segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

S. Manuel González García: as últimas horas de um santo

Com o 1.º de Janeiro, festa onomástica de D. Manuel, iniciava-se o novo ano. Recebeu a comunhão nas primeiras horas. Celebrou-se a Santa Missa e, ao acabar, pediu de novo para ver a luz do sol, a claridade: “Corram as cortinas… Não poderiam deixar-me diante da varanda para que eu possa ver o sol, as árvores, a luz?”. Assim fizeram e o enfermo, embora sentindo um novo assalto da doença, começa a gracejar ao ver-se tão gordo naquela cama onde o deitaram: “Pareço mesmo um novelo!”. Quase que não se podia mexer e era-lhe difícil rezar. Pediu que lhe pusessem no quarto uma imagem de Nossa Senhora, que as religiosas, que cuidavam dele com solicitude amorosa, lhe trazem imediatamente. Entretanto, a febre vai subindo…    

D. Leopoldo Eijo Garay, Bispo de Madrid, seu velho amigo, fez-lhe uma visita que para D. Manuel resulta muito grata e reconfortante. Os médicos reúnem-se e chegam à conclusão de que a operação prevista em Palência se torna impossível.         

No dia 2, a gravidade acentua-se até ao extremo e, no dia seguinte, todas as esperanças estavam perdidas. Passou a manhã mergulhado num silêncio absoluto. A língua seca, a boca aberta à procura de ar e a respiração ofegante não o deixavam falar. Tinha o olhar cravado no Coração de Jesus. Ao meio-dia, sentiu um certo alívio e pôde dirigir com voz clara a recitação das três Avé-Marias. Depois, pediu para se confessar, o que fez com plena lucidez, e passou a tarde relativamente tranquilo, mas sem vislumbres de recuperação. O padre Fernando, seu secretário, não o deixou um único momento. Ao entardecer, disse-lhe: “Como é bom o Senhor!”. E o doente respondeu em voz baixa: “Tão bom!”, acrescentando uma palavra em latim: “Magnificat”. Rezaram o Cântico de Nossa Senhora: D. Manuel dizia um versículo e os acompanhantes outro. Ao terminar, rezou ainda o Glória Patri.        

Na madrugada do dia 4, a febre subiu a quarenta e o suor não o deixava. O coração começava a falhar. Às cinco da manhã, trouxeram-lhe a comunhão – a última do Bispo da Eucaristia! Levantou o braço direito e abençoou quantos ali se encontravam, como se pressentisse que tinha chegado a sua última hora. O pulso perdido e a respiração quase de agonia. Às onze horas, chegou de Sevilha o seu irmão Francisco. Sorriu-lhe ao reconhecê-lo, mas já não pôde falar. Deu-lhe a entender, com o olhar, a consolação que sentia com a sua vinda.

Ao meio-dia, veio vê-lo o Núncio de Sua Santidade, Monsenhor Cicognani. D. Manuel reconheceu-o, mas, entre as dores derradeiras, só pôde dizer-lhe o seu agradecimento com o olhar. Com muito custo ainda conseguiu murmurar: “Que bom!”. O irmão mostrou-lhe uma estampa de Nossa Senhora da Alegria, a sua Nossa Senhora da paróquia de São Bartolomeu de Sevilha, onde D. Manuel recebera o Baptismo. Fitou-a com um sorriso, beijou-a e fechou os olhos. O mundo de recordações e emoções que a estampa terá despertado no moribundo faz parte desse cúmulo de experiências secretas que só Deus conhece. A sua irmã Antónia continuava a seu lado e o bispo olhava detidamente para ela com uma paz cada vez maior e em silêncio. Teve uma leve contracção a que se seguiu um vómito de sangue. Era uma da tarde e o Bispo de Palência, o antigo Arcipreste de Huelva, o “seise” da Catedral de Sevilha, estava com Deus. Tinha voado a adorar o seu Mestre e Senhor, no Sacrário aberto da nova Jerusalém, aos sessenta e dois anos de idade.      

José Luis Gutiérrez García, in Uma Vida para a Eucaristia

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