Apenas o matrimónio entre um homem e uma mulher é uma bênção, afirma o Cardeal Müller

1. Por trás dos debates sobre o matrimónio entre um homem e uma mulher e aquele “para todos” da ideologia LGBT, encontram-se duas visões do homem diametralmente opostas e irreconciliáveis.

2. A visão cristã do homem apoia-se na ordem da Criação: do ponto de vista filosófico, a ordem da Criação encontra correspondência no conceito de “natureza”. Com isso não se entende algo de factual-material, mas de espiritual-pessoal, que dá ao ser material a sua forma e a sua essência. O homem é uma pessoa numa natureza espiritual-corporal. A lei moral está escrita no coração de cada homem (Rm 2, 16 ss), e também é expressamente revelada ao povo de Deus na forma dos Dez Mandamentos (Ex 20, 1-17; Dt 5, 16-21). Deste modo, para além dos limites das religiões e das diferentes concepções do mundo, existe uma visão comum da natureza humana. Neste contexto, o homem nunca é um meio para alcançar um fim, mas um fim em si mesmo. Este é também o sentido do direito natural e do direito dos povos, que teve a sua origem no pensamento da Escola de Salamanca e de Ugo Grotius (1583-1645). Estes direitos fundamentais foram traduzidos na Declaração dos Direitos Humanos, de 1948, ou na Constituição alemã: a dignidade do homem é intangível e esta dignidade vem sempre antes de qualquer lei positiva. O Estado, se não quiser erigir uma ditadura dos princípios e, com isso, minar o seu fundamento democrático, não pode absolutamente determinar o que é a natureza humana.     

3. A visão que a ideologia de género tem do homem, a construção social arbitrária da sexualidade e o transumanismo são claramente um materialista “como se Deus não existisse”. A de ideologia de género é uma ideologia misantrópica, que quer destruir a ordem natural e, com ela, a integridade alma-corpo do homem: o homem não é reconhecido como pessoa única nas condições da sua corporeidade, da sua localização histórico-social, mas é visto, antes, como homem biológico-material, que serve ao próprio prazer ou ao arbítrio de outros.     

A natureza humana, a criação como homem e mulher, deve, antes de tudo, ser desconstruída, isto é, ser destruída para ser, posteriormente, reconstruída e definida a bel-prazer por quem quer que seja. Que jogo diabólico se faz com o homem! Um jogo que, do ponto de vista antropológico e cristão, é diametralmente contrário à asserção fundamental de que “a dignidade humana é intangível”. Na verdade, a identidade do homem está, em primeiro lugar, na sua pessoa, homem ou mulher, na sua língua, na sua cultura, na sua consciência, etc., não na atracção erótica por si mesmo ou por outros homens, um ídolo instrumental de auto-erotismo.       

4. Só o sacramento cristão do matrimónio forma a estrutura perfeita para o desenvolvimento sexual do homem, macho e fêmea. Com efeito, é orientado à pessoa amada e, portanto, orientado a Deus, que, através do matrimónio e da família, realiza a Sua vontade criadora e salvífica. O matrimónio entre um homem e uma mulher não é, por conseguinte, de forma alguma, um jogo de satisfação sexual mútua, mas uma comunhão de íntimo amor pessoal e de total responsabilidade recíproca (incluindo a relação salvífica com Deus através da mediação sacramental), para com os filhos e os parentes. A doutrina clássica e, ao mesmo tempo, muito moderna do matrimónio nada tem a ver com um mero funcionalismo do casal em vista da criação (utilitarista) dos filhos e de uma satisfação egoísta dos desejos sexuais. O matrimónio é, antes, uma participação dos esposos no amor criador de Deus, tornando-se um na carne (em Cristo como sacramento), e na realização da vontade criadora através da ordem das gerações. Os filhos não são o joguete dos pais. Pelo contrário, são criados por Deus e confiados aos pais para que possam encontrar a sua salvação na glorificação de Deus criador, salvador e a plena realização do homem.  

