São José, modelo de castidade

Celebrando-se a festa de São José, esposo da Santíssima Virgem e Padroeiro da Igreja universal, o portal Dies Iræ publica o texto original da conferência que, no passado dia 14 de Março, S.E.R. D. Athanasius Schneider, Bispo Auxiliar de Maria Santíssima em Astana, no Cazaquistão, pronunciou a convite do portal. As citações, retiradas das traduções brasileiras das obras escolhidas, conservaram-se no Português do Brasil.

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Nosso Senhor Jesus Cristo ensinou-nos dizendo «Bem-aventurados os puros de coração, porque deles é o reino de Deus» (Mt 5, 8).  Deus fala-nos no livro da Sabedoria dizendo: «Como é bela uma geração casta em seu fulgor» (Sab 4, 1). A castidade é um dos frutos do Espírito Santo, como diz São Paulo (cf. Gal. 5, 23). No fim da Sagrada Escritura, no livro do Apocalipse, lemos que nada de impuro entrará na Cidade Celeste, a Nova Jerusalém (cf. Ap 21, 27). Ninguém verá a Deus sem a castidade; nos seus santos tabernáculos, não habitará ninguém que não tenha o coração puro, como lemos no livro do Apocalipse: «Felizes os que lavam as suas vestes, para terem direito à árvore da Vida e poderem entrar nas portas da cidade. Fora os cães, os feiticeiros, os luxuriosos, os assassinos, os idólatras e todos os que amam e praticam a fraude» (Ap 22, 14-15).

São Tomás de Aquino diz que a verdadeira castidade consiste na «caridade pela qual a alma se une com Deus» (S. Th., I-II, 70, 4 c). São Francisco de Sales falou numa maneira simples e, ao mesmo tempo, profunda sobre a castidade, dizendo: «A castidade é o lírio entre as virtudes e já nesta vida nos torna semelhantes aos anjos. Nada há de mais belo que a pureza e a pureza dos homens é a castidade. Chama-se a esta virtude honestidade; e à sua prática, honra. Denomina-se também integridade; e o vício contrário, corrupção. Numa palavra, entre as virtudes tem esta a glória de ser o ornamento da alma e do corpo ao mesmo tempo. Nunca é lícito usar os sentidos para um prazer impuro, de qualquer maneira que seja, a não ser num legítimo matrimónio, cuja santidade possa, por uma justa compensação, reparar o desaire que a deleitação importa. E, no próprio casamento, ainda se há-de guardar a honestidade da intenção, para que, se houver alguma imperfeição no prazer, não haja senão honestidade na vontade que o realiza. O coração puro é como a madrepérola, que não recebe uma gota de água que não venha do céu, pois ele não consente em nenhum prazer afora o do matrimónio que é ordenado pelo Céu. Salvo isso, nem sequer nele pensa voluptuosa, voluntária e demoradamente» (Filoteia ou Introdução à Vida Devota, III, 12). São Francisco de Sales continua dizendo: «Esta virtude é sumamente necessária a todos os estados. No da viuvez a castidade deve ser de uma generosidade extrema, para precaver-se dos prazeres sensuais, não só quanto ao presente e ao futuro, mas também quanto ao passado; lembrando prazeres já havidos, a imaginação excita más impressões. É por isso que Santo Agostinho tanto se admirava da pureza do seu amado Alípio, que já não conservava nem o sentimento nem a lembrança da sua vida desregrada anterior. E, com efeito, é sabido que os frutos ainda inteiros se conservam facilmente por muito tempo; mas, se foram cortados ou atingidos, o único meio de conservá-los é pô-los em conserva com açúcar ou mel. Do mesmo modo eu digo que, enquanto a castidade estiver intacta, se tem muitos meios de conservá-la; mas, uma vez perdida, só pode ser conservada pela devoção que, pelas suas doçuras, muitas vezes tenho comparado ao mel. No estado virginal a castidade exige uma muito grande simplicidade de alma e uma consciência muito delicada, para afastar toda a sorte de pensamentos curiosos e elevar-se acima de todos os prazeres sensuais, por um desprezo absoluto e completo de tudo o que o homem tem de comum com os animais e que mais convém aos brutos que a eles. Nem por pensamento duvidem essas almas que a castidade é muito superior a tudo o que é incompatível com a sua perfeição; pois o demónio, como diz São Jerónimo, não podendo suportar esta salutar ignorância do prazer sensual, procura excitar nestas almas ao menos o desejo de conhecê-los e sugere-lhes ideias tão atraentes, embora inteiramente falsas, que muito as perturbam, levando-as, como acrescenta este santo padre, a dar imprudentemente grande estima ao que não conhecem. É assim que muitos jovens, seduzidos pela ilusória e tola estima dos prazeres voluptuosos e por uma curiosidade sensual e inquieta, se entregam a uma vida desregrada com perda completa dos seus interesses temporais e eternos; assemelham-se a borboletas que, pensando que o fogo é tão doce quão belo, se atiram a ele e se queimam nas chamas. Quanto aos casados, é certo que a castidade lhes é necessária, muito mais do que se pensa, pois a castidade deles não é uma abstenção absoluta dos prazeres carnais, mas refrear-se neles. Ora, como aquele preceito – “irai-vos e não pequeis” é, no meu entender, mais difícil que o outro – “não vos ireis nunca” – por ser bem mais fácil evitar a raiva do que regrá-la, assim também é mais fácil a abstenção total dos prazeres carnais do que a moderação neles» (ibid.). 

