«A Beleza nunca é um fim em si mesma» – Entrevista a Margherita del Castillