«Poderíamos muito bem estar perante a possibilidade de ver Francisco sucedido por um Papa mais ortodoxo», sugere Edward Pentin

O portal Dies Iræ tem o gáudio de apresentar a entrevista que realizou, em exclusivo, ao vaticanista Edward Pentin, autor do famoso livro The Next Pope, que avalia o perfil dos possíveis sucessores de Francisco I. A tradução das respostas é da autoria de Luís Ferrand d’Almeida, a quem o portal agradece reconhecidamente pela inestimável colaboração.          


+


1. Muito obrigado, antes de mais, por aceder responder às nossas questões. Como surgiu, no seu horizonte profissional, o seguir e acompanhar os factos quotidianos do Vaticano?          

Não era nada que me tivesse proposto fazer, mas gosto de ver a mão da Providência na forma como os acontecimentos decorreram. Estava a trabalhar na Suíça em 2002 e a ouvir rádio em ondas curtas quando deparei com a Rádio Vaticano. Tendo acabado de concluir um curso de jornalismo e com licenciaturas em Relações Internacionais e Teologia, decidi candidatar-me na remota esperança de poder trabalhar lá. Recebi na Festa de Pentecostes desse ano a boa notícia de que tinha sido aceite e por isso mudei-me para Roma, começando a apresentar as notícias na emissora. Trabalhei na Rádio Vaticano durante dois anos antes de me tornar jornalista freelance para publicações seculares e católicas, tendo sido contratado como correspondente a tempo inteiro para o National Catholic Register alguns anos mais tarde.          

2. Foi a sua formação teológica que lhe abriu esse horizonte, aliado à sua inata vertente de investigador e escritor?        

Sim, tinha completado recentemente um mestrado em Teologia Aplicada no Missionary Institute London onde adquiri uma boa base para a matéria que iria cobrir. Mas também sempre me interessei pela política, economia e assuntos correntes, daí ter obtido o meu primeiro diploma em Relações Internacionais, bem como o meu interesse pelos meios de comunicação social. Tinha sido editor da revista da minha associação de estudantes universitários no início dos anos 90. No entanto, o mais destacado e valioso acontecimento relacionado com a minha vida profissional foi, sem dúvida, ser recebido na Igreja em 1998. De uma forma misteriosa, maravilhosa e algo inquietante, ao receber os Sacramentos da Igreja e pertencer a uma verdadeira fé abriram-se-me os olhos para a dura realidade deste mundo – e do mundo vindouro – de uma forma que não seria inteiramente possível sem ser Católico. Foi literalmente como ser red-pilled (despertado para a realidade) para usar a terminologia de hoje. Simplesmente não teria sido capaz de fazer este trabalho sem essa graça.     

3. É um dos poucos correspondentes de língua inglesa junto da Santa Sé, o que, de certa forma, faz com que os católicos ingleses que mais se interessam pelas relevantes notícias do Papa e, por conseguinte, do Vaticano estejam particularmente atentos ao seu trabalho. Que balanço faz de todos estes anos passados em Roma?                 

Viver e trabalhar em Roma mudou significativamente desde que vim para cá em 2002. Sob o pontificado de João Paulo II foi um enorme privilégio poder dar notícias sobre um Papa tão venerado e respeitado, mesmo pelos meios de comunicação social mundiais. Podiam não gostar das suas posições, mas respeitavam-no e queriam noticiar sobre ele.  
A um jornalista católico cumpria, como tive ocasião de constatar, acompanhar o Papa na evangelização, edificando a Igreja e comunicando o Magistério da melhor forma possível a um mundo muitas vezes pouco disposto a ouvi-lo. Mas isso começou a mudar com Bento XVI, cujo ensinamento claro era um privilégio divulgar, apesar do antagonismo crescente, tanto dentro como fora da Igreja. Cada vez mais, as notícias se centraram em políticas e crises internas, o que ainda mais se acentuou no pontificado do Papa Francisco. Nos últimos oito anos, com efeito, as histórias têm sido quase exclusivamente sobre política e crises internas da Igreja, muitas vezes relacionadas com notícias de uma tendência crescente para a heterodoxia entre os líderes da Igreja, conforme se vai tornando cada vez mais notório.           

