As Olimpíadas dos novos pecados politicamente correctos

As Olimpíadas de Tóquio de 2020 começam da pior maneira. Em primeiro lugar, porque, como sugere a própria data, começam com um ano de atraso devido ao COVID. Em segundo lugar, porque os contágios estão a aumentar no Japão e 91 casos estão directamente ligados à organização dos Jogos. Mas, sobretudo, a fazer notícia é uma série de retumbantes demissões da alta administração da organização. A última delas veio ontem: Kentaro Kobayashi, director da cerimónia de abertura, demitiu-se ontem, pedindo desculpa em público. A razão? Em 1998 (há 23 anos), num espectáculo teatral transmitido na televisão, o humorista japonês fez uma piada sobre o Holocausto.  

A sua demissão foi precedida uma semana daquela de Keigo Oyamada, vulgo “Cornelius”, músico pop de renome internacional, que compôs as músicas da cerimónia inaugural e de encerramento dos Jogos. O motivo? Em criança, quando frequentava a escola, fazia bullying sobre os seus colegas de turma. Falou sobre isso numa entrevista divulgada há 26 anos que, obviamente, ressurgiu nas últimas semanas.   

Hiroshi Sasaki, director criativo, também se demitiu em Março. Não tinha feito bullying sobre nenhum colega de turma, não fez piadas sobre o Holocausto. Mas contou uma piada sobre uma actriz japonesa obesa. Com um trocadilho, apelidou-a de “Olympig”, unindo as palavras inglesas de Olimpíadas e de porco. Escândalo, demissão e desculpas em público.   

No mês anterior, também Yoshiro Mori, de 83 anos, foi forçado a demitir-se, após uma rápida e violenta campanha na imprensa, como chefe do comité organizador. Brincou muito acerca das mulheres, afirmando que não queria reservar uma quota de 40% rosa no comité (onde estavam presentes 5 mulheres em 26 membros), porque “falam muito” e, por isso, as reuniões seriam muito mais longas. «Se uma delas levanta a mão para intervir, as outras pensam que são obrigadas a responder e, no final, todas falam». Oprimido pelos comentários negativos nas redes sociais, depois de uma breve resistência, apesar da idade e da sua fama como dirigente desportivo, bem como ex-Primeiro-Ministro do Japão (2000-2001), Yoshiro Mori teve que renunciar.

Mas mesmo nas equipas participantes não faltam escândalos. A última, por ordem cronológica, diz respeito ao Comité Olímpico Australiano, cujo presidente, John Coates, em conferência de imprensa, sugeriu fortemente à Primeira-Ministra de Queensland, Annastacia Palaszczuk, que participasse na cerimónia de abertura. Por um motivo muito simples: a sede das Olimpíadas de 2032 será Brisbane, portanto, além dos temores sobre o COVID (razão pela qual Palaszczuk não irá a Tóquio), é bom que a Primeira-Ministra vá e aprenda com a experiência dessas Olimpíadas. E onde estaria o escândalo neste caso? Sugerir a uma mulher como comportar-se é mansplaining, falta gravíssima para o politicamente correcto. A pessoa directamente envolvida não está ofendida contra Coates, mas as redes sociais australianas estão-se a encher de insultos e pedidos de demissão.

Já entendemos, consequentemente, que nestas Olimpíadas, em primeiro lugar, vence quem sobrevive... às machadadas do politicamente correcto. Mas falar simplesmente de “politicamente correcto”, neste caso, é um eufemismo.         

Pela primeira vez, de facto, estamos a assistir a um novo rito: o passado de todos os personagens à vista é minuciosamente investigado e à menor imperfeição responde-se com a obrigação da demissão e de uma confissão pública do pecado cometido. Pecado, não um crime, porque nem sequer se aguarda um possível julgamento (que se concluiria, quase certamente, com uma absolvição). Esta mentalidade, que nasceu na secularizada América puritana dos ambientes liberal, evidentemente espalhou-se por todo o mundo, até mesmo no Japão, onde está inserida no código de honra local. E assim vemos personagens de sucesso, jovens e idosos, no apogeu das suas carreiras, até mesmo um ex-Primeiro-Ministro, que baixam a cabeça, rendendo-se, confessando as suas faltas que datam de décadas anteriores ou consistem numa única piada pouco apreciada.     

É o contrário do sacramento da Reconciliação. Onde para um católico a confissão é secreta e pessoal, aqui é pública e transmitida para todo o mundo. Não há perdão: a mancha do passado permanece para sempre e causa a perda do próprio estatuto social. E mudam os pecados que não têm nada que ver com os Dez Mandamentos. Uma piada, por mais desagradável que seja, não é um pecado mortal. Mas torna-se em tal para o novo culto, especialmente se diz respeito a mulheres e minorias. Uma atitude considerada “paternalista” (como mansplaining) torna-se um pecado capital, mesmo que seja cometida por um homem que não tinha intenção alguma de ofender o próximo. E para julgar e condenar existe a “massa”: o grande público das redes sociais e os telespectadores de todo o mundo. São eles que, devidamente instigados por minorias militantes e permanentemente mobilizadas, condenam sem apelo. As autoridades recorrem à censura preventiva, para não perder prestígio, e os condenados devem-se render e expiar.      

Stefano Magni          

Através de La Nuova Bussola Quotidiana          

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