Soldados de Deus (1.ª parte)

A voz e a acção da Igreja foram muito importantes durante o decorrer da Primeira Guerra Mundial; todavia, os sinais de um conflito imponente já haviam entrado nos Palácios Sagrados muito antes do assassinato, em Sarajevo, do Arquiduque Francisco Fernando (28 de Junho de 1914), herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro.        

A 21 de Agosto, faleceu o Papa Sarto e o novo Pontífice, Bento XV, chamou como Secretário de Estado, depois da morte do Cardeal Domenico Ferrata, o Cardeal Pietro Gasparri, autor do Codex iuris canonici (1917). Discípulo de Leão XIII, jurista sólido, hábil diplomata e homem prático, foi, juntamente com o Cardeal Bonaventura Cerretti, o mais válido colaborador de Bento XV.     

A atitude que o Sumo Pontífice assumiu e manteve durante a Primeira Guerra Mundial está claramente delineada já na encíclica Ad Beatissimi Apostulorum, de 1 de Novembro de 1914. A verdadeira causa da «desastrosíssima guerra» é, para o Papa, o desaparecimento das organizações estatais das normas e das práticas cristãs: «De facto, desde que se deixaram de observar, no ordenamento estatal, as normas e as práticas da sabedoria cristã, que por si só garantiam a estabilidade e a tranquilidade das instituições, os Estados começaram necessariamente a vacilar nas suas bases e seguiu-se nas ideias e nos costumes tal mudança que, se Deus não providenciar em breve, parece iminente o colapso do consórcio humano». 

Os males da sociedade eram assim identificados: «a falta de amor mútuo entre os homens, o desprezo pela autoridade, a injustiça das relações entre as várias classes sociais, o bem material tornado único objectivo da actividade humana, como se não houvesse outros bens, e muito melhores, a alcançar. São estes, na Nossa opinião, os quatro factores da luta que tão gravemente viram o mundo de pernas para o ar. Devemos, portanto, trabalhar diligentemente para eliminar tais desordens, relembrando vigorosamente os princípios do cristianismo, se realmente pretendemos acabar com todos os conflitos e colocar em ordem a sociedade [...]. É a palavra de paz que volta aos Nossos lábios; por isso, com votos fervorosos e insistentes, voltamos a invocar, tanto para o bem da sociedade como da Igreja, o fim da actual desastrosíssima guerra».          

O documento condena o egoísmo nacionalista, o ódio racial, a luta de classes. Bento XV, desde o início do seu pontificado, denunciou, aos chefes das potências beligerantes e aos povos, as causas ideológicas comuns do conflito, insistindo, de maneira particular, na descristianização da sociedade e nos interesses puramente empíricos da actividade do homem moderno, sempre mais inclinado à satisfação das próprias necessidades materiais e dos prazeres pessoais.   

Em geral, os católicos na Itália aderiram à neutralidade, alinhando-se com as posições da Santa Sé. Uma parte (a minoria) tomou posição, porém, em defesa da Áustria, considerada um baluarte contra os inimigos de Deus e da Europa cristã; esses viram na guerra um flagelo de Deus «ad corripiendos nomine», causado pela rebelião das sociedades contra o Omnipotente e julgaram o conflito como uma realidade apoiada pela Maçonaria para eliminar os reinantes católicos: a trágica história do Imperador Carlos de Habsburgo (beatificado em 2004) é disso um testemunho vivo.   

Cristina Siccardi        

Através de Radio Roma Libera

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