Sermão do Cardeal Burke, em Gricigliano, no dia de Natal

In Nativitate Domini ad Tertiam Missam    
Capela do Seminário de São Filipe Néri       
Gricigliano  
25 de Dezembro de 2020          

Heb 1, 1-12  
Jo 1, 1-14     

Sermão

Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Ámen. 

As extraordinárias alegria e paz da festa de hoje têm a sua inesgotável fonte no Mistério da Fé, na verdade expressa nas palavras do Evangelho: «E o Verbo fez-se homem e veio habitar connosco. E nós contemplámos a sua glória, a glória que possui como Filho Unigénito do Pai»[1]. É a verdade que é toda Beleza e Bondade para nós, pois Deus, no Seu incomensurável e incessante amor, fez morada connosco na Igreja. Deus Pai enviou Deus Filho, o Verbo Que é a expressão do Seu próprio Ser, ordenando o mundo na Criação e restaurando o mundo decaído por meio da Sua Encarnação Redentora. O Filho, que o Pai enviou para salvar o mundo, «a quem constituiu herdeiro de todas as coisas», é a mesma Pessoa Divina «por meio de quem fez o mundo»[2]. É assim que a Carta aos Hebreus descreve Deus Filho Encarnado:    

Ele reflecte a própria glória de Deus e carrega a própria marca da sua natureza, sustentando o universo através da sua palavra de poder. Depois de ter operado a purificação dos pecados, sentou-se à direita da Majestade nas alturas, tendo-se tornado tão superior aos anjos quanto o nome que obteve é
​​mais excelente do que o deles[3].       

Assim como são para o Pai, também para o Filho os anjos são «todos eles espíritos encarregados de um ministério, enviados ao serviço daqueles que hão-de herdar a salvação»[4]. De facto, no Nascimento do Divino Salvador os anjos vieram para cantar um belo hino ao Mistério da Fé e para atrair os pastores ao estábulo para ver e adorar Deus Filho Encarnado. 

Dom Prosper Guéranger, reflectindo sobre o mistério do Natal, escreve:     

«
O esplendor deste Mistério deslumbra a compreensão, mas inunda o coração de alegria. É a consumação dos desígnios de Deus no tempo. É um assunto sem fim de admiração e prodígio para os Anjos e Santos; não, é a fonte e a causa da sua bem-aventurança»[5].

Não importando quais fardos ou tristezas pesem sobre nós, a nossa fé enche-nos com a alegria e a paz da verdade de que Deus Filho veio habitar connosco, veio como o verdadeiro Filho de Maria, cujo esposo, José, se tornou Seu guardião.

Habitando connosco, Deus Filho Encarnado capacita-nos, por meio das inúmeras graças que fluem da Sua Encarnação Redentora, a sermos Seus firmes e corajosos «cooperadores da causa da verdade»[6], Seus «bons soldados»[7]. Satanás, com toda a sua astúcia, tenta roubar-nos a alegria e a paz do Natal. Está sempre a tentar entrar nos nossos corações, distraindo-nos do Mistério da Fé e corrompendo-nos com afeições desordenadas. Ajoelhados diante do presépio de Natal, contemplando o Menino Jesus, Sua mãe Maria e o Seu pai adoptivo José, ouvimos o batimento dos Seus Três Corações apaixonados pelo homem. Que os nossos corações se unam totalmente aos deles: o Santíssimo Coração de Jesus, o Imaculado Coração de Maria e o Puríssimo Coração de São José. No Mistério da Fé, no mistério dos Três Corações de Jesus, Maria e José, os nossos corações estão livres das distracções e das afeições erradas, e estão cheios de incomensurável
​​e incessante alegria e paz.   

De maneira totalmente particular, vivemos na verdade da Natividade de Nosso Senhor cada vez que participamos no Sacrifício Eucarístico. Quando o sacerdote, agindo na própria pessoa de Cristo, nosso Salvador, pronuncia as palavras sobre o pão e o vinho que oferecemos: «Pois isto é o meu Corpo... Pois este é o Cálice do meu Sangue, do Sangue da nova e eterna aliança, Mistério da Fé; o qual será derramado por amor de vós e de todos os homens para remissão dos pecados»[8], experimentamos, da maneira mais plena possível, a verdade que celebramos hoje: «E o Verbo fez-se homem e veio habitar connosco, cheio de graça e de verdade». Com razão, a porta do tabernáculo da vossa capela representa o Nascimento de Nosso Senhor. No Sacrifício Eucarístico, verdadeiramente «contemplamos a sua glória, a glória que possui como Filho Unigénito do Pai».

