Hans Küng, o teólogo que lançava as sementes do Vaticano III

O teólogo Hans Küng morreu, ontem, aos 93 anos, na sua casa de Tubinga, na Alemanha. Nascido em Sursee, na Suíça, em 1928, Küng tinha escolhido dedicar-se ao estudo da Teologia e, aos 32 anos, tornara-se professor titular na Faculdade de Teologia Católica da Universidade de Tubinga.    

Qualquer pessoa, mesmo aqueles que não sabem quase nada de Teologia, conhece, pelo menos, o nome de Hans Küng e figura-o como o antagonista por excelência da doutrina católica. Deste ponto de vista, a vida teológica de Küng é o exacto oposto das prescrições dadas pela Congregação para a Doutrina da Fé, na sua Instrução sobre a vocação eclesial do teólogo, Donum veritatis, de 1990. Pedia-se prudência aos teólogos, sugeria-se que não se dirigissem aos media, que não ostentassem posições teológicas contrárias ao magistério, nem sequer que discutissem sobre as questões por esse especificadas e definidas. Küng, por outro lado, sempre se colocou em cena desde que acompanhava o Cardeal de Viena, König, ao Vaticano, para o Concílio, e, certamente, nunca usou a prudência “eclesial” que o magistério pede aos teólogos.           

Quando num teólogo acontece isto, como no caso de Küng, talvez signifique que, de forma mais ou menos consciente, aquele teólogo pensa que o futuro da Igreja depende dele, ou, pelo menos, sobretudo dele. Esta atitude pessoal tende, então, para uma Teologia historicista e progressista, e esta, por sua vez, anima teoricamente aquela atitude pessoal. O seu companheiro Karl Rahner declarou abertamente querer ser o iniciador de uma nova Igreja e, a julgar pela sua vida e pela sua Teologia, do mesmo modo pensava Hans Küng. A personalidade une-se, assim, com a Teologia professada e vice-versa, na ideia, cara aos reformadores e aos hereges, de que a salvação está no futuro, que o futuro é salvação e que eles têm as chaves do futuro.

Küng foi filosoficamente muitas coisas, mas, acima de tudo, foi hegeliano. Nesta chave, a realidade da Igreja coincide com a autoconsciência da Igreja e esta – a autoconsciência – está continuamente em transformação. Não que essa devenha, antes, essa é devir e o devir é guiado pelo futuro e não pelo passado, de modo que não pode existir nenhuma válida noção teológica que não seja também nova. É quanto temia, em 1946, Réginald Garrigou-Lagrange quando se perguntava para onde ia a Nouvelle teologie – de que também Küng é, no fundo, filho, embora mais temerário do que outros – e, de forma ainda mais dramática, perguntava-se se ainda seria possível uma Teologia verdadeira, mesmo que não nova. Também se deve a Küng que muitíssimos teólogos, sem saber que são kungianos, hoje pensem assim: uma qualquer posição teológica para ser verdadeiramente tal deve ser nova. Pensa-o assim o presidente dos bispos alemães, Mons. Georg Bätzing. Küng era suíço de nacionalidade, mas alemão de Teologia.

Hans Küng estava sintonizado num Vaticano III e ansioso por encontrar um João XXIV. Acreditava que a Igreja se constituía a partir de baixo e também a partir de baixo se renovasse. Dizia que a nova Igreja de baixo já havia começado. Acusava a Igreja de machismo e desejaria uma reconquista feminina dos direitos das mulheres, da contracepção ao sacerdócio. Os bispos deveriam ser eleitos de baixo e em liberdade. Pressionou muito para um novo e mais radical ecumenismo, denunciava o que chamava de “obstinação em sublinhar as diferenças”, pedia a abolição das condenações contra Lutero e Calvino, e, com as Igrejas reformadas, queria afirmar uma “hospitalidade eucarística como expressão de uma comunhão de fé já alcançada”. Considerava insustentável, por parte da Igreja Católica, que se desse uma única religião legítima e via esta atitude como consequência do “colonialismo europeu e do imperialismo romano”. Segundo ele, a Igreja devia aceitar o desafio da pretensão de verdade das outras religiões.

Internamente, depois, deveria ter tornado autónomas as Igrejas regionais e locais em honra da “riqueza da variedade”, contra a “prepotência dogmática”, a “imobilidade dogmática” e a “censura moralista”. A Igreja deveria viver, segundo ele, uma “relação comunitária” e abandonar o modelo de uma Igreja “do alto, obstinada, tranquilizadora, burocratizada”. Assim como a URSS reabilitara os seus dissidentes, também a Igreja deveria ter reabilitado os seus, de Hélder Câmara a Leonardo Boff. O futuro da Igreja, além do ecumenismo, era por ele visto também no pacifismo e num novo ecologismo.   

Os teólogos de ponta, no sentido de pontiagudos, ganham as primeiras páginas dos jornais quando dizem coisas inverosímeis e, de facto, dizem-nas muitas vezes. Como quando Küng implicou com a infalibilidade do Papa: todos o recordam. Mas não é dito que o legado esteja ali nos disparos que acendem os holofotes. A sua semeadura ocorre quando os holofotes se apagam e, na praxe da Igreja, as suas indicações são tacitamente vividas e encarnadas na escuridão das luzes da ribalta. Tente-se reler a breve resenha das posições de Küng do parágrafo precedente. Na Igreja alemã de hoje, e no seu caminho sinodal, encontramo-las. Algumas são ditas com mais cortesia, mas encontramo-las todas. Passemos, então, à Igreja universal. Também aqui as encontramos, mais ou menos, todas: Leonardo Boff escreve as encíclicas pontifícias e de Mons. Câmara quer-se a canonização, muitos pensam que já se esteja no Vaticano III e que já chegou um João XXIV, Lutero e Calvino foram novamente acolhidos no redil, a hospitalidade eucarística é de praxe e as mulheres aproximam-se do altar. Enquanto os media se ocupavam com os seus disparos, Hans Küng estava ocupado a semear.

Stefano Fontana

Através de La Nuova Bussola Quotidiana          

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2 Comentários

  1. Hans Kung, neste momento o seu destino para a eternidade está lançada, não poderá voltar atrás.

    as sementes que lançou para o vaticano III, agora colherá dos seus frutos???

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  2. Acima de tudo, foi um herético! Que Deus tenha misericórdia dele...

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