quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

O Ano de São José: uma grande oportunidade para a Igreja

O cenário no fim de 2020 mostra-se muito diferente daquele com que se concluiu 2019. Há um ano, o inexorável declínio do pontificado do Papa Francisco era confirmado pelo resultado do Sínodo para a Amazónia, que não conseguiu realizar nenhuma das expectativas dos progressistas, da abolição do celibato eclesiástico ao sacerdócio feminino. Ao nível da política internacional, a vitória de Donald Trump nas eleições do ano seguinte parecia segura, sem que qualquer fraude eleitoral pudesse ameaçá-la. A resistência contra as forças revolucionárias que dominam o mundo manifestava-se de muitos modos: desde os grandes eventos pró-vida às manifestações anticomunistas de Hong-Kong, até aos alinhamentos dos católicos de Acies Ordinata. Os grupos mais ligados à Tradição estavam ao ataque com uma substancial unidade de propósitos. Um ano depois, o cenário mudou. O aspecto mais preocupante do panorama que temos diante de nós não é a pandemia de COVID, nem o “great reset” de que tanto se fala, e nem mesmo a inesperada derrota do presidente Trump, mas a desunião que se está a manifestar entre os defensores da Igreja e da ordem natural cristã. Os pontos em que essa desunião se manifesta não são de ordem teórica, mas prática, e são uma consequência directa do Coronavírus. As animadas discussões sobre a existência de uma conspiração sanitária ou sobre a liceidade da vacinação afectam, na prática, a vida quotidiana e, por isso, suscitam sentimentos de emoção, de raiva, de depressão entre os católicos. Sentimo-nos obscuramente ameaçados e espalha-se uma atmosfera de surda rebelião contra tudo e contra todos.

O mundo, inquieto e agitado, atribui o que acontece aos governos ou às forças ocultas, sem voltar às causas últimas, que são os pecados dos homens. Os castigos divinos não são reconhecidos como tal e a Graça divina não entra onde há excitação e actividade febril. A Graça exige calma, reflexão, ordem, de que foi modelo a Sagrada Família. Para isso, nada melhor, nestes dias de Advento, do que elevar o nosso olhar para São José que, no frio e na escuridão de um difícil caminho, conduziu a Belém, com prudência e coragem, a Sagrada Família que lhe estava confiada. São Lucas diz que, naqueles dias, saiu um édito do Imperador Augusto, «ut describeretur universus orbis», ou seja, que se descrevesse todo o mundo por meio de um censo, pelo que «todos iam recensear-se, cada qual à sua própria cidade» (Lc 2, 3), e como José era «da casa e linhagem de David, deixando a cidade de Nazaré, na Galileia, subiu até à Judeia, à cidade de David, chamada Belém» (Lc 2, 4). O censo ordenado por Augusto baseava-se na soberba de um imperador que queria aspirar ao domínio do mundo. Muitos hebreus acalentavam as ilusões de uma rebelião estéril e ineficaz. Esses, como recorda o Padre Faber, olhavam para todas as direcções em vez de se orientarem para a Gruta de Belém; e quando o Messias nasceu, tornou-se uma pedra de escândalo para eles (Betlemme, trad. it. SEI, Torino 1949, p. 143).

