Tintoretto: a beleza da ressurreição na cruz

«Assim como Moisés ergueu a serpente no deserto, assim também é necessário que o Filho do Homem seja erguido ao alto, a fim de que todo o que nele crê tenha a vida eterna» (Jo 3, 14-15).

A grande tela da Crucificação deve, provavelmente, em parte, a sua existência à intercessão de São Roque, cuja glória foi pintada, por Tintoretto, para a oval central do tecto da Sala dell’Albergo, coração da veneziana Scuola Grande del Santo, que valeu ao mestre a atribuição, pela confraria, de todo o ciclo decorativo. De dimensões consideráveis – medindo x12 metros –, foi realizado em apenas um ano, em 1565, e posicionado acima do balcão em torno do qual se reuniam os representantes da poderosa instituição.                    

O antecedente do Antigo Testamento mencionado no Evangelho de João, a serpente de bronze levantada por Moisés no deserto, também foi pintado pelo mestre, mas posteriormente e noutra sala, a Capitular. A escolha iconográfica do tema da Paixão – além da Crucificação, estão presentes as telas de Cristo diante de Pilatos, do Ecce Homo e da Subida ao Calvário – queria aqui significar que esta é a única forma para alcançar a glória do Paraíso, como poderia demonstrar a história de São Roque.         

Atravessada a entrada, é-se imediatamente atraído pela imponente composição que, na época, teve imediato sucesso e, nos séculos seguintes, foi copiada, citada e estudada por artistas e letrados: o escritor americano Henry James chegou a dizer que, nesta pintura, há de tudo, inclusive a beleza mais primorosa. Só um génio como Tintoretto poderia suscitar a percepção do belo representando o momento mais dramático da história da humanidade: a morte, na cruz, de Nosso Senhor.          

O Gólgota está repleto de personagens. E, se tudo está consumado, o mundo parece não notar. Parece que todo o exército romano se reuniu para assistir ao grande acontecimento: os cavaleiros chegam, reciprocamente, por trás e pelos lados da cena; dois soldados, escondidos dentro de um buraco, jogam aos dados as vestes de Jesus. De forma aparentemente caótica, uma humanidade variada, curiosa e ocupada distribui-se no espaço, animando o enquadramento, cuja profundidade é marcada pelas diagonais das lanças e dos lenhos das cruzes, ainda erguidas, dos dois ladrões. Os algozes puxam cordas e cavam buracos: quase parece ouvir-se o zumbido das vozes dos transeuntes e o clamor nefasto dos instrumentos de tortura.

No horizonte, um vislumbre de Jerusalém e o perfil das colinas ao longe estão imersos num céu plúmbeo e ameaçador, porque até a natureza participa no drama em acto. Os brilhos que aparecem entre as nuvens escuras prenunciam uma tempestade que se aproxima, assim como o vento que sacode os galhos das árvores.           

Em primeiro plano, o grupo formado pelas piedosas mulheres, por João e José de Arimateia, enfileirados em torno da Virgem, retrata, com posturas e expressões de acentuado realismo, a intensidade da dor da Mãe diante da morte do Filho. Enquanto atrás deles se levanta a cruz.

O corpo de Cristo, belíssimo, destaca-se, luminoso, na escuridão que o cerca. É este o ponto em que converge o nosso olhar que, finalmente, encontra paz, tranquilizado pelos raios de luz que o Crucifixo emana. Tudo está, pois, consumado aqui na terra. Observando com atenção, no entanto, nota-se que do eixo da cruz e dos degraus da escada a ela encostados não se vislumbra o fim: ambos sugerem linhas potencialmente tendendo ao infinito. O momento fixado, por Tintoretto, na tela marca, por conseguinte, o início da eternidade e da salvação a que, graças ao sacrifício de Jesus, fomos destinados.   

Margherita del Castillo        

Através de La Nuova Bussola Quotidiana          

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