Fátima cento e quatro anos depois (1917-2021)

Passaram-se cento e quatro anos desde as aparições de Nossa Senhora, acontecidas em Fátima a 13 de Maio de 1917.         

Nestes cento e quatro anos verificaram-se muitos acontecimentos anunciados, por Nossa Senhora, aos três pastorinhos, Lúcia, Jacinta e Francisco, mas a profecia ainda não se cumpriu.    

O triunfo do Imaculado Coração de Maria, no qual tantas almas esperam e no qual confiaram intensamente nestes 104 anos, ainda não se realizou. É iminente? Está distante? Nenhum de nós o sabe.      

Considerando as coisas de um ponto de vista lógico e humano, teremos que dizer que Deus está atrasado, porque a Igreja e toda a sociedade estão a braços com uma crise sem precedentes, a humanidade não se arrependeu, o demónio celebra a sua vitória. Mas também sabemos que a Divina Providência regula com Sabedoria tudo o que acontece no universo.          

Nesta perspectiva, os tempos de Deus são diferentes daqueles dos homens, tanto de um ponto de vista quantitativo, como de um ponto de vista que poderíamos definir como qualitativo.      

O ponto de vista quantitativo é o cronológico: refere-se à duração. Nós medimos o tempo segundo o critério da nossa vida frágil. Deus, que é infinito e sem medida, tem como padrão a eternidade. É por isso que afirma o Eclesiástico: «A duração da vida do homem, quando muito, é de cem anos; mas, como uma gota de água do mar ou como um grão de areia, assim são os seus anos ante um dia da eternidade» (Sir 18, 9-10).       

Se comparamos com a eternidade o tempo mais longo da vida humana, sejam cem, sejam duzentos, sejam novecentos anos, como para aqueles que viveram antes do dilúvio, esses anos, diz o P. Eusebio Nieremberg, parecerão apenas um instante para aqueles que fixam o olhar na imensa extensão da eternidade. O tempo, que é tão curto e fluido, tem, porém, uma qualidade preciosa e é a ocasião da eternidade, porque é aqui, na terra, no breve espaço da nossa vida, que decidimos se seremos eternamente felizes, no Paraíso, ou eternamente infelizes, no Inferno.

Em Fátima, Nossa Senhora ensinou esta oração aos três pastorinhos: «Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno; levai as almas todas para o Céu, principalmente as que mais precisarem».

Esta oração acompanha cada terço e deveria acompanhar cada momento do nosso dia, sobretudo no mês de Maio, porque vem do Céu. Se Nossa Senhora ensinou esta oração, quer dizer que precisamos dela, quer dizer que o perigo do Inferno, para nós e para tantas almas, é grande, é real, está próximo. Estamos em contínuo perigo e, por isso, devemos vigiar continuamente, pedindo a ajuda de Deus. A eternidade espera-nos.

Já compreendemos desta oração o valor inestimável do tempo: um valor que não está ligado à sua duração, mas à importância das escolhas que fazemos em cada momento da nossa vida. Este aspecto qualitativo do tempo, que é o mais misterioso, ajuda-nos a compreender o atraso no cumprimento da promessa de Fátima. Nós sabemos que Deus é infinitamente justo e infinitamente misericordioso, mas a nossa mente é incapaz de pensar simultaneamente nestes atributos de Deus, que n’Ele coincidem no único instante da eternidade. Pensando neles separadamente, como é dado à nossa inteligência, podemos compreender, porém, quando virá o cumprimento da promessa de Fátima.          

Deus espera a hora em que receberá a maior glória exercendo, ao mesmo tempo, a suprema justiça e a suprema misericórdia. Suprema justiça castigando um mundo que recusou a graça da conversão e que precisa de ser reconstruído desde os fundamentos; suprema misericórdia inaugurando uma época em que aqueles que permaneceram fiéis serão preenchidos das suas graças e, com elas, construirão o Reino Social de Jesus e de Maria. Não o reino sem pecado de certas correntes milenaristas, mas um Reino em que o pecado, a nível público, sofrerá as mesmas limitações a que, hoje, estão sujeitos a verdade e o bem, isto é, uma radical exclusão social.

É lícito desejar o triunfo do Imaculado Coração para contribuir para que aconteça, mas é mais perfeito desejá-lo para adorar a Deus que exerce a sua máxima justiça e misericórdia.    

Devemos desejar não o fim dos nossos males, que em todo o caso terminarão com a nossa morte, mas o fim dos males da Igreja militante que, depois da nossa morte, continuará o seu caminho até o fim do mundo. E, acima de tudo, devemos desejar o triunfo da Igreja sobre o demónio e sobre a Revolução que, desde há séculos, a agride.      

Roberto de Mattei   

Através de Radio Roma Libera 

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