Declaração de Mons. Carlo Maria Viganò sobre as Missas em São Pedro

31 de Março de 2020
Feria Quarta Hebdomadæ Sanctæ

Jesus autem abscondit se, et exivit de templo.
Jo 8, 59


No passado dia 12 de Março, com uma disposição sem assinatura, sem número de protocolo e sem destinatário, a Primeira Secção da Secretaria de Estado proibiu a celebração das Missas privadas na Basílica de São Pedro, no Vaticano, a partir do Primeiro Domingo da Paixão. Nos dias sucessivos, os Cardeais Raymond L. Burke, Gerhard L. Müller, Walter Brandmüller, Robert Sarah e Joseph Zen expressaram a sua motivada perplexidade com esta decisão que, pela forma inusual como foi elaborada, deixa intuir uma ordem explícita de Jorge Mario Bergoglio.  

A doutrina católica ensina-nos qual é o valor da Santa Missa, qual é a glória dada à Santíssima Trindade, qual é o poder do Santo Sacrifício pelos vivos e pelos defuntos. Sabemos também que o valor e a eficácia da Santa Missa não depende do número dos fiéis que a ela assistem, nem da dignidade do celebrante, mas da reiteração, de fora incruenta, do próprio Sacrifício da Cruz pelo sacerdote celebrante, que age in persona Christi e em nome de toda a Santa Igreja: elicipiat Dominus sacrificium de manibus tuis, ad laudem et gloriam nominis sui; ad utilitatem quoque nostram totiusque Ecclesi
æ suæ sanctæ.         

A escandalosa decisão de um anónimo funcionário da Secretaria de Estado, facilmente identificável no inominável Mons. Edgar Peña Parra, representa, infelizmente, uma explicitação da prática das Dioceses de todo o mundo: há sessenta anos que os desvios doutrinários, introduzidos pelo Vaticano II, insinuam que a Missa sem povo não tem valor, ou que tem menos em relação a uma concelebração ou a uma Missa com a presença de fiéis. As normas litúrgicas pós-conciliares proíbem a erecção de vários altares na mesma igreja e prescrevem que, durante a celebração de uma Missa no altar-mor, não se devem celebrar outras Missas nos altares laterais. O próprio Missale Romanum montiniano prevê até um rito específico para a Missa sine populo, no qual são omitidas as saudações – por exemplo, o Dominus vobiscum ou o Orate, fratres –, como se, além dos presentes, não assistissem ao Sacrifício Eucarístico também a Corte Celeste e as almas purgantes. Quando um sacerdote se apresenta em qualquer sacristia do orbe pedindo para poder celebrar a Missa – não digo no rito tridentino, mas também no reformado –, ouve-se invariavelmente que se pode unir à concelebração já prevista e, em qualquer caso, é olhado com suspeita se pede para poder celebrar sem ter algum fiel a assistir. É inútil objectar que a Missa privada é um direito de cada sacerdote: a mens conciliar sabe ir muito além da letra da lei para aplicar, com tetragonal coerência, o espírito do Vaticano II, manifestando a sua verdadeira natureza.

Por outro lado, a Missa reformada foi modificada para atenuar, silenciar ou negar explicitamente aqueles dogmas católicos que constituem um obstáculo ao diálogo ecuménico: falar dos quatro fins da Missa é considerado escandaloso, porque esta doutrina perturba aqueles que negam o valor latrêutico, propiciatório, de acção de graças e impetratório do Santo Sacrifício, definidos pelo Concílio de Trento.          

Para os Modernistas, não há nada mais detestável do que a celebração contemporânea de várias Missas, assim como é intolerável a celebração coram Sanctissimo (ou seja, em frente ao tabernáculo colocado por cima do altar). Para eles, a Santa Missa é uma ceia, uma festa de convívio, e não um sacrifício: por isso, o altar é substituído por uma mesa e o tabernáculo já não está presente sobre o altar, transferido para «um local mais adequado para a oração e o recolhimento»; por isso, o celebrante está voltado para o povo e não para Deus.

A disposição da Secretaria de Estado, além do desrespeito em relação aos Cónegos da Basílica e da hipócrita escamoteação da ausência de assinatura e protocolo, representa apenas a última confirmação de um dado de facto que, obviamente, não quer ser admitido, nem contestado, por aqueles que, ainda que com boas intenções, persistem em considerar actos individuais sem querer enquadrá-los no contexto mais vasto do chamado pós-concílio, à luz do qual até as mudanças mais insignificantes adquirem uma coerência inquietante e demonstram o valor subversivo do Vaticano II. O que, é verdade, reitera, por palavras, o valor da Missa privada – como recorda Sua Eminência Burke na sua última intervenção –, mas, de facto, tornou-a apanágio de qualquer “nostálgico” condenado à extinção ou de grupos de fiéis excêntricos. A suficiência com que os liturgistas pontificam sobre estas questões é indicativa de uma intolerância por tudo o que de Católico sobrevive no atormentado corpo eclesial. Sempre em coerência com esta abordagem, Bergoglio pode impunemente negar a Maria Santíssima o título de Medianeira e Co-Redentora, com o único propósito de agradar aos Luteranos, segundo os quais os “papistas” idolatram uma mulher e negam que Jesus Cristo seja o único Mediador.        

Proibir, hoje, as Missas privadas na Basílica de São Pedro legitima os abusos das outras Basílicas e igrejas do orbe, onde esta proibição vigora desde há décadas, embora nunca tivesse sido formulada explicitamente. E é ainda mais significativo que este abuso seja imposto com um acto aparentemente oficial, no qual a autoridade da Secretaria de Estado deveria silenciar, por temor reverencial, aqueles que desejam permanecer Católicos apesar dos esforços opostos da actual Hierarquia. Mas quem, ainda antes de Bento XVI, queria celebrar a Santa Missa na Basílica de São Pedro, não tinha vida fácil e era expulso do templo, como um excomungado vitandus, se apenas ousava celebrar o Novus Ordo em latim; não falemos, pois, do rito tridentino.    

