«Este período tem sido uma catástrofe imensa, mas também uma purificação», entende Pedro Sinde

O portal Dies Iræ tem a alegria de disponibilizar, em exclusivo, uma entrevista conduzida ao autor católico português Pedro Sinde, que recentemente publicou um novo livro, denominado Fulgores do Sacrário: o pequeno caminho da Presença de Deus e lições da Beata Alexandrina, e que se tem vindo a evidenciar pelos estudos realizados e pela acção desenvolvida para tornar ainda mais conhecida a figura da mística Alexandrina de Balasar, beatificada, por João Paulo II, em 2004. Para além destas temáticas, o entrevistado aborda também a crise que atormenta a Igreja, em particular por meio dos ataques à Santíssima Eucaristia e da inversão doutrinal.


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1. Muito obrigado por nos conceder esta entrevista em exclusivo. A primeira questão pode parecer demasiado evidente, mas quem é Pedro Sinde?   

Muito agradeço este generoso convite e louvo o belo trabalho de apostolado que tem feito! Para responder à sua pergunta, poderia dizer que Pedro Sinde é alguém que andou muito longe da Igreja, durante demasiado tempo, e que, graças a Deus, regressou em 2014 à plenitude da revelação, que é o Catolicismo. Depois deste regresso tem permanecido deslumbrado com a beleza, a bondade e a sabedoria incomparáveis da doutrina e da prática católicas.  

2. Depois de nos ter falado um pouco de si, entremos numa temática que lhe é cara: a Beata Alexandrina Maria da Costa, a Alexandrina de Balasar, como é por tantos conhecida. Tem-se dedicado, ao longo do tempo, a estudar e a tornar conhecida esta mística portuguesa. Quem é, afinal, Alexandrina de Balasar?    

A Beata Alexandrina era, para mim, a “doentinha de Balasar”, até descobrir um livro do Pe. Humberto Pasquale, seu segundo director espiritual, e começar a perceber que se trata, na verdade, de um dos grandes santos da humanidade e com uma missão particularmente providencial para o nosso tempo, por três razões: a sua devoção mariana, a sua devoção eucarística e, ainda, por ter sido uma alma-vítima. Este último aspecto creio que se virá a revelar exemplarmente providencial no futuro...         

A Beata viveu os últimos treze anos da sua vida exclusivamente da eucaristia e, apesar de não poder alimentar-se, porque o seu corpo rejeitava qualquer alimento (mesmo a bebida), sentia fome... imaginemos treze anos assim!

Por outro lado, só poderemos compreender algo do significado da vida da Beata Alexandrina se nos lembrarmos que ela é contemporânea dos pastorinhos de Fátima e que Balasar é, como dizia o Pe. Humberto Pasquale, gémea de Fátima; e assim podemos dizer também que, se queremos compreender Fátima, nos devemos voltar para Balasar – iluminam-se reciprocamente. Para dar apenas um exemplo, a Beata recebeu muitas vezes a comunhão pelas mãos de anjos e nestas comunhões chegou a intervir também o Anjo de Portugal, como sucedeu em 1916 aos pastorinhos.

3. É sabido que, em 2023, Portugal acolherá as Jornadas Mundiais da Juventude. Um dos patronos da edição portuguesa é, precisamente, a Beata Alexandrina. O que é que, nos dias de hoje, pode e deve significar a figura de Alexandrina para os jovens que são cada vez mais confrontados com novas e “aliciantes” sugestões mundanas?   

A escolha da Beata para patrono das Jornadas foi uma surpresa, porque ela tem sido muito mal tratada pela hierarquia em geral. Repare como é incompreensível, por exemplo, que não haja relíquias da Beata em pagelas! Os pouquíssimos estudos teológicos “oficiais” sobre a Beata são superficiais ou de questões marginais; por outro lado, é fácil perceber que para uma teologia “misericordista” seja incómoda a referência ao aspecto de alma-vítima, quando este é justamente um dos aspectos mais gloriosos da Beata!         

Mas voltando à sua pergunta, diria que, antes de mais, podemos lembrar que a Beata é uma leiga e que isto, só por si, nos vem recordar que a santidade é a vocação última comum a todos nós: para isso nascemos, independentemente de sermos religiosos, consagrados ou leigos. Também os leigos, pois, devem ter como razão da sua existência a procura da santificação. Este é o primeiro aspecto que a Beata Alexandrina nos vem lembrar.        