Reflectindo sobre o significado do nome do local de nascimento do Salvador, Belém, “a Casa do Pão”, Dom Guéranger lembra-nos que Deus Filho assumiu a nossa carne humana para que pudesse ser o Pão Celestial que nos sustenta ao longo da peregrinação da nossa vida terrena e é o penhor da vida eterna com Ele, o verdadeiro destino da nossa peregrinação. A Sagrada Comunhão realiza a mais elevada e perfeita transformação das nossas vidas; traz à plenitude a vida de Cristo, em nós desde o momento do Baptismo e reforçada e aumentada desde o momento da Confirmação. Dom Guéranger escreve:       

«
É por essa divina transformação que o mundo esperava há quatro mil anos e para a qual a Igreja se prepara nas quatro semanas do Advento. Finalmente chegou e Jesus vai entrar em nós, se o quisermos receber. Ele pede para estar unido a cada um de nós em particular, assim como Ele está unido, pela sua Encarnação, a todo o género humano; e, para isso, deseja tornar-se nosso Pão, nosso alimento espiritual»[9].         

«Se o quisermos receber». Que nós, unidos com a Virgem Mãe de Deus e com o seu castíssimo esposo José, coloquemos os nossos corações totalmente no Divino Coração Encarnado. Recebamos Nosso Senhor para que Ele se torne todo nosso, para que nos purifique de todo o pecado, para que o Seu amor seja a verdadeira forma do nosso viver diário.          

Reconhecendo aqui e agora o Mistério da Fé, a verdade natalícia da morada de Deus connosco, elevemos os nossos corações, um com o Imaculado Coração de Maria e o Coração Puríssimo de São José, ao Coração Eucarístico de Jesus, o Salvador do mundo, o Rei do Céu e da terra. Assim, que os nossos corações se encham da alegria e da paz do Seu Nascimento em Belém, da alegria e da paz que Ele nos dá, sem medida e sem cessar, na Igreja, mais especialmente através do Sacrifício Eucarístico que agora celebramos. Assim, possamos sempre ser sábios e corajosos «cooperadores da causa da verdade»[10], «bons soldados»[11] de Cristo.  

Coração de Jesus, substancialmente unido ao Verbo de Deus, tende piedade de nós.    
Mãe do nosso Salvador, rogai por nós.       
São José, Pai Adoptivo do Filho de Deus, rogai por nós.          
São Bento de Núrsia, rogai por nós. 
São Tomás de Aquino, rogai por nós.          
São Francisco de Sales, rogai por nós.        
São Filipe Néri, rogai por nós.

Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Ámen. 

Raymond Leo Cardeal Burke     



[1] Jo 1, 14.

[2] Heb 1, 2.

[3] Heb 1, 3-4.

[4] Heb 1, 14.

[5] «Mystère éblouissant pour l’intelligence, mai suave au cœur des fidèles, il est la consommation des desseins de Dieu dans le temps, l’objet de l’admiration e de l’étonnement des Anges et des Saints dans leur éternité, en même temps que le principe et le moyen de leur beatitude», Prosper Guéranger, L’Année liturgique, Le Temps de Noel, Tome I, 21ème éd. (Tours: Maison Alfred Mame et Fils, 1923), p. 7. [Guéranger]. Tradução portuguesa pelo autor.

[6] 3 Jo 8.

[7] 2 Tm 2, 3.

[8] «Hoc est enim Corpus meum… Hic est enim Calix Sanguinis mei, novi et aeterni Testamenti: Mysterium fidei: qui pro vobis et pro multis effundetur in remissionem peccatorum», Missale Romanum, ed. 1962. Tradução portuguesa: Missal Romano Quotidiano (Bruges: Biblica, 1963), pp. 766-767.

[9]  «C’est là cette divine transformation que le monde attendait depuis quatre mille ans, vers laquelle l’Église a soupiré durant les quatre semaines du Temps de l’Avent. L’heure est enfin venue, et le Christ va entrer en nous, si nous voulons le recevoir. Il demande à s’unir a chacun de nous, comme il s’est uni à la nature humaine en général, et pour cela il se veut faire notre Pain, notre nourriture spirituelle», Guéranger, p. 13. Tradução portuguesa pelo autor.

[10] 3 Jo 8.

[11] 2 Tm 2, 3.

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