado com o dedo sobre os lábios cerrados ou acompanhado por um anjo que se apresenta do mesmo modo; noutras representações, por outro lado, é retratado enquanto ouve a confissão da Rainha da Boémia, Joana da Baviera (1362-1386), consorte de Venceslau IV (1361-1419), e todas as suas efígies são comumente colocadas perto das pontes, nas igrejas ou junto dos confessionários.     

Nascido, por volta de 1350, na cidade de Nepomuk, na Boémia (actual República Checa), ingressou no clero secular, estudando, primeiro, Teologia e Direito na Universidade de Praga, e, depois, na Universidade de Pádua, onde obteve, em 1387, uma licenciatura em Direito Canónico.    

Foi nomeado Cónego na Igreja de Santo Egídio, em Praga, e, em 1389, tornou-se Pároco da Igreja de São Galo, bem como Cónego da Catedral de Vyšehrad. Em 1390, renunciou à Paróquia de São Galo para se tornar Arcediago de Žatec e, ao mesmo, tempo Cónego da Catedral de São Vito. Fez-se notar pelas suas habilidades como Notário na Chancelaria Episcopal e, depois, como Protonotário e Secretário do Arcebispo de Praga, João de Jenštejn (1347/48-1400), este último nomeou-o Presidente do Tribunal Eclesiástico e, em 1393, seu Vigário-Geral. Foi então que foi envolvido no violento conflito que opôs São João ao Rei da Boémia e da Alemanha, que, no contexto do desenvolvimento do movimento dos hussitas (seguidores da doutrina do teólogo boémio Jan Hus, que fundou um grupo revolucionário cristão na Boémia do século XV; foram os precursores, juntamente com os lollardos, de John Wycliffe, da Revolução Protestante), queria estender a sua influência com o objectivo de colocar as mãos sobre os bens eclesiásticos.  

Em 1392, esta luta entrou numa fase aguda quando Venceslau IV fez com que três clérigos fossem julgados por um dos seus juízes e, desejando fundar uma nova diocese para um dos seus favoritos, ordenou que, com a morte do Abade Racek, do Mosteiro de Kladruby, nenhum novo abade fosse eleito e que a igreja da abadia fosse transformada numa sede episcopal sob o seu controlo. O Vigário-Geral, João, opôs-se vigorosamente a esta ordem, que violava o Direito Canónico. Quando o Abade Racek morreu, em 1393, os monges de Kladruby imediatamente elegeram o monge Olenus e o Vigário-Geral prontamente confirmou essa escolha, independentemente das reacções de Venceslau IV, que o prendeu juntamente com o Vigário da Catedral, o P. Venceslau de Meissen, o assistente do Arcebispo e, sucessivamente, o Decano dos Cónegos da Catedral. Foram torturados, a 4 de Março de 1393, e três deles cederam aos pedidos do rei, enquanto João resistiu até o fim, apesar da fúria dos torturadores, que também o sujeitaram à queima dos seus quadris com tochas, mas tudo foi inútil. Finalmente, a 20 de Março, o soberano ordenou que o conduzissem pelas ruas de Praga para atirá-lo ao rio Moldava. Por isso, o local da sua execução, a ponte Carlos IV, tornou-se objecto de veneração e o martírio é recordado por uma placa. O seu corpo foi encontrado a 17 de Abril, encontrando repouso no magnífico monumento sepulcral, totalmente cinzelado, na Catedral de São Vito, em Praga.     

Nas décadas de 20 e 30 do século XV, os escritores checos e alemães espalharam o boato de que São João tinha sido o confessor da esposa de Venceslau IV, que queria saber esses segredos, todavia, porque se recusou a revelar-lhe as confidências que dela recebera, para não trair o sigilo da Confissão, o rei submeteu-o à tortura, mas, diante da sua determinação de conservar o silêncio absoluto, condenou-o à morte.         

No século XVIII, graças aos Jesuítas, o seu culto teve uma enorme difusão em grande parte da Europa. Em 1672, a estátua do santo foi colocada na ponte Carlos IV, em Praga, e outros monumentos foram colocados em muitíssimas igrejas e santuários. O processo de elevação à honra dos altares iniciou-se, em Praga, no século XVII, e terminou com a beatificação, em 1721, e a canonização, em 1729, sob o pontificado de Bento XIII (1649-1730). Os actos da canonização baseiam-se na tradição de que o santo morreu, em 16 de Maio de 1383, assassinado por causa da sua recusa em revelar o que a rainha lhe dissera em confissão.          

Devido às dúvidas sobre a historicidade de São João, entre 1919 e 1920, muitos monumentos a ele dedicados na Boémia foram destruídos. Em 1973, pesquisas antropológicas sobre os seus vestígios confirmaram a sua compatibilidade cronológica com o período histórico ao qual foram atribuídos, de modo que o culto recuperou vigor. Em 1993, seis séculos após a sua morte, foi declarado, pelo Arcebispo de Praga, Cardeal Miloslav Vlk (1932-2017), o “ano de São João Nepomuceno”.    

Na Itália, são muitas as estátuas erguidas a São Nepomuceno presentes nas igrejas, em pontes e nas praças. Depois da canonização, o seu culto também rapidamente se espalhou para Veneza. No bairro de San Polo, na igreja homónima, acima da entrada, há uma luneta com afrescos que o retrata; na capela a ele dedicada na mesma igreja, o retábulo de Giovanni Battista Tiepolo retrata-o em veneração a Nossa Senhora com o Menino e uma outra tela do seu filho, Giovanni Domenico, representa o seu martírio. Também em Veneza, a presença do santo boémio é generalizada em muitos lugares sagrados, como nas Igrejas dos Santos Apóstolos, de Santo Estêvão, de São Nicolau dei Mendicoli, de São Jeremias, de São Martinho. Uma estátua a ele dedicada está localizada no Grande Canal, na entrada do canal de Cannaregio. Juntamente com a Virgem Maria, São João Nepomuceno é o patrono e protector dos gondoleiros.                 

Cristina Siccardi        

Através de Corrispondenza Romana    

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