Carta aberta a D. Athanasius Schneider

A pedido do amigo e jornalista italiano Marco Tosatti, o portal Dies Iræ traduziu e publica, em exclusivo para língua portuguesa, uma carta que um alargado número de personalidades enviaram a D. Athanasius Schneider, Bispo Auxiliar de Maria Santíssima em Astana, no seguimento da declaração de Sua Excelência Reverendíssima sobre as vacinas COVID-19. Para além dos primeiros subscritores, são mais de cinco dezenas os restantes aderentes.        

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A Sua Excelência Ilustríssima e Reverendíssima
D. Athanasius Schneider
Bispo Titular de Celerina
Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Maria Santíssima em Astana



Excelência Reverendíssima,  

Muitos, em todo o mundo, leram a intervenção de Vossa Excelência de 19 de Fevereiro de 2021 – Unmasking COVID-19: Vaccines, Mandates, and Global Salute – com grande consolação, reconhecendo-vos como uma rara e preciosa voz da verdade.        

Mesmo na Itália, associações e grupos comprometidos com o direito à vida não ficaram indiferentes. Muitos encontraram no apelo de Vossa Excelência a um «novo movimento pela vida», que combata, «de modo claro e inequívoco, contra os medicamentos contaminados pelo aborto, contra o abuso de partes do corpo do nascituro», um poderoso estímulo para repensar a acção, não abandonando, certamente, o meritória batalha travada até agora ao longo de décadas, mas, pelo contrário, levando-a a uma coerente completude na nova perspectiva de uma crítica integral relativa à legitimidade ética e jurídica do uso de células embrionárias e fetais no âmbito da experimentação e da indústria farmacêutica e cosmética (e afins).

Esta nossa resposta quer ser uma resposta de adesão ao Vosso apelo de 19 de Fevereiro.

A defesa da vida humana inocente desde a concepção até à morte natural não pode admitir compromissos ou excepções. Ou é intransigente e integral, ou não é! Ou é lúcida e rigorosamente coerente, ou não é!

Reconhecer que o ser humano é pessoa desde a concepção e nunca deixa de o ser, qualquer que seja o estado clínico físico-psíquico em que se possa encontrar até à morte natural, implica, necessariamente, o dever reconhecer como homicídio qualquer supressão da vida humana, sem distinção alguma relativa à idade ou às condições pré-natais ou pós-natais da vítima.

A supressão da vida humana inocente não só é sempre gravemente ilícita, do ponto de vista moral, mas ocorre que seja sempre reprovada juridicamente. A condenação penal do homicídio, seja qual for a idade pré-natal ou pós-natal da vítima, é exigida pela justiça, necessária em todos os ordenamentos jurídicos. 

Nenhuma ordem jurídica positiva pode exigir ser reconhecida como legítima contemplando a possibilidade de suprimir legalmente um ser humano inocente. Da mesma forma, nenhum ordenamento jurídico positivo pode presumir a legitimidade prevendo a possibilidade legal de reificar e instrumentalizar a vida humana inocente para fins de investigação e/ou de produção (farmacêutica, cosmética, alimentar).

Uma sociedade que não só tolera, mas passa a considerar normal o uso sistemático e habitual de células derivadas da matança de pessoas inocentes em idade pré-natal para os mais diversos fins, parece ter perdido a razão e a justiça, bem como a capacidade de juízo ético.

Quem defende o direito à vida, para não cair numa contradição funesta, só pode ser inequívoco no afirmar a absoluta ilegitimidade moral e jurídica de qualquer forma de aborto voluntário (cirúrgico ou químico-farmacológico), assim como de qualquer produção e criopreservação de embriões humanos, de manipulação e exploração de embriões humanos, de infanticídio, de eutanásia, de suicídio assistido. Mas isso ainda não é suficiente!      

É imprescindível que os defensores da vida humana, para não se condenarem à incoerência e/ou à irrelevância, atentem para o facto de que a produção, a reificação e a manipulação dos embriões humanos, assim como a exploração de células fetais obtidas de seres humanos em idade pré-natal, é parte, hoje, de um enorme e global sistema económico, técnico e industrial.

Condenar o aborto sem, porém, condenar aquela enorme estrutura tecno-produtiva do uso reificante/instrumentalizador da vida humana em idade pré-natal, senão hipocrisia, é, certamente, miopia intelectual e operacional.

A batalha em defesa da vida humana, hoje, não pode deixar de ser TAMBÉM compromisso contra aquelas práticas e aquelas estruturas que degradam a vida inocente a reserva de material biológico, aproveitável no campo da experimentação e da produção.  

É, acima de tudo, uma batalha cultural. Trata-se de rejeitar, da maneira mais clara, aquela cultura do desejo que considera o ser humano em idade pré-natal como disponível para qualquer fim, até mesmo para se tornar um material de consumo.     

É uma tarefa a ser realizada de todos os ângulos e da maneira mais eficaz, inclusive para chamar a atenção de todos os homens:      

na rejeição de QUALQUER produto (farmacêutico, cosmético, alimentar) que apresente até mesmo o mínimo vínculo com a supressão da vida humana inocente;

no boicotar (por exemplo, recusando-se a ser clientes, accionistas, obrigacionistas, etc.) TODAS as empresas que façam uso de células embrionárias e/ou fetais na própria actividade produtiva ou experimental.  

Trata-se, então, de actuar sobre o plano jurisprudencial e legislativo, para que seja legalmente reprovado e penalmente sancionado qualquer uso de células embrionárias e fetais humanas obtidas a partir da supressão da vida humana inocente e, ao mesmo tempo, seja proibido qualquer comércio de células e/ou tecidos humanos.       

Isso NÃO contra a medicina e a farmacêutica, mas por uma produção eticamente conduzida dos medicamentos e dos cosméticos. Nenhuma vacina, nenhum medicamento, nenhum cosmético, nenhum alimento deve ser produzido ou experimentado usando células embrionárias e/ou fetais humanas obtidas da morte de um inocente. Qualquer utilização e comércio de tecidos e células embrionárias/fetais humanas, derivadas da supressão da vida inocente, é moralmente inaceitável e deve ser legalmente excluída.

Isto evidencia-se no empenho integral e coerente para as associações e os grupos que levam a sério a defesa da vida humana.        

Portanto, estamos empenhados em dar continuidade ideal e actuação generosa ao apelo lançado por Vossa Excelência a 19 de Fevereiro de 2021.         

Pedimos a Vossa bênção,      

Mirco Agerde – Movimento Mariano Regina dell’Amore
Gianfranco Amato – Giuristi per la Vita
Antonio Brandi – Associazione Pro Vita & Famiglia          
Giorgio Celsi – Associazione Ora et labora in difesa della Vita
Francesco Fontana – Associazione Iustitia in Veritate
Giovanni Formicola – Opzione Benedetto
Massimo Viglione – Confederazione dei Triarii     

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