5. A tentativa cristã de uma aquisição adequada do matrimónio na vontade criadora e salvífica de Deus permanece tal somente se o testemunho bíblico, a antropologia desenvolvida na vida da Igreja e o ensinamento sobre a sacramentalidade do matrimónio não estiverem sujeitos ao paradigma da antropologia antinatural, mas materialista, isto é, ateísta de género. Não se pode, como no gnosticismo, pôr toda a Revelação sob o signo de uma especulação ideológica e manter uma aparência cristã apenas com algumas reminiscências (com citações bíblicas por associação de ideias ou com frases boçais, como, por exemplo, “Deus fez-me diferente, egoísta, racista, nacionalista, etc.”, como se as disfunções e os defeitos de carácter fossem para ser atribuídos a um deus maniqueísta).          

6. Assim sendo, o Estado não pode redefinir, a seu bel-prazer, a natureza do matrimónio de acordo com os interesses políticos, porque a correspondência mútua do homem e da mulher pertence, essencialmente, à natureza humana. O termo “matrimónio” só pode ser usado correctamente no contexto do direito natural e, mais ainda, no eclesial: a singular união entre um homem e uma mulher na comunhão do amor, do corpo e da vida diante de Deus. Por isso, a utilização do slogan político “matrimónio para todos” é apenas a confirmação de que não se compreendeu nada. Não se pode excluir que tal formulação, enganosa e deliberadamente cínica, represente uma ferida direccionada ou um ataque à liberdade religiosa. O esposo e a esposa são pessoas únicas na sua comunhão de amor e não parceiros sexuais intercambiáveis ​​em número maior ou menor.       

7. As pessoas com atracção pelo mesmo sexo são igualmente amadas por Deus, como todos. Mesmo a bênção de tais pessoas, enquanto homens – assim como a bênção de todos os homens, qualquer que seja a inclinação que possam ter –, é sempre um acto da graça divina e um apelo à conversão e a uma vida conforme aos Dez Mandamentos. No alvorecer da Criação, Deus abençoou o primeiro matrimónio como união entre um homem e uma mulher (Gn 1, 28). Uma união, de qualquer tipo, que esteja em contraste com a vontade de Deus, não pode, ao mesmo tempo, ser declarada boa por Ele. Porque abençoar, benedicere, significa declarar boa uma coisa proveniente de Deus e que a Ele reconduz. Também é necessário distinguir entre o respeito pelos indivíduos que têm certas inclinações, dos interesses de grupos de pressão que, intencionalmente, querem impor a sua visão à maioria da sociedade, por meio do poder ou da lavagem cerebral. E, de acordo com a ditadura do relativismo, quem, com razão, se opõe a esta visão, deve ser silenciado, mediaticamente exilado e, inclusive, perseguido juridicamente.       

8. Para dizer a verdade, não podem ser abençoadas pela Igreja, se permanecer fiel ao seu divino Fundador, outras formas de vida que não sejam o matrimónio e a vida consagrada (os indivíduos podem ser todos abençoados). 

Isto não se refere apenas a casais de homens com inclinações sexuais em relação a pessoas do mesmo sexo. Mesmo as convivências formadas por um homem com várias mulheres, ou por uma mulher com vários homens, não podem ser abençoadas pela Igreja. Mesmo as simples amizades não são formalmente abençoadas. O matrimónio entre um homem e uma mulher faz parte do núcleo distintivo da Igreja, porque é o germe da família cristã. Foi instituído, por Jesus Cristo, como sacramento e está intimamente ligado à comunidade dos fiéis. Somente com Jesus houve plena consciência da originária vontade de Deus quanto à monogamia, à indissolubilidade, à abertura à vida, diante de alguns obscurecimentos do matrimónio (causados ​​pelo pecado original); e, com a elevação a sacramento, estes elementos do matrimónio foram trazidos à luz.

Por isso, é importante que os pastores, em nome de Cristo crucificado, do Senhor ressuscitado e do Bom Pastor, encorajem os casais a redescobrir-se sempre novamente como pessoas únicas amadas por Deus e a alimentar-se sempre novamente no Espírito Santo, o fogo do amor pessoal e total. A família é e deve ser o único lugar no qual a forma mais elevada deste amor espiritual e corporal e a unidade são vividas juntamente e no qual o amor de Deus pela criação é singularmente representado, de modo fecundo, por meio do homem e da mulher.  

Gerhard Cardeal Müller – Roma

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