É claro que, para os neomodernistas, se podem proibir as Missas privadas e também se tentará revogar o Motu proprio Summorum Pontificum porque –  como admitiu, recentemente, “Max Beans”, um dos mais zelosos cortesãos de Santa Marta – a liturgia tridentina pressupõe uma doutrina que é intrinsecamente oposta à teologia conciliar. Mas se chegámos ao escândalo da proibição das Missas privadas em São Pedro, também o devemos ao modus operandi dos Inovadores, que prosseguem, gradualmente, a aplicar, no campo litúrgico, doutrinal e moral, os princípios da “janela de Overton”. Reconheçamo-lo: estas piscadelas indecorosas a hereges e cismáticos respondem a uma estratégia, dirigida às seitas não-católicas, que encontra a sua conclusão na mais ampla estratégia voltada para religiões não-cristãs e às ideologias neopagãs hoje prevalecentes. Só assim se compreende esta vontade deliberada de secundar os inimigos de Cristo, para agradar ao mundo e ao seu príncipe.     

Nesta óptica devem ser lidas as projecções de animais na fachada da Basílica Vaticana; a entrada do ídolo da pachamama levado às costas por Bispos e clérigos; a oferta dedicada à Mãe Terra colocada no altar da Confissão durante uma Missa presidida por Bergoglio; a deserção do altar papal da parte daquele que recusa o título de Vigário de Cristo; a supressão das celebrações com o pretexto da pandemia e a sua substituição por cerimónias que recordam o culto à personalidade dos regimes comunistas; a praça completamente imersa nas trevas para se alinhar aos novos ritos do ecologismo globalista. Este moderno bezerro de ouro espera o regresso de um Moisés que desça do Sinai e restaure na verdadeira Fé os Católicos depois de ter expulsado os novos idólatras, seguidores do Aarão de Santa Marta. E não se ouse falar de misericórdia ou de amor: nada está mais distante da Caridade do que a atitude de quem, representando a autoridade de Deus na terra, abusa dela para confirmar no erro as almas que Cristo lhe confiou com a ordem para apascentá-las. O pastor que deixa o redil aberto e encoraja as ovelhas a saírem, mandando-as para as mandíbulas dos lobos vorazes, é um mercenário e um aliado do Maligno, e terá que prestar contas ao Supremo Pastor.       

Diante deste enésimo escândalo, podemos constatar, com consternação, o silêncio pávido e cúmplice dos Prelados: onde estão os outros Cardeais, onde está o Arcipreste emérito da Basílica, onde está o Cardeal Re, que, como eu, celebrou, durante anos, diariamente, a sua Missa privada em São Pedro? Porque é que, agora, se calam diante de tantos abusos?   

Como ocorre também no âmbito civil por ocasião da pandemia e da violação dos direitos naturais pela autoridade temporal, também no âmbito eclesiástico a ditadura precisa de súbditos sem espinha dorsal e sem ideais para se impor. Noutros tempos, a Basílica Vaticana teria sido sitiada por padres, as primeiras vítimas desta odiosa tirania que tem a importunidade de se fazer passar por democrática e sinodal. Não queira Deus que o inferno na terra, que se vai instaurando em nome do globalismo, não seja senão a consequência da indolência e da timidez, na verdade, da traição de muitos, demasiados clérigos e leigos.           

A Igreja, Corpo Místico de Cristo, aproxima-se da sua Paixão, para cumprir, nos próprios membros, os sofrimentos da sua Cabeça. Que estes dias que nos separam da Ressurreição do nosso Redentor sejam um estímulo à oração, à penitência e ao sacrifício, para que possamos unir-nos à Bendita Paixão de Nosso Senhor em espírito de expiação e de reparação, segundo a doutrina da Comunhão dos Santos, que nos permite, no vínculo da verdadeira Caridade, fazer o bem aos nossos inimigos e invocar de Deus a conversão dos pecadores: também daqueles que a Providência nos infligiu como Superiores temporais e eclesiásticos.    

Carlo Maria Viganò, Arcebispo

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1 Comentários

  1. Meu Deus, Meu Deus, porque nos abandonaste, ás mãos cruentas do inimigo, Vosso e nosso...

    Já sei, Senhor, Vós quereis, que aqueles que perseverarem, mesmo chorando e entristecidos, Vos continuemos a Seguir fielmente.

    Eis-me aqui meu Senhor, diante da Vossa Presença, não fecheis o Vosso Coração e abençõeis esta restia que vos segue, por entre cardos e espinhos, não permitais que a tristeza e desolação tome conta do nosso coração e da nossa Vida.

    Senhor, em Vossas Mãos coloco a Vida de Todos Aqueles que se forem preparando para o Santo Martírio, dai-nos o Espirito Santo de Fortaleza.

    Rezemos cada vez mais, Supliquemos Insistentemente, ao Nosso Deus Redentor e de Justiça e a Santa Interceção da Senhora de Misericórdia.

    Neste dia, dediquemos, Rezemos, Supliquemos pelos Bons e Fiéis Sacerdotes, todo o Clero, que se mantenham Fiéis ao Dom Sagrado da Ordem que receberam, concedido Hoje há dois mil, naquela Santa Ceia.

    Proposito do dia de hoje, Oração, Jejum, Abstinência, Vigília, são os Sacrifícios que a Senhora de Misericórdia nos pede, pelo Clero, ajudemos o nosso Páraco, Bispos e toda a Congregação do Clero.

    Amém.




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