Outro aspecto, menos destacado, é o seu amor à natureza, quer dizer, à criação (não à “mãe-terra”!); o seu olhar santificado via já na criação, de certa forma, uma antecipação da “nova terra”. Tal como lemos em muitos dos Salmos, a Beata via os seres criados glorificando e louvando o Criador, chegando mesmo a pedir-lhes que levem a Deus a sua própria oração! Destaco aqui este aspecto muito sumariamente, porque ele pode constituir uma rectificação do falso ecologismo em que tantas boas almas hoje caem.  

Finalmente, para não me alongar mais, poderia ainda dizer o seguinte: à Beata foi dada a missão de vigiar os sacrários. Ora, isto é extraordinário, porque o Senhor confiou esta missão a alguém que, estando paralisado, não poderia ir visitar os sacrários nunca! Se pensarmos neste tempo em que estivemos privados de ir fisicamente aos sacrários, podemos compreender que, apesar disso, sempre os poderíamos visitar espiritualmente. Devemos talvez habituar-nos a esta prática, pois poderá ser muito útil e mesmo necessária nos tempos que parecem aproximar-se... Com isto, diria ainda que os jovens poderiam tomar a Beata como modelo da máxima reverência eucarística, de consciência da presença majestática de Deus na Hóstia sagrada.

4. Publicou, há pouco mais de um mês, um novo livro, desta feita intitulado Fulgores do Sacrário: o pequeno caminho da Presença de Deus e lições da Beata Alexandrina. É notório que atravessamos um duro período que é singularizado, por um lado, por um abandono real dos sacrários, a começar por tantos clérigos, fenómeno que pode ser visto como uma descrença na presença real de Jesus na Eucaristia, e, por outro lado, por uma procura agressiva de enganadoras compensações. O que pretende transmitir aos leitores com esta nova publicação?         

Apenas isto, que a Igreja sempre ensinou: Deus está realmente presente na Santa Hóstia; “realmente” significa: em Seu Corpo, Alma, Sangue e Divindade! Numa época de crise como a que vivemos presentemente, o que temos de fazer é procurar preservar o essencial, como se faz numa guerra: quando o inimigo já tomou boa parte do nosso território, temos de nos refugiar naquilo que é essencial preservar. Ora, se nos perguntarmos o que é o essencial para um católico, isso não pode senão ser a Santa Missa e, por isso, o sacrário. E lembremo-nos que só os católicos têm realmente sacrário e adoração eucarística! Assim, quando visitamos o sacrário, saibamos que, independentemente do nosso estado psicológico ou emotivo subjectivo, estamos realmente na presença de Deus; e como Deus só está presente num lugar, pois não se divide, então, junto do sacrário estamos junto do Céu...   

O livro não quer trazer nenhuma novidade, portanto, mas destacar, em união com a tradição e a doutrina e ainda inspirado na Beata Alexandrina, o caminho que a Igreja sempre propôs, desta vez particularmente focado na devoção pelo sacrário; chamo-lhe “pequeno caminho”, porque se trata de um caminho muito simples ou antes de “simplificação” da alma que deve aprender a estar na presença de Deus. Isso a purificará gradualmente, isso a iluminará gradualmente, isso a unirá ao Senhor gradualmente; numa palavra: isso a fará descobrir-se verdadeiramente, porque nunca nos descobrimos em nós mesmos, mas em Deus.           

5. Pessoalmente falando, como tem vivido este período em que, em tantas das nossas igrejas, assistimos a uma cada vez maior banalização do sacramento da Eucaristia e a autênticos sacrilégios cometidos com o Pão dos Anjos, por exemplo quando se incute e propagandeia a recepção da Sagrada Comunhão na mão?
 

Este período tem sido uma catástrofe imensa, mas também uma purificação. E para mantermos a esperança, creio que deveríamos centrar-nos neste ponto. É um momento em que temos de tomar posição. Como disse, há pouco, temos, tanto quanto podemos, de proteger o Santíssimo Sacramento, que é o tesouro absolutamente incomparável. É muito alentador verificar que Deus supre em graças o que nos falta neste tempo em que fomos privados do verdadeiro alimento; é também encorajador verificar o belo movimento de leigos que tem sabido reagir positivamente a este momento de extrema decadência. Nós, os leigos, no entanto, temos de ter muito cuidado para não cairmos no orgulho e sabermos encontrar o caminho entre a coragem para falar e a humildade para calar. É um momento muito difícil, mas em que claramente somos chamados a “fazer algo”: a este papel que os leigos terão de desempenhar já se referiram, entre outros, S. João Henrique Newman, o bispo Fulton Sheen ou a Irmã Lúcia.

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