«A sociedade europeia moderna está muito, muito doente», considera Eduard Habsburg

Depois de, em Janeiro último, ter entrevistado a ministra húngara Katalin Novák, o portal Dies Iræ tem a elevada honra de disponibilizar, em exclusivo, a entrevista que realizou ao Embaixador da Hungria junto da Santa Sé e da Ordem de Malta, Eduard Habsburg, filho do Arquiduque Michael Habsburg-Lothringen e da Princesa Christiana von Habsburg-Lothringen.


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1. Excelência, muito obrigado, primeiramente, por ter prontamente acedido ao nosso convite para esta entrevista em exclusivo. Em Janeiro deste ano, tivemos o privilégio de entrevistar a Ministra para os Assuntos Familiares da Hungria, Katalin Novák, que abordou questões muito pertinentes como o COVID-19, a defesa da família natural desejada por Deus, assim como os inúmeros ataques à Civilização Cristã. Na qualidade de representante diplomático da Hungria, como é que analisa a importância que o Governo húngaro tem tido na defesa das mais elementares questões que se prendem com a preservação da moral e, em particular, da moral cristã?   

Não posso enfatizar o quão incrivelmente gratificante é ser embaixador de um país que defende fortemente os valores da família, da fé e da nação. Provavelmente, não é coincidência que neste nosso mundo, inclinado cada vez mais para soluções globalistas anónimas, sejam os países da área da antiga monarquia austro-húngara a oferecer um contrapeso. Foi a experiência de uma monarquia supranacional, que tentou incorporar, de forma respeitosa e subsidiária, as nações individuais em algo maior, que moldou as nossas ideias. Foram as quatro décadas de ditadura comunista que nos ensinaram (e aos países de Visegrado e a muitos outros vizinhos) por quais valores vale realmente a pena lutar: fé, família, nação. As mesmas coisas que os regimes totalitários sempre quiseram demolir. Nas mesmas décadas, na parte ocidental da Europa, grande parte desses valores, sem qualquer pressão totalitária, foram questionados, ridicularizados, atirados para a grande lata do lixo da história.          

Essa pode ser a razão pela qual a Hungria e os seus vizinhos têm ideias muito claras e são uma voz dissidente na narrativa bastante unificada do resto do Ocidente. É por isso que, provavelmente, vale a pena ouvir-nos. E isso, de certa forma, também pode explicar o motivo pelo qual a Hungria é, muitas vezes, fortemente criticada nos media estrangeiros. Quando se é atacado, geralmente significa que se representa algo, como disse uma vez Churchill. 

2. Em Setembro próximo, a Hungria acolherá o 52.º Congresso Eucarístico Internacional, que contará com a presença do Santo Padre para a Santa Missa de encerramento. De que modo é que o povo húngaro se está a preparar para acolher este tão relevante evento que reúne clérigos e fiéis vindos de todo o mundo?       

Há muito tempo que o povo húngaro se está a preparar para este Congresso Eucarístico, porque, como se recordarão, teve de ser adiado por causa da crise do Coronavírus. Mas um ano antes da data inicial, os católicos húngaros já rezavam, em forma de preparação, uma bela oração no final de cada Santa Missa. Assim, poder-se-ia dizer que o Congresso Eucarístico entrou na corrente sanguínea católica há anos. Também estamos entusiasmados porque esta não será a primeira vez que Budapeste acolherá um congresso: foi em 1938, há 83 anos, que centenas de milhares de húngaros, e de peregrinos internacionais, tomaram parte nas edificantes celebrações.

O facto de o Congresso Eucarístico Internacional acontecer é um grande sinal de esperança depois de quase dois anos de confinamento, medo e isolamento devido à pandemia. Como assinalou há dias o Cardeal Erdő, através de todos os programas do Congresso fazemos o nosso melhor para apresentar a nossa cultura, a nossa herança espiritual, o nosso país e capital incríveis, sem esquecer que o foco da semana está na Eucaristia, no Cristo vivo. Haverá programas centrados nas minorias que são parte integrante da nossa história, como o povo cigano. Haverá espaço para eventos mútuos com outras igrejas e com a comunidade judaica que é uma das mais significativas da Europa. Esperamos sinceramente que as circunstâncias em meados de Setembro permitam que muitos cristãos de outros países possam viajar para Budapeste e participar.      

3. A família de Vossa Excelência tem um longuíssimo historial de serviço à Igreja e ao Estado. Está no vosso ADN que essas funções oficiais devem ser exercidas com sentido de missão. Como Embaixador da Hungria junto do Estado da Cidade do Vaticano e da Ordem Soberana e Militar Hospitalária de São João de Jerusalém, de Rodes e de Malta, poderia descrever-nos a responsabilidade que esse alto cargo implica?    

Estou perfeitamente ciente de que é um privilégio incrível servir, aqui em Roma, dois tão augustos estados e instituições como a Santa Sé e a Ordem de Malta. O que mais impressiona em ambos é o incentivo ao trabalho humanitário de construção da paz. Chegando aqui, é-se automaticamente atraído para uma teia de possibilidades para fazer o bem. O grupo de Embaixadores com que se interage está aberto a essas iniciativas; participa-se em conferências, Santas Missas, apresentações que, muitas vezes, levam a novas acções. Com o histórico de diplomacia e mediação da paz silenciosa e altruísta da Santa Sé, e com a OSMM activa em todo o mundo para a ajuda humanitária, esta é, talvez, a impressão mais forte que se tem.     