Para conservar a preciosa virtude da castidade é preciso ser vigilante e observar regras também muito práticas. São Francisco de Sales dá-nos aqui de novo uma grande ajuda, dizendo: «Estejas sempre de sobreaviso para afastar logo de ti tudo o que te possa inclinar a sensualidade; pois este mal vai-se alastrando insensivelmente e de pequenos princípios faz rápidos progressos. Numa palavra, é mais fácil fugir-lhe que curá-lo. Parecem-se os corpos humanos com os vidros, que não se pode levar juntos, tocando-se, sem correr perigo de se quebrarem, e com as frutas, que, embora inteiras e bem maduras, recebem manchas, chocando umas com as outras. A água mais fresca que se quer conservar num vaso perde logo a sua frescura mal um animal a toca. Nunca permitas, nem a outros nem a ti mesmo, todo esse tocar exterior das mãos igualmente contra a modéstia cristã e contra o respeito que se deve a qualidade e a virtude duma pessoa; pois, ainda que não seja de todo impossível conservar o coração puro entre essas acções mais levianas que maliciosas, todavia sempre se recebe daí algum dano; nem falo aqui desses tactos desonestos que arruínam por completo a castidade.    

A castidade depende do coração, quanto à sua origem, mas a sua prática exterior consiste em moderar e purificar os sentidos; por isso podemos perdê-la tanto pelos sentidos exteriores como por pensamentos e desejos do coração. É impudicícia olhar, ouvir, falar, cheirar, palpar coisas desonestas, quando nisso o coração se demora e toma gosto. São Paulo chega a dizer: “Meus irmãos, a fornicação nem se nomeie entre vós”
(Ef 5, 3). As abelhas não só não pousam num cadáver corrompido, mas até fogem do mau cheiro que exala. Conserva-te ao lado de Jesus Cristo crucificado, quer espiritualmente – pela meditação –, quer real e corporalmente – na Santa Comunhão. Sabes, de certo, que os que se deitam sobre aquela erva agnus castus vão tomando insensivelmente disposições favoráveis à castidade; estejas certo que, se o teu coração descansar em Nosso Senhor, que é realmente o Cordeiro imaculado, bem depressa purificarás a tua alma, o teu coração e os teus sentidos, inteiramente, de todos os prazeres sensuais» (Filoteia ou Introdução à Vida Devota, III, 13).  

Depois de Nossa Senhora, Deus mesmo nos deu em São José um sublime exemplo de castidade. Na Carta Apostólica Patris Corde, de 8 de Dezembro de 2020, o Papa Francisco assim fala sobre São José e a castidade: «A tradição, referindo-se a José, ao lado do apelido de pai colocou também o de “castíssimo”. Não se trata duma indicação meramente afectiva, mas é a síntese duma atitude que exprime o contrário da posse. A castidade é a liberdade da posse em todos os campos da vida. Um amor só é verdadeiramente tal quando é casto. O amor que quer possuir, acaba sempre por se tornar perigoso: prende, sufoca, torna infeliz. O próprio Deus amou o homem com amor casto, deixando-o livre inclusive de errar e opor-se a Ele. A lógica do amor é sempre uma lógica de liberdade, e José soube amar de maneira extraordinariamente livre. Nunca se colocou a si mesmo no centro; soube descentralizar-se, colocar Maria e Jesus no centro da sua vida» (n. 7). São Josemaria Escrivá assim falou sobre a castidade de São José: «Para viver a virtude da castidade não é preciso ser-se velho ou carecer de vigor. A castidade nasce do amor; a força e a alegria da juventude não constituem obstáculo para um amor limpo. Jovem era o coração e o corpo de S. José quando contraiu matrimónio com Maria, quando conheceu o mistério da sua Maternidade Divina, quando vivei junto d’Ela respeitando a integridade que Deus lhe queria oferecer ao mundo como mais um sinal da sua vinda às criaturas. Quem não for capaz de compreender um amor assim conhece muito mal o verdadeiro amor e desconhece por completo o sentido cristão da castidade» (Cristo que Passa, n. 40).      