Para um correspondente em Roma, portanto, tem havido menos hipóteses de evangelizar através dos meios de comunicação e, por outro lado, muita pressão no sentido de expor a corrupção interna da Igreja, tanto no campo doutrinário, como no financeiro ou em qualquer outro. A meu ver, alguma coisa tem de ser feita se a Igreja quiser verdadeiramente ser renovada, mas há uma triste ironia na natureza introvertida de tantas notícias que actualmente vêm de Roma, precisamente quando Francisco insiste em tornar a Igreja menos auto-referencial e mais orientada para a sua missão. Isto também afectou negativamente o ambiente em Roma, que se afastou de uma atmosfera positiva, edificante e até festiva, para enveredar por rumos de presságio sombrio, intriga e conflito.           

4. A 4 de Novembro de 2009, o Papa Bento XVI publicou a Constituição Apostólica Anglicanorum Coetibus, com a qual procurou integrar os anglicanos convertidos ao catolicismo. Doze anos depois, que efeitos surtiu, na prática, tal documento? 

É difícil dizer de Roma se os efeitos da Constituição Apostólica não são facilmente testemunhados aqui, mas pelo que sei em Inglaterra, o Ordinariato não tem sido tão bem-sucedido como se esperava. Dizem-me que não está a prosperar, principalmente porque não tem recebido muito apoio e encorajamento dos bispos católicos, mas existem “pequenos pontos de luz”, ou seja, paróquias onde a presença e acção de bons padres vai atraindo famílias novas tradicionais. Creio que a situação é melhor nos Estados Unidos, mas não tão boa na Austrália.  

5. Voltando ao principal tema da entrevista, escreveu, no ano passado, um volumoso livro, The Next Pope, no qual lista os mais poderosos nomes a ocupar o Sólio Pontifício. Como observador atento da cena romana, esta lista continua actual ou acrescentaria algum outro depois do último Consistório?

Não acredito que nenhum dos novos cardeais nomeados no Consistório do Outono passado seja já papabile, em parte porque não têm tempo suficiente no cargo, mas também porque, penso eu, nenhum deles deu provas de capacidade para ser Papa. É ainda demasiado cedo para dizer. No entanto, gostaríamos de oferecer uma edição actualizada com alguns novos candidatos, já que um bom número dos cardeais no livro chegará em breve aos 80 anos, sendo pouco provável que venha a ser eleito.      

6. Um dos aspectos mais salientes do Pontificado actual tem sido o das suas nomeações que, para alguns vaticanistas, representa uma autêntica Revolução. Parece ser desejo claro e inequívoco do Papa Francisco garantir o seu sucessor, contra ventos e marés, com essas nomeações. Que comentário deixaria para os leitores do portal Dies Iræ sobre o tema?  

Dizem que para avaliar correctamente o carácter de uma pessoa, deve olhar-se para quem anda com ela. Assim também, quando se trata de avaliar um pontificado, especialmente o do Papa Francisco, deve-se olhar para as suas nomeações. Francisco é enigmático, provavelmente de forma deliberada, e dá sinais mistos e contraditórios em quase todas as acções ou pronunciamentos. Faz parte da sua abordagem peronista da governação.  Mas as suas nomeações são claras: ele quer que alguém continue a sua revolução de forma furtiva, escolhendo cardeais e bispos (não todos, de forma alguma) que provavelmente continuarão a liderar a Igreja ao longo desse caminho. Um favorito particular para ser seu sucessor é o Cardeal Luis Antonio Tagle, o Prefeito filipino da Propaganda Fidei, a quem Francisco elevou à “pole position”. Mas também há outros na corrida, tais como o Cardeal Matteo Zuppi, de Bolonha, que conduziria a Igreja muito na linha de Francisco. No entanto, a consecução do seu desejo depende de uma série de factores, nomeadamente do grau de apoio que julga obter dos cardeais que escolheu. No meu entender, não é necessariamente esse o caso. Sabendo que os pontificados liberais tendem a voltar para um Papa mais conservador, e vice-versa, poderíamos muito bem estar perante a possibilidade de ver Francisco sucedido por um Papa mais ortodoxo no próximo Conclave.           

Publicar um comentário

0 Comentários