«O Senhor nunca chamaria um homem à esterilidade», reputa, em entrevista, o Abade de Fontgombault

O portal Dies Iræ publica a entrevista que realizou, em exclusivo, ao Abade de Fontgombault, abadia beneditina localizada no Centro de França. Ao longo da entrevista concedida, D. Jean Pateau, abade desde o dia 7 de Outubro de 2011, aborda o dia-a-dia monástico e trata também de algumas questões relacionadas com a vida da Igreja, prestando particular atenção à Sagrada Liturgia.    

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1. Reverendíssimo Padre, muito obrigado por nos conceder esta entrevista e, de certa forma, por nos permitir entrar na quase milenar Abadia de Fontgombault. Como é o dia de um monge beneditino e qual é o ritmo quotidiano da abadia?
       

O dia de um monge beneditino é guiado pelas horas da oração oficial da Igreja, tais quais São Bento precisou na sua Regra. O Pai dos monges do Ocidente nomeia este tempo Opus Dei, Obra de Deus. Durante a semana, o monge acorda às 04h50, mais cedo ao domingo e nas festas. Dom Guéranger, fundador da Abadia de São Pedro de Solesmes, da qual Fontgombault é filha, não retomou o ofício das Matinas a meio da noite. Nós recitamos as Matinas no fim da noite e estas são seguidas pelo canto das Laudes, primeiro ofício do dia. Os dois ofícios terminam às 06h45. Depois disso, os sacerdotes celebram as Missas privadas, servidas pelos irmãos e noviços. Depois da acção de graças, é a hora do pequeno-almoço. Às 08h15, o ofício de Prima é seguido do Capítulo, durante o qual são lidos o martirológio e uma passagem da Regra de São Bento. De seguida, os monges consagram uma boa hora à lectio divina, uma leitura orante da Bíblia. Às 10h00, o oficio de Terça precede a Missa conventual, cantada pelo hebdomadário, o monge sacerdote que preside à oração litúrgica durante uma semana. A Missa é seguida das aulas de Teologia e de Filosofia, para os estudantes, e do trabalho manual, para os outros. A manhã termina, às 12h50, com o ofício de Sexta. Depois, vem o almoço e a recreação até às 14h35, com o ofício de Nona. Os monges retomam o trabalho manual. O ofício das Vésperas, às 18h00 durante a semana, é solene. É precedido de meia-hora de oração, seguido de leitura espiritual e do jantar, às 19h30. Logo depois, os monges terão tempo para rezar o terço; às 20h25, reúnem-se uma última vez no Capítulo para a leitura que precede imediatamente o ofício das Completas. O dia do monge chega ao seu fim e este vai entrar na sua cela para o descanso nocturno.           

2.
É muito comum ouvir que a vida consagrada, em particular a vida contemplativa, é estéril, sobretudo num mundo repleto de sugestões e de seduções. Que resposta daria a quem pensa desta forma?    

O mundo valoriza o que se vê e se conta. É mais atento ao fazer que ao ser. O dia-a-dia monástico, como pode constatar, não é desocupado... é ocupadíssimo. Os nossos visitantes e até mesmo os noviços, nos primeiros dias em que vivem entre nós, espantam-se. O monge durante o dia faz muitas coisas nos serviços para os quais está designado: a cozinha, a recepção dos hóspedes e a portaria, a manutenção da igreja, do mosteiro e do bosque, a horta e o pomar, a granja e a central eléctrica, a olaria e os ateliers de arte. Some-se a isto o trabalho intelectual dos estudantes da comunidade e também dos hóspedes que nos visitam. Os monges fazem algo e a sua vida, mesmo no plano material, não é estéril. Mas a resposta correcta não está aí. A vida contemplativa é fecunda se dá a Deus o culto que lhe é devido. A vocação do monge é “procurar a Deus”. Entregar-se totalmente a esta procura é sempre uma resposta livre ao chamamento que o Senhor dirigiu ao jovem homem rico e, através dele, a todos os homens: «Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu; depois, vem e segue-me» (Mt 19, 21). O Senhor nunca chamaria um homem à esterilidade. Muito pelo contrário, seguir Jesus é a segurança da suprema fecundidade. Que os monges possam responder na verdade a este chamamento pela fidelidade da sua vida. Então, esta união profunda com Deus brilhará, transbordará sem ser vista, um pouco como a chuva que vem fecundar o trabalho daqueles que, na Igreja, se entregam com generosidade ao apostolado exterior.   

