As escolhas de Francisco

Desde a sua eleição, ocorrida a 13 de Março de 2013, o Papa Francisco tem-nos surpreendido com palavras, gestos e acções que podem ser considerados inéditos. Há quem muito os aprecie, principalmente aqueles que, qual milagre luzidio, de ferozes críticos da Igreja Católica passaram subitamente a ser convictos admiradores e defensores de Jorge Mario Bergoglio, sem, contudo, se converterem à única e verdadeira Santa Religião. Um dado intrigante. Mas também há os “católicos mornos”, desde cardeais e sacerdotes a simples fiéis leigos, que nutrem uma profunda admiração pelo Pontífice, muito especialmente por, tal como dizem, ter terminado com um passado que “cheirava a mofo”. Uns e outros estão profundamente errados. Pior do que isso, permanecem no erro – alguns dos hierarcas fazem desse erro um quase magistério paralelo –, vangloriam-se disso e conduzem outros à confusão!          

Na primeira saudação que dirigiu à Cristandade, Francisco apresentou-se imediatamente como Bispo de Roma e, com a mesma rapidez, apresentou Bento XVI como «Bispo emérito». Ainda que seja verdade que o Papa também é o Bispo de Roma, a real interpretação da expressão de Francisco veio a concretizar-se quando, no ano passado, por ocasião da publicação do Anuário Pontifício, abdicou do título de Vigário de Cristo, Vicarius Christi, aquele que faz a ligação entre a Divina Majestade e o mundo dos exilados que aguardam a salvação e a misericórdia que apenas Ele, Criador de todas as coisas, pode conceder aos que na Sua graça expirarem. Quanto ao hipotético título de bispo emérito para um Romano Pontífice que abdicou do Ministério Petrino, não existe qualquer fundamento em tal designação, mas tão-somente uma aguçada criatividade jesuíta. Para além do primeiro discurso de Francisco, carregado de imprecisões, têm-se vindo a somar outros tantos acontecimentos, verbi gratia: em 2018, o Pontífice alterou o Catecismo da Igreja Católica no que dizia respeito à posição da Igreja em relação à pena de morte, passando a considerá-la «inadmissível», algo que contraria o Magistério ininterrupto da Igreja; em Maio do ano passado, no mesmo dia em que foram despedidos inúmeros funcionários do Estado da Cidade do Vaticano, ironicamente quando se comemorava a festa de São José Operário, o Papa revogou quatro cânones do Código de Direito Canónico para promover os Cardeais Luis Tagle, actual Prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos, e Beniamino Stella, Prefeito emérito da Congregação para o Clero, à ordem episcopal do Colégio Cardinalício. Tagle é, conforme se aponta, um “favorito” para a sucessão de Francisco, sendo esta mudança propícia para que o filipino possa participar na eleição do Decano do Colégio e, consequentemente, ser eleito; por último, em Outubro de 2020, foi renovado, com o feliz consentimento de Francisco, o malfadado acordo sino-vaticano, que continua a ignorar a Igreja que é realmente perseguida e massacrada em detrimento da “igreja oficial” do regime comunista de Pequim. Estes três exemplos, que se poderiam multiplicar abundantemente, são continuamente silenciados fora e dentro da Igreja, como que revelando um alinhamento para que a imagem de Francisco não saia minimamente beliscada. Qual será a percentagem daqueles que têm conhecimento destas perturbadoras façanhas? E, já agora, onde está a resposta do Pontífice às cinco questões que, em Setembro de 2016, quatro cardeais, dois dos quais já falecidos, lhe dirigiram com o intuito de obterem esclarecimentos sobre a Exortação Apostólica Amoris Lætitia?         

A somar a estes acontecimentos, o Bispo de Roma, como gosta de ser tratado, dirigiu, no pretérito dia 21 de Junho, uma carta, originalmente redigida em castelhano, ao jesuíta americano James Martin, muito conhecido pela sua cruzada pró-LGBT, nunca hesitando em pisotear a doutrina inalterável da Igreja para beneficiar aqueles que persistem no caminho do extermínio interior e espiritual. No escrito, Francisco, também ele jesuíta, caracteriza Martin como sendo «um sacerdote para todos e todas, como Deus é Pai de todos e todas. Rezo por ti para que possas continuar dessa forma, sendo próximo, compassivo e com muita ternura», e, mais à frente, elogia o «zelo pastoral» do norte-americano e a «capacidade de ser próximo das pessoas com aquela proximidade que tinha Jesus e que reflecte a proximidade de Deus». A referida carta conhece a sua origem num e-mail que o P. Martin enviou ao Papa e em que lhe transmitia informações sobre a conferência Outreach 2021, dirigida àqueles que «se ocupam dos católicos LGBT», conforme é sabido. Desengane-se quem possa pensar que a iniciativa visa conduzir os homossexuais à mudança de vida. Martin almeja, isso sim, levar a Igreja à “conversão arco-íris”, uma conversão que se deverá distinguir pela rejeição dos valores do Evangelho em prol duma desonesta adopção de maus princípios e, principalmente, que deverá culminar com a subalternidade da Igreja de Cristo ao poderosíssimo lobby LGBT e aos poderes mundanos. Se dúvidas tivéssemos, passamos a ficar cientes daquilo que o actual Pontificado e aqueles que o alimentam representam para a Igreja e para o mundo. Falta acrescentar que foi o próprio Papa Francisco quem nomeou o P. James Martin como consultor do Dicastério para a Comunicação do Vaticano. Será tudo um acaso? «Nemo potest duobus dominis servire» (Mt 6, 24). 

D.C.    

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