Santo Alberto, o Grande, considerou a virgindade de São José como um ornamento necessário da sua santidade. Ele refere-se a São José como o «protector da virgindade da sua esposa», «dux virginitatis coniugis» (In evangelium secundum Matthaeum, Opera 9, 13). Noutros lugares, afirma que São José fez um voto de castidade perpétua (ibid.), uma expressão que parece usar como praticamente sinónimo da expressão “voto de virgindade”.

São Bernardino de Siena disse: «É esta a regra geral de todas as graças especiais concedidas a qualquer criatura racional: quando a providência divina escolhe alguém para uma graça particular ou estado superior, também dá à pessoa assim escolhida todos os carismas necessários para o exercício da sua missão» (Sermo 2, de S. Ioseph). São José viveu a castidade também por causa da ajuda moral e espiritual que recebeu da presença de Jesus e da Sua castíssima esposa, a Bem-Aventurada Virgem Maria. O teólogo Francisco Suarez disse que «é provável que a bem-aventurada Virgem, pelas suas orações, impetrou a seu esposo, que amava duma maneira especial, muitas graças. Sendo a veneração da Virgem Maria um dos meios mais eficazes para obter de Deus dons da graça, como não se deve presumir que São José alcançou uma perfeição especial na santidade por meio dela?»
(In III S. Th., t. II, q. 29 a. 2 disp. 8 sect. 2). São Bernardino de Siena disse: «Sabendo da importância da união matrimonial no amor espiritual, e sabendo que José foi dado a ela como marido pelo Espírito Santo para ser o fiel protector da sua virgindade e companheiro do amor e da devoção para com o Divino Filho, creio que ela amava sinceramente São José de todo o coração. Visto que tudo o que pertence à esposa também pertence ao marido, creio que a Santíssima Virgem ofereceu da forma mais generosa tudo o que José pôde receber do tesouro do seu coração» (Sermo 2, de S. Ioseph).         

Sobre a castidade de São José, o Doutor da Igreja São Francisco de Sales deixou-nos preciosos ensinamentos. Lemos num dos sermões de São Francisco de Sales, pela ocasião da festa de São José, a seguinte meditação bíblica de profundo sentido teológico: «O justo é como a palmeira (Sal 91, 13). Isto a santa Igreja faz-nos cantar em todas as festas dos santos confessores. Mas como a palmeira tem uma variedade muito grande de propriedades peculiares, sendo o príncipe e rei das árvores, tanto pela beleza quanto pela bondade de seus frutos, assim há uma variedade muito grande da santidade. (…) Noto três propriedades particulares na palmeira, entre todas as outras árvores, que estão em grande número; quais propriedades são mais adequadas a São José, que é, como nos diz a Santa Igreja, como a palmeira. Ele não é apenas o Patriarca, mas a paraninfa de todos os Patriarcas; ele não é simplesmente Confessor, mas mais que Confessor, porque nesta qualidade estão incluídas as dignidades dos Bispos, a generosidade dos Mártires e de todos os outros Santos. É, portanto, com razão que São José compara à palmeira, que é a rainha das árvores e que tem a propriedade da virgindade, da humildade e da constância e da bravura: virtudes das quais o glorioso São José se destacou sobremaneira. Se alguém ousasse fazer comparações, haveria alguns que sustentariam que ele superou todos os outros santos nessas virtudes.