3. Vossa Paternidade é natural da célebre e contra-revolucionária região da Vendeia. Ao longo do seu discernimento vocacional, o que o fez optar pela vida monástica e não pelo sacerdócio numa diocese? O que pode levar um jovem do século XXI a seguir tal vocação?    

O primeiro chamamento do Senhor, recebido bem cedo na minha vida, parecia-me levar ao sacerdócio diocesano. Foi a visita ao Mosteiro de Fontgombault que me conduziu à vida monástica. A figura do pequeno Samuel dormindo no templo impunha-se-me. Eu queria realmente viver próximo do altar do Senhor, dormir na casa de Deus. A vida monástica tornou-se, então, a única resposta possível. Muitos outros motivos podem conduzir um jovem homem do século XXI à vida monástica: a beleza da liturgia, o desejo de uma vida fraterna e a procura radical de Deus, a fuga do mundo... mas no fundo, com o tempo, tudo se resumirá e deverá reduzir-se à procura de Deus, à vida de comunhão de todos os momentos com Ele. É aí que o monge será verdadeiramente livre, será todo de Deus... e será verdadeiramente monge.          

4.
A Abadia de Fontgombault é conhecida por conservar a forma tradicional do Rito Romano, tanto no Ofício Divino quanto no Santo Sacrifício, muito se devendo aos esforços de Dom Antoine Forgeot. São cada vez mais os fiéis, essencialmente jovens, que procuram a Santa Missa tradicional, encontrando muitas resistências nos seus bispos. Qual é a experiência de Vossa Paternidade em relação à Tradição?      

Antes de mais, devo dizer que há já um bom tempo que as relações da Abadia com o episcopado francês são realmente boas e isto graças à obra do Abade Antoine. Nós aprendemos a conhecer-nos, a aceitar-nos. Muito ligado à forma tradicional tal como é praticada na Abadia, acontece-me celebrar, por vezes, a forma ordinária. A liturgia será sempre um equilíbrio entre um pólo humano, a sua função de reunir e de ensinar, e um pólo divino, o culto propriamente dito, cujo fim é a glória de Deus. Esta tensão só se resolve perfeitamente em Cristo, plenamente homem e plenamente Deus. Incontestavelmente, a forma extraordinária é mais orientada para Deus, para a celebração do mistério. Sofro profundamente por causa das divisões e tensões que nascem devido à falta dos bispos, dos sacerdotes, mas também dos fiéis, em torno da celebração da Missa. Por obra do diabo, o sacramento da Eucaristia, testamento do amor de Deus pelos homens, pode tornar-se um lugar de divisão seguida de combates. A Igreja é ferida pelo mal da ideologia e das faltas contra a caridade, quer venham de um lado ou de outro. Pelo Motu proprio Summorum Pontificum, de Bento XVI, a situação apazigou-se. Lamento, contudo, que o desejo do Papa de uma mútua influência dos dois Missais tenha recebido tão pouco eco. Fiéis da forma ordinária e da forma extraordinária, todos são membros da única Igreja de Cristo. Devem amá-la e trabalhar para que cada vez mais as pessoas a conheçam.         

5.
A Abadia de Notre-Dame de Fontgoumbault tem-se caracterizado pela sua missionariedade, isto é, pela fundação de novas abadias, sendo um caso concreto a nascente Abadia de Donezan.  Este fenómeno significa que há mais vocações à vida monástica tradicional?     

Eu não diria isso, porque, proporcionalmente, as abadias onde é celebrada a forma extraordinária são muito menos numerosas que as outras. Todavia, parece inegável que os lugares onde existe o cuidado de uma bela liturgia são mais fecundos em vocações sacerdotais e religiosas. É um facto que deve ser reconhecido e uma manifestação do sensus fidei que passa pela escolha dos fiéis.     

6. Por fim, pedimos a Vossa Paternidade que dirija uma mensagem aos nossos leitores, na sua esmagadora maioria afectos à Santa Tradição da Igreja Católica.        

Desde a sua refundação, pelo Abade Edouard Roux, em 1948, a abadia mantém uma devoção particular a Nossa Senhora e a Santa Terezinha do Menino Jesus. Esta última definia a sua vocação do seguinte modo: «No coração da Igreja, minha Mãe, eu serei o amor» (Ms. B, 3v). É esta mensagem que nó
s queremos, enquanto monges, dar ao mundo e que esperamos, pelo nosso testemunho, trabalhar para estabelecer no coração daqueles que frequentam o nosso mosteiro.

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