Ratzinger versus Bento XVI: afinal, o que mudou?

O Papa Bento XVI celebrou, a 29 de Junho, dia dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, o 70.º aniversário da sua ordenação sacerdotal, recebida em 1951 e conferida pelo Cardeal Michael von Faulhaber, Arcebispo de Munique e Freising. Joseph foi ordenado juntamente com o irmão mais velho, Georg, falecido em Julho de 2020. Em 1952, iniciou a sua actividade académica, enquanto docente de Teologia Dogmática e Fundamental, na Escola Superior de Filosofia e Teologia de Freising. Posteriormente, ensinou noutras escolas, destacando-se a protestante Faculdade de Teologia de Bonn, tendo-se cruzado, em Tubinga, na década de sessenta, com o herético Hans Küng, recentemente falecido, com quem manteve uma relação de discreta amizade, devendo-se relembrar o encontro que ambos tiveram, em Castel Gandolfo, pouco depois da eleição do Cardeal Ratzinger, ocorrida a 19 de Abril 2005, para o Sólio Pontifício. Nos anos do Concílio Vaticano II, mais especificamente entre 1962 e 1965, Ratzinger foi peritus, quer dizer, consultor teológico, do progressista Cardeal Joseph Frings, Arcebispo de Colónia, popular pelos seus ataques à propriedade privada e pela organização de encontros com membros de outras religiões, algo tão característico do Pontificado de Francisco. Nomeado Arcebispo de Munique e Freising poucos dias antes de completar cinquenta anos, em Março de 1977, foi elevado a cardeal, por Paulo VI, três meses depois. Em 1981, foi nomeado, por João Paulo II, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, a mais importante das congregações do Vaticano, tendo-se conservado no lugar até à sua eleição pontifícia. Participou em três Conclaves e abandonou a Barca de Pedro, sem uma cabal justificação, no dia 11 de Fevereiro de 2013.

Conhecido pelas suas posições progressistas por ocasião do malfadado conciliábulo convocado por João XXIII e encerrado por Paulo VI, Ratzinger, crê-se, foi “melhorando”, ao longo dos anos, as suas posições, especialmente no campo teológico, o que, no momento da sua eleição papal, depois do longo Pontificado de João Paulo II, viria a garantir uma certa continuidade com o pensamento do polaco Wojtyła. Mas será que Bento XVI se converteu autenticamente num conservador ou, pelo contrário, continuou a ser um convicto adepto do Concílio e das ideias modernistas que dele saíram e que ganharam forma também graças à sua colaboração? Num texto publicado em 2012, nos cinquenta anos da solene abertura do Vaticano II, Bento XVI escrevia que «o cristianismo, que construíra e plasmara o mundo ocidental, parecia perder cada vez mais a sua força eficaz. Mostrava-se cansado e parecia que o futuro fosse determinado por outros poderes espirituais. Esta percepção do cristianismo ter perdido o presente e da tarefa que daí derivava estava bem resumida pela palavra “actualização”: o cristianismo deve estar no presente para poder dar forma ao futuro». Fica-se a perceber, lendo este excerto, que Ratzinger era, e continua a ser, um acérrimo defensor do Concílio e do novo panorama que, nas últimas seis décadas, caracteriza a Igreja Católica, mais do que nunca marcado por um cristianismo «cansado» e que dá mostras de estar à mercê de «outros poderes espirituais» que não o do seu Divino Fundador. Uma constatação da forte ligação de Bento XVI aos ideais conciliares pode ser encontrada no termo “hermenêutica da continuidade”, expressão de que o pontífice alemão se serviu, no discurso à Cúria Romana de 22 de Dezembro de 2005, para sustentar uma interpretação dos textos do Concílio no sulco da Tradição e, mais ainda, para alegar que a correcta recepção do mesmo ainda não fora feita. Ora, se o Concílio veio romper com a Igreja que, no entender de Ratzinger, «parecia perder cada vez mais a sua força eficaz», como é possível haver uma continuidade com os vinte Concílios realizados até ao século XIX? E, ademais, de que forma é possível interpretar positivamente algo que, desde o seu começo, foi caracterizado, simultaneamente, pela indefinição dogmática e pela desejada ruptura com a Tradição?

Uma outra evidência de tudo isto está bem patente no Motu Proprio Summorum Pontificum, de 7 de Julho de 2007, que “regula” a celebração da Santa Missa na sua “forma extraordinária”, termo também concebido pelo criativo Papa Ratzinger, utilizando-se, para o efeito, o reformado Missal de 1962, caracterizado pela sua avançada progressista e revolucionária em matéria litúrgica, que viria a culminar com a adopção, em 1969, do Missal montiniano, vigorosamente acolhido pelos protestantes e torpemente imposto à Cristandade. No dito Motu Proprio, Bento XVI elogia o novo rito, defendendo que o mesmo se adequa «às necessidades da nossa época», e escreve que «as duas Formas do uso do Rito Romano podem enriquecer-se mutuamente: no Missal antigo poderão e deverão ser inseridos novos santos e alguns dos novos prefácios». Resumidamente, Bento propunha uma mistura dos dois ritos tendo em vista, segundo uma interpretação da nossa parte, a sua fusão num só, algo que, sendo inusitado, é também uma ofensa à multidão de Santos que, no decorrer dos séculos, «lavaram as suas túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro» (Ap 7, 14). Como pode alguém ousar desejar que se invoque, na mesma Missa, São Pio V e “são” Paulo VI ou São Gregório de Nazianzo e “são” Óscar Romero? Para além de demasiada criatividade, pode este ser considerado um gesto de insipiência. Desnecessário será dizer que o Motu Proprio continua a ser colocado de lado e que, sem grande admiração, Francisco se prepara para aplicar ao texto ratzingeriano a política eclesiástica dos três R’s: repensar, reformar e reciclar.

Bento XVI já se tornou o Romano Pontífice mais longevo, permanecendo intelectualmente muito activo e atento ao que se passa na Igreja e no mundo. Mesmo continuando a vestir-se de branco e a conceder a bênção apostólica, reitera que «o Papa é um só, Francisco». De sublinhar que, não obstante as alegadas “melhores posições”, nunca rejeitou todo o trabalho demolidor levado a cabo no Concílio. Também isso dá que pensar e pode ajudar a que se evite uma precipitada elevação de Bento XVI à honra dos altares, como tem sido tão característico nos Papas do Concílio, numa clara tentativa de justificação do injustificável. Verum velle, parum est!     

D.C.    

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