Deste modo, é claro, ambos têm um protocolo antigo e respeitável que pode ser bastante intimidante no início. De certa forma, o meu ADN deve ter ajudado nos últimos cinco anos, porque este é o meu primeiro posto diplomático e eu não tinha nenhuma experiência anterior em diplomacia. No entanto, ter trabalhado como porta-voz de um bispo católico na Áustria pode ter ajudado.          

Como diplomata moderno, procuro estar presente nos media e ser uma voz do meu país, por meio de entrevistas como esta, mas também por meio da minha presença no Twitter, onde tento abordar os temas da Hungria, mas também da Santa Sé e da OSMM.

4. Com uma vida profissional tão repleta de compromissos e de múltiplos encontros, que tempo é que Vossa Excelência dedica à oração?

Como podem ver, vivo aqui com a minha família. A minha esposa e os meus filhos basicamente definem os horários de oração durante o dia, a assistência à Missa, o horário de oração comum. Começo sempre o meu dia com Laudes antes que eles acordem, constituindo o meu tempo de oração “pessoal”. Depois, tenho um belo ícone de Nossa Senhora de Mariapócs (o santuário mariano mais importante da Hungria), no meu escritório, que me ajuda a lembrar o Angelus. Ainda assim, é surpreendente quantas desculpas se pode encontrar para não rezar. Procuro ter sempre um terço no bolso, na esperança de que isso me leve a usá-lo. 

O que é incrivelmente útil é que, como diplomatas da Santa Sé, em tempos normais, vamos à Santa Missa, pelo menos, uma vez durante a semana, porque, geralmente, as missões celebram o seu feriado nacional com uma recepção ou uma Missa (e muitas vezes é uma Missa) Graças a isso, vou regularmente à Missa “como parte do meu trabalho”. É bom encontrar o Senhor no tempo de trabalho – e descobrir as riquezas das diversas culturas nas diferentes igrejas nacionais. Às vezes, pergunto-me como deve ser essa parte do dever para colegas agnósticos ou ateus, ou que pertencem a religiões diferentes. Tenho um grande respeito por todos os que passam por uma experiência que deve ser original. Como disse, isso surge “com o trabalho” aqui.

5. Porque é que a família é uma questão tão central na política da Hungria – e, obviamente, a julgar pela sua própria actividade nas redes sociais, também na sua opinião?        

Porque a família é a base da sociedade. Por família entendo pai, mãe e, idealmente, vários filhos que podem crescer com os seus pai e mãe. E, a este respeito, a nossa sociedade europeia moderna está muito, muito doente. Estamos num inverno demográfico. Agora, porque é que isso é um problema? Vou colocar de uma forma positiva: crescer com muitos irmãos e irmãs ensina os valores fundamentais da sociedade, da democracia. Tenho observado com os nossos seis filhos que se aprende quase tudo à mesa da refeição: solidariedade com os mais fracos, cuidar dos familiares mais jovens, dar voz aos menores, aprender os valores com os mais velhos por meio da observação. Com muitos irmãos, não há dúvida de que se tem de lutar contra os próprios impulsos egoístas – isso vem com o ambiente. Mas há muito mais, a família dá a segurança para desenvolver a própria personalidade num espaço protegido.        

Posteriormente, as crianças que crescem em tal ambiente ajudarão a construir um estado mais justo, social e solidário. Serão chamadas a assumir responsabilidades. São o alicerce da sociedade. Mas é um grande empreendimento (e caro) para os pais investirem. Consequentemente, a Hungria tenta encorajar as pessoas a terem mais filhos também, mas não exclusivamente, por meio de ajudas financeiras. Como observação lateral, esses são alguns dos valores fundamentais que conduziram a família Habsburgo ao longo dos séculos.           

6. Pertencendo ao ramo húngaro da família Habsburgo, ou seja, sendo parente afastado do último Imperador da Áustria, o Bem-Aventurado Carlos de Habsburgo, cujos restos mortais repousam em solo português insular, mais concretamente no Funchal, que palavras deixaria aos leitores católicos deste portal sobre as virtudes heróicas daquele eminente Chefe de Estado? 

Todo o católico deve-se esforçar para ser como o Beato Imperador Carlos. Porquê? Porque ele se esforçou – e conseguiu – para cumprir as suas triplas funções de católico, pai de família e o seu “trabalho” o mais cabalmente possível. Era um católico profundamente piedoso, algo que surpreendentemente nem sempre acontecia com outros membros da família Habsburgo, que ia à Missa e rezava o Rosário todos os dias; era um pai de família exemplar que amava ternamente a esposa e os filhos, prometendo à esposa «ajudar-se mutuamente até ao céu» (declaração no dia do casamento); e usou cada minuto do seu curto tempo como imperador para conduzir uma monarquia em apuros para um futuro de paz. Na verdade, foi a sua fé e a sua experiência no campo de batalha que lhe permitiram ouvir os apelos do Papa Bento XV pela paz. Infelizmente, as suas iniciativas não deram frutos imediatamente, caso contrário, muitas, muitas vidas poderiam ter sido salvas.

A melhor maneira de o fazer é conhecê-lo. Procurar tornar-se seu amigo, ler sobre ele em boas biografias e pedir a sua intercessão, de vez em quando, em diferentes intenções. Também se deve solicitar e ler o pequeno opúsculo Death of an Emperor, de Zeßner. É um relato incrivelmente impressionante dos últimos meses, dias e horas da vida de Carlos e leitura obrigatória para um católico.               

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