A palmeira é composta por dois sexos: contém o masculino e o feminino. A palmeira, que é o macho, não dá fruto e, no entanto, não é frutífero, pois a palmeira fêmea não daria fruto sem ele; de modo que, a menos que a palmeira feminina seja plantada perto da palmeira masculina e à sua vista, ela permanece infrutífera e não apresenta tâmaras; se, ao contrário, for vista da palmeira macho e for plantada à sua vista, dá muitos frutos. Ela produz, mas produz virginalmente, porque não é afectada, de forma alguma, pela palma masculina; tão bem olhado, não havendo conjunção entre eles, ela produz o seu fruto na sombra e à vista da sua palma masculina, mas é tudo puro e virginal. A palmeira masculina não contribui com nenhuma das suas substâncias para a sua produção; no entanto, ninguém pode dizer que a palmeira masculina não tenha grande participação no fruto da palmeira fêmea, pois sem ele não daria frutos e permaneceria estéril. Para conservar a pureza e virgindade da Virgem Maria, era necessário que a Providência divina a confiasse aos cuidados de um homem virgem, e que esta Virgem desse à luz este doce fruto da vida à sombra de um santo casamento. São José era, portanto, como uma palmeira que não traz frutos, mas, no entanto, não é infrutífero, por isso tem grande parte no fruto da palmeira feminina: não que São José tivesse contribuído com alguma coisa para esta produção sagrada e gloriosa, mas somente com a sombra do casamento. Ele não contribuiu com nada de próprio a este mais sagrado fruto da sua sagrada Noiva; mas ela pertencia-lhe e foi plantada bem perto dele, como uma palmeira gloriosa ao lado da sua amada palmeira, que, de acordo com a ordem da Providência divina, não podia e devia produzir excepto sob a sua sombra e à sua vista; quer dizer, à sombra de um santo matrimónio que não era ordinário, tanto respeito à comunicação dos bens externos quanto respeito à união e a conjunção dos bens internos que existiam entre Nossa Senhora e o glorioso São José. Nossa Senhora recebeu do glorioso São José muito alívio e serviço, e ele compartilhou todos os bens espirituais da sua querida Esposa, que o fizeram crescer maravilhosamente na perfeição; e isso pela comunicação contínua que ele tinha com ela, que possuía todas as virtudes num grau tão alto que nenhuma criatura poderia alcançá-las; no entanto, São José foi quem mais se aproximou dela.  Até que ponto São José tinha virgindade, uma virtude que nos torna semelhantes aos Anjos? Que se a Santíssima Virgem não era apenas completamente pura e toda a Virgem branca, assim (como canta a Santa Igreja nas respostas das Matinas: “Santa e Imaculada”) ela era a própria virgindade, quão deveria ser grande esta virtude em São José, o qual foi constituído, pelo Pai Eterno, guardião da sua virgindade, ou melhor, companheiro? Ambos haviam jurado manter a virgindade por todo o tempo das suas vidas, e agora Deus quer que eles sejam unidos por um sagrado laço de casamento, para não fazer com que se retirem ou se arrependam do seu voto, mas para confirmá-lo e fortalecer um ao outro. Portanto, não há dúvida de que São José foi dotado de todas as graças e todos os dons merecidos pelo ofício que o Pai Eterno quis dar-lhe, com o mistério da Encarnação de Nosso Senhor e com a conduta da sua família que se fez de apenas três, que representam para nós a Santíssima e adorável Trindade. Não que haja comparação, excepto no que diz respeito a Nosso Senhor, que é uma Pessoa da Santíssima e gloriosa Trindade, porque quanto aos outros (Nossa Senhora e São José), são criaturas; mas ainda podemos dizer que é a Trindade na terra, como a Santíssima Trindade está no céu. Maria, Jesus e José; José, Jesus e Maria, uma trindade maravilhosamente louvável e digna de honra. Mas se São José era tão cuidadoso em manter as suas virtudes sob o abrigo da santíssima humildade, ele tinha um cuidado muito particular em esconder a preciosa pérola da virgindade; portanto, ele consentiu em se casar, para que ninguém o conhecesse, e sob o véu do casamento ele pudesse viver disfarçado. Portanto, as virgens e os que desejam viver castos são ensinados que não basta ser virgens se não forem humildes e se não retirarem a sua pureza do precioso bolso da humildade; pois do contrário tudo acontecerá a eles, bem como às virgens loucas, que, por falta de humildade, foram expulsas da festa de casamento do Noivo e, portanto, forçadas a ir para a festa de casamento do mundo, onde o conselho do Noivo Celestial que diz que você tem que ser humilde para entrar no casamento, quero dizer que você tem que praticar a humildade porque, disse ele, quando ser convidado para o casamento, fica em último lugar. No qual vemos quanta humildade é necessária para a preservação da virgindade, pois sem esta virtude a pessoa deve ser inequivocamente rejeitada do banquete celestial e da festa nupcial que Deus prepara para as virgens na morada celestial. São José obterá para nós, se tivermos confiança nele, um grande aumento nas virtudes, mas especialmente naquelas que ele tinha em um grau superior a todas as outras, que são: a grande pureza do corpo e de espírito e a mais amável virtude de humildade que nos fará vitoriosos nesta vida de nossos inimigos, e nos fará merecer a graça de irmos desfrutar na vida eterna as recompensas que estão preparadas aqueles que imitam o exemplo que São José lhes deu nesta vida
» (Vingtième entretien pour le jour de saint Joseph).   

Queremos concluir com esta oração: «São José, pai e guardião das virgens, a cujo fiel guarda foram confiados Cristo Jesus, a própria inocência e Maria, a virgem das virgens. Rogo e imploro por esse duplo e precioso encargo, de Jesus e Maria, que me salveis de toda impureza, para manter a minha mente imaculada, o meu coração puro e o meu corpo casto; e ajudai-me sempre a servir Jesus e Maria em perfeita castidade. Ámen». 

Athanasius Schneider, Bispo Auxiliar de Maria Santíssima em Astana

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