A Bem-Aventurada Virgem Maria e São José não se rebelaram, mas, como observa o venerável Luis de la Puente, professaram-se vassalos de Augusto e quiseram pagar-lhe o tributo precisamente para confundir, com este exemplo, a soberba e a ganância do mundo (Meditazioni, trad. it. de Giacinto Marietti, Torino 1835, vol. II, p. 145). Na verdade, Deus quer que obedeçamos àqueles que nos governam, mesmo que nos orientem com má intenção, desde que o que nos é pedido não seja em si ilícito e contrário à Lei divina. A palavra autoridade, nas várias línguas, deriva do latim augere, acrescer. São José, definido filius accrescens (Gn 49, 22), aquele que acresce, encarna o princípio de autoridade, entendida, antes de tudo, como um serviço para o crescimento do nosso próximo. Ele era o Pai putativo do Homem-Deus e o castíssimo esposo da Mãe de Deus, mas exercia a autoridade sobre Jesus e Maria e Eles obedeciam-lhe. No entanto, ninguém como ele foi obediente aos decretos divinos, partindo a caminho de Belém. A 8 de Dezembro de 1870, o Beato Pio IX, com o Decreto Quemadmodum Deus, declarou São José como Padroeiro da Igreja Católica. Este decreto deu forma canónica à verdade segundo a qual São José protege a Igreja como, durante a vida, protegeu, com a sua autoridade, a Sagrada Família. Para celebrar o 150.º aniversário do decreto de Pio IX, o Papa Francisco anunciou um Ano de São José de 8 de Dezembro de 2020 a 8 de Dezembro de 2021. Nesta ocasião, a Penitenciaria Apostólica, que é o supremo tribunal da Igreja, concedeu aos fiéis o extraordinário dom de especiais indulgências. De facto, com um decreto do Cardeal Mauro Piacenza, Penitenciário-Mor da Igreja, emitido de acordo com a vontade do Papa Francisco, «a Penitenciaria Apostólica concede a indulgência plenária nas condições habituais (confissão sacramental, comunhão eucarística e oração segundo as intenções do Santo Padre) aos fiéis que, com o espírito desapegado de qualquer pecado, participarem no Ano de São José com as modalidades indicadas por esta Congregação».

As modalidades para obter a indulgência são numerosas. Entre estas, a recitação do Santo Rosário em família, a recitação da Ladainha a São José ou qualquer oração legitimamente aprovada em honra de São José, como a oração “A Vós, São José”, especialmente nos dias 19 de Março e 1 de Maio e na Festa da Sagrada Família, no dia 19 de cada mês e todas as quartas-feiras, dia dedicado à memória do Santo. Poucos perceberam a relevância deste decreto da Sagrada Penitenciaria. Com efeito, sabemos que a indulgência é a remissão, diante de Deus, da pena temporal pelos pecados, já remidos quanto à falta, que o fiel adquire por intervenção da Igreja, que tem o poder de dispensar o tesouro das satisfações de Cristo e dos santos. A Igreja não é uma realidade invisível, mas uma sociedade juridicamente perfeita, dotada de todos os meios para operar em vista do cumprimento da sua missão. Pode-se também criticar severamente o Papa Francisco, mas, enquanto for considerado o legítimo Vigário de Cristo, os actos jurídicos que põe em prática são válidos, a menos que se ponham em contradição com a Tradição da Igreja. Não é este o caso das indulgências que, enquanto Papa, tem todo o direito de conceder, em virtude do poder das chaves concedidas a Pedro e aos seus sucessores: «Dar-te-ei as chaves do Reino do Céu; tudo o que ligares na terra ficará ligado no Céu e tudo o que desligares na terra será desligado no Céu» (Mt 16, 19).

Quem nega a validade dessas indulgências aceita, pelo menos de facto, a tese de que o Papa Francisco é um Papa falso ou ilegítimo, chefe de uma “igreja” diferente da Católica. Quem, enquanto o considera Papa, ignora ou minimiza o alcance do seu acto jurídico, assume a responsabilidade pelo fracasso do aumento em graça e em glória de muitas almas e pelo fracasso em libertar outras almas do purgatório. Cada fiel, com efeito, pode lucrar indulgências para si, tanto parciais como plenárias, ou aplicá-las aos defuntos enquanto sufrágio. Não é fácil lucrar a indulgência plenária, porque é necessária uma disposição de espírito que exclua qualquer afeição até mesmo ao pecado venial. Todavia, cada indulgência, mesmo parcial, é um grande dom da Igreja, precisamente porque anula, no todo ou em parte, as penas devidas às culpas na terra ou no purgatório. Não podemos julgar as intenções do Papa Francisco, mas devemos tomar nota do facto de que, com o seu decreto, ofereceu uma preciosa ajuda a esses fiéis católicos que precisam de um auxílio especial da Graça na época de convulsão em que vivemos. Depois da Bem-Aventurada Virgem Maria, nenhuma criatura humana teve a fé de São José e ninguém foi mais lógico e reflectido do que ele. No Ano que lhe é dedicado, peçamos a São José que nos conceda o sentido de fé e o uso da razão necessários para nos orientarmos, sem nos perdermos, para a divina Gruta de Belém.  

Roberto de Mattei      

Através de Corrispondenza Romana

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