quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

O Natal com Santo Afonso de Ligório

Os “sucessos” da Igreja contemporânea e da Itália secularizada estão à vista de todo o Mundo: ninguém entrará no Seminário da Diocese de Florença em 2021, como declarou o Arcebispo Giuseppe Betori à TGR Toscana, enquanto o Istat regista um recorde negativo para a natalidade em Itália: em 2019, nasceram 420.084 novos bebés, quase 20.000 a menos em relação ao ano anterior e mais de 156.000 a menos em comparação com 2008. Bastaria tornar à Fé de sempre para recuperar vocações e seria suficiente parar os abortos e favorecer a cultura do matrimónio para aumentar o índice demográfico. Mas, aparentemente, o orgulho é mais forte do que o bom senso...     

A leitura que oferece o Cardeal Betori sobre a ausência de vocações na sua diocese, como em tantas outras dioceses, é de carácter geral. Trata-se de uma «situação verdadeiramente trágica, mas dou uma minha interpretação: não é menos trágica que a dos matrimónios e, em geral, dos projectos de vida. O problema da crise vocacional ao sacerdócio está dentro de uma crise vocacional da pessoa humana (…) uma vida que quer muitas experiências não pode ser uma vida que se consagra a uma finalidade, a um propósito. É válido para o matrimónio, para o sacerdócio, para todas as escolhas das pessoas».       

Diante de toda esta tragédia, onde há pastores capazes de fazer salutares mea culpa? Além disso, onde há santos pastores? Sem santidade, a Igreja não pode ser restaurada. A autocrítica levaria a rever todos os “passos à frente” da Igreja que foram implementados, fazendo, assim, um são reexame para chegar a terras seguras através, finalmente, de um retorno da condenação dos pecados e dos erros para restabelecer a ordem e a verdadeira paz de Cristo, em detrimento da religião protestantizada de Roma.      

No entanto, os sinais celestes não faltam, incluindo este anómalo Santo Natal de 2020, onde a Santa Missa da meia-noite será negada. «Mas, quando o Filho do Homem voltar, encontrará a fé sobre a terra?» (Lc 18, 8). Se viesse agora, encontraria muitos rumores, escolhas perversas, heresias abundantes, géneros de pecados. Por que não voltar à tradição que não trai nem Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, nem as almas?   

Chegamos ao Santo Natal, por isso aproveitemos este precioso momento para parar e ouvir o que nos tem a dizer Santo Afonso Maria de Ligório (1696-1787) a respeito. As suas palavras não conhecem cansaço e velhice e são muito apropriadas também para o COVID-19 e as suas “variantes”: «Considera como, tendo Deus criado o primeiro homem, para que o servisse e amasse nesta vida, para, então, conduzi-lo à vida eterna e reinar no paraíso, para tal fim o enriqueceu com luzes e graças. Mas o homem ingrato rebelou-se contra Deus negando a obediência que lhe devia por justiça e por gratidão; e, assim, ficou o mísero com toda a sua descendência, qual rebelde, privado da graça divina e para sempre excluído do paraíso. (…) Todos viviam cegos entre as trevas na sombra da morte. Sobre eles dominava o demónio e o inferno continuamente os tornava uma carnificina inumerável. Mas Deus, olhando para os homens reduzidos a tal estado miserável, movido por piedade, resolve salvá-los. E como? Já não envia um Anjo, um Serafim, mas, para manifestar ao mundo o imenso amor que nutria por esses vermes ingratos (Rm 8, 3), enviou o seu próprio Filho para se fazer homem e se revestir da carne dos homens pecadores, para que Ele, com as suas penas e com a sua morte, satisfizesse a justiça divina pelos seus crimes e, assim, os libertasse da morte eterna; e, reconciliando-os com o seu divino Pai, obtivessem a divina graça e os tornasse dignos de entrar no reino eterno» (Natale. Meditazioni e poesie, Edizioni San Paolo, Cinisello Balsamo 1998, p. 15).

Tudo muito simples, como a Verdade, sem estranhas elucubrações, mas conceitos derivados de uma tradição nascida com Cristo e continuada pela Santa Igreja Romana, que teve de lutar para se manter íntegra e que desde há décadas, porém, perde, ano após ano, a identidade pela qual surgiu: conservar, defender e transmitir a Fé pelo que ela é.      

Santo Afonso, bispo e doutor da Igreja, tão elevado nos seus ensinamentos teológicos e doutrinais, é muito simples no ensino, praticamente nunca precisa de intérpretes e a sua eficácia em entrar no coração dos problemas é tão tangível que nunca nos cansaríamos de ler as suas páginas impregnadas de realismo sobre a natureza corrupta do homem e sobre a vitória do Salvador para benefício de todos os que n’Ele creem. A partir do seu conhecimento de Jesus pelo que foi na terra e pelo que é nos Céus, o autor do século XVIII utiliza uma linguagem directa e balsâmica, forte e doce ao mesmo tempo, capaz de fazer vibrar as almas sedentas de virologistas e médicos da alma para aniquilar os pandémicos e mortais vírus espirituais, lesivos da vida eterna: «(…) desde Criança Vós quisestes começar a ser o meu Redentor e a satisfazer a divina justiça pelos meus pecados. Vós elegestes a palha como leito para me libertar do fogo do inferno onde já mereci ser atirado várias vezes. Vós chorastes e vagistes sobre a palha para implorardes para mim, com as Vossas lágrimas, o perdão do Vosso Pai. (...) Não quero, meu Jesus, deixar-Vos sozinho a chorar e a sofrer: quero chorar agora eu, que só mereço chorar pelos desgostos que Vos dei. Eu, que mereci o inferno, não recuso nenhuma pena desde que recupere a Vossa graça, ó meu Salvador» (ibid., p. 98).     

Meditações, notas e rimas compostas por Santo Afonso em honra do Menino Jesus, trazendo-nos o encanto da plenitude dos tempos, quando se Encarnou o Verbo. Nada de seu é antigo, velho e morto se tornará o que, hoje, se diz na Igreja contra a Igreja de Cristo.     

Cristina Siccardi          

Através de Corrispondenza Romana

1 comentário:

  1. Um artigo muito oportuno, mostrando a tragédia que assola a Santa Igreja, com clareza expõe a meditação e pensamento do grande Santo Afonso. Os meus cumprimentos a feliz escritora do artigo.

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