As vacinas e o médico nazi Pernkopf: um caso moral

Por estes dias, em Itália e no mundo, está em curso um debate moral sobre a liceidade moral da vacinação contra o COVID. Tratarei amplamente do tema num webinar, isto é, uma conferência online, com possibilidade de perguntas, que realizarei, no dia 23 de Fevereiro, às 18h00 (17h00 de Lisboa, n.d.r.), no portal Schola Palatina. Aqui, gostaria de me limitar a tratar a questão através de um exemplo interessante.

Na década de 1990, a Dr.ª Susan Mackinnon, uma pioneira na cirurgia do sistema nervoso periférico da Universidade Washington em St. Louis, não conseguia encontrar um nervo numa difícil operação, mas conhecia um atlas de anatomia que poderia ajudá-la: o Atlas de Anatomia Humana (Topographische Anatomie des Menschen), de Eduard Pernkopf, em sete volumes, considerado o melhor exemplo de desenhos anatómicos do mundo, utilizado por muitos cirurgiões do sistema nervoso periférico. Encontrou o nervo em poucos minutos graças às ilustrações deste volume e salvou o seu paciente da amputação de uma perna.      

Mas o autor da obra, o professor de anatomia austríaco Eduard Pernkopf (1888-1955), director da Faculdade de Medicina de Viena, era um fervoroso seguidor de Hitler e os desenhos do livro provêm dos corpos de centenas de pessoas mortas pelos nazis. O livro estava no centro de um aceso debate ético: houve quem afirmasse que o livro estava contaminado pelo seu passado e quisesse que fosse removido de todas as bibliotecas, enquanto outros consideravam moralmente lícito o seu uso.

A Dr.ª Mackinnon recorreu a especialistas como o rabino Joseph Polak, autor do livro After the Holocaust the Bells Still Ring, e a Dr.ª Sabine Hildebrandt, que estudara extensivamente o Terceiro Reich. Esses estudiosos, em conjunto com outros, desenvolveram o chamado Protocolo de Viena: uma série de recomendações sobre o uso do livro de Pernkopf, que foram aprovadas, em 2017, por um grupo de especialistas do Yad Vashem, o museu do Holocausto de Jerusalém. O protocolo prevê que o livro se possa usar desde que haja consciência e condenação da sua origem.

A questão moral também foi tema de um artigo da moralista Cathleen Kaveny, intitulado “Appropriation of Evil: Cooperation’s Mirror Image”, publicado, em 2000, na revista Theological Studies, e, mais recentemente, de uma intervenção do Prof. Stefano Kampowski, recuperado por Corrispondenza Romana. Cathleen Kaveny é uma estudiosa de direito e de teologia americana. Stephan Kampowski é professor de Antropologia Filosófica, no Pontifício Instituto Teológico João Paulo II para as Ciências do Matrimónio e da Família, o original, não o saneado por Mons. Paglia. Foi um dos primeiros críticos das teses morais do Cardeal Kasper, no ensaio, de que é autor, com Juan José Pérez-Soba, Il vangelo della famiglia nel dibattito sinodale oltre la proposta del cardinal Kasper.

Os dois autores aplicam este caso ao debate sobre as vacinas e argumentam que o uso, na pesquisa científica, de material proveniente de aborto directo, mais do que constituir uma cooperação para o mal, se configura como apropriação do mal, enquanto a acção do sujeito actuante (apropriador) não facilita a de um outro sujeito, mas aproveita a acção de um outro sujeito (agente auxiliar).      

O problema diz respeito à relação entre um acto bom, que se quer fazer no presente, e uma má acção, feita no passado.    

Pode-se falar de cooperação para o mal? Parece que não, justamente porque falta a concomitância das duas acções. O clássico exemplo de cooperação é aquele de quem segura a escada ao ladrão. Os moralistas dizem que, se é de acordo com o ladrão, se coopera formalmente com ele, porque partilha a intenção. Se, no entanto, for forçado a fazê-lo sob ameaça de morte, a sua cooperação não é formal, mas material, desprovida de consentimento da vontade, obrigada sob ameaça e considerada lícita pelos moralistas. Mas esta cooperação, formal ou material, próxima ou remota, dependendo do tipo de concurso que se presta ao acto imoral, diz respeito ao presente e não ao passado: é concomitante ao acto. 

Pode haver uma cooperação com o mal ocorrido no passado?      

Existe uma maneira pela qual também se pode cooperar com o mal do passado, que é a cooperação formal. Já que o passado não pode ser mudado, é metafisicamente impossível para alguém, hoje, dar assistência material aos crimes nazis dos anos 1930 e 1940. A cooperação formal, por outro lado, permanece uma possibilidade metafísica, mesmo que diga respeito a acções passadas: consiste em aprová-las. Pode-se fazer um exemplo com a lei 194, sobre o aborto. A aprovação jurídica da lei, em 1978, foi um acto gravemente imoral. Os responsáveis ​​pela lei 194, que é um acto praticado no passado, são aqueles que, então, a colocaram em prática e aqueles que, hoje, a aprovam directamente, em intenções, palavras e nos actos, cooperando, formalmente, naquele crime.          

De facto, no caso das vacinas anti-COVID-19, o vacinador e os vacinados não colaboram, de forma alguma, com o acto do aborto, realizado no passado (1972 e 1985), mas apropriam-se dos resultados produzidos por aquele acto iníquo para disso tirar vantagem. E tirar benefício da acção maligna de outra pessoa não é, necessariamente, uma cooperação formal para o mal, assim como não foi cooperação para o mal o uso do livro de Pernkopf, pela Dr.ª Mackinnen, para salvar um paciente. 

Roberto de Mattei   

Através de Radio Roma Libera 

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1 Comentários

  1. Nos dias de hoje, sem a Graça do Senhor, como é possível escolher entre a Palavra de Deus e a vozes de Satanás?

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