«A Europa Central está a construir resistência», sustenta Jerzy Kwaśniewski

Depois da notável entrevista que a Ministra húngara Katalin Novák concedeu, em exclusivo, ao portal Dies Iræ, temos o apanágio de disponibilizar aos nossos leitores uma entrevista realizada ao Dr. Jerzy Kwaśniewski, Presidente do Ordo Iuris polaco, organização, constituída por juristas e académicos, que, desde 2013, se tem dedicado, de forma intensa e eficaz, à defesa dos direitos naturais inalienáveis, como o são o direito à vida, à família e ao matrimónio entre um homem e uma mulher.

1. Muito obrigado por nos conceder esta entrevista. Quando, onde e como surgiu a ideia da criação de uma entidade de juristas católicos para defender a Polónia, especialmente no campo jurídico, das investidas deletérias dos inimigos da instituição familiar? 

A necessidade de criar um grupo de profissionais – advogados e académicos – comprometidos com a defesa da ordem social natural foi uma reacção à marginalização da normalidade. A maioria silenciosa, apegada à tradição, família, casamento e fé, foi ridicularizada e privada da sua própria representação no debate público. Ao mesmo tempo, a linguagem desse debate foi moldada de uma maneira que dificultou a expressão de apoio à ordem social natural. O que é uma reminiscência directa das advertências, de Orwell, em “1984”. Em 2012, organizámos uma grande conferência internacional dedicada aos aspectos jurídicos da protecção da vida humana na fase de desenvolvimento pré-natal. Isso permitiu-nos ver quantos advogados estavam prontos para se envolver abertamente. Um ano depois, o Instituto Ordo Iuris foi estabelecido com o apoio da Associação Padre Piotr Skarga.   

2. Quantos são os membros efectivos, correspondentes, amigos e simpatizantes do Ordo Iuris na Polónia? 

Actualmente, o Instituto emprega cerca de 40 pessoas, entre equipas de processo, de análise e de comunicação. Muitas outras estão envolvidas, ocasional e frequentemente, de forma pro bono, nos nossos esforços académicos ou judiciais, fornecendo apoio jurídico a um dos 700 beneficiários anuais da nossa ajuda jurídica, escrevendo para o nosso jornal jurídico ou fornecendo opiniões legais. Quase 15.000 doadores estão regularmente envolvidos na nossa missão, cujo apoio nos permite financiar as actividades do Ordo Iuris apenas com fundos privados.     

3. Qual foi o papel desempenhado pela organização a que preside na campanha contra a legalização do “casamento” homossexual e nas recentes restrições à lei do aborto?           

O Instituto é um participante activo, e muitas vezes iniciador, de todas as actividades que visam a defesa da família, do casamento e da vida. O Tribunal Constitucional relembrou a análise que havíamos fornecido quando emitiu uma sentença que estendia a protecção da vida humana na Polónia. Foram os nossos advogados que defenderam a família, no Supremo Tribunal Administrativo da Polónia, contra a adopção homossexual. O casamento ainda é fortemente definido, na Constituição Polaca, como união entre homem e mulher.          

4. Pessoalmente, é casado e pai de seis filhos. Num momento tão turbulento como o actual, que futuro crê que terão os seus filhos? De algum modo, são também eles que o motivam nas batalhas em que se envolve?      

Um desses seis morreu antes do seu nascimento, apenas um dia depois do veredicto pró-vida do Tribunal Constitucional polaco. Morreu como um homem plenamente reconhecido, com a sua vida sob a protecção da lei.

Preparo as crianças para enfrentarem um mundo que não aceita as suas crenças e escolhas. Ensino-lhes a independência de pensamento, enquanto confio nas autoridades e tradições. E, acima de tudo, preparo-os para entrarem no mundo adulto com a compreensão da sua missão e vocação cristãs. A família é uma motivação notável e, sem o forte apoio da minha esposa, não seria capaz de me dedicar à criação e ao desenvolvimento do Ordo Iuris, nem seria capaz de suportar os ataques que estão a cair sobre todos nós.

5. Foi considerado um dos vinte e oito indivíduos mais poderosos da Europa. É essa uma “conquista” pessoal ou, pelo contrário, considera que é o resultado do esforço de todo um conjunto de pessoas, juristas ou não, que se dedicam à defesa de valores e princípios essenciais como é o caso do direito à vida?        

Vejo isso como uma forma específica pela qual a revista “Politico” notou a importância do conservadorismo polaco e centro-europeu, dando-lhe a minha cara. Sublinha uma alternativa à ideologia europeia dominante, que é liberal e desrespeita a dignidade humana. Contra essa ideologia, a Europa Central está a construir resistência. Foi a resistência à ideologia de género, que vê a família como fonte e não como protecção contra a violência, e a luta contra a doutrina LGBT, que despoja as pessoas do seu interior em favor de perceber toda a gente através das suas preferências sexuais, que chamou a atenção da Europa para nós.        

6. Na semana passada, em Portugal, foi aprovada, no Parlamento, a lei da eutanásia. Que comentário lhe merece tal decisão e que conselho gostaria de dar àqueles que, nas mais diversas organizações, sejam elas civis, políticas ou religiosas, se empenham em combater a “morte por encomenda”?       

Estamos perante um sério desafio de mostrar, também a nível internacional, que a dignidade humana deve ser protegida sem quaisquer excepções. Qualquer violação dessa protecção equivale a fornecer ao Estado, com os seus processos políticos, o poder de definir os limites da vida e da sua protecção. É uma completa destruição da ordem jurídica, que deveria servir os naturais direitos das pessoas, independentemente da sua saúde e consciência. Para que os nossos esforços sejam eficientes, precisamos de profissionais – advogados, jornalistas, líderes de opinião – apoiados por um largo grupo de compatriotas disponíveis para construírem, em conjunto, uma resistência contra o novo totalitarismo pós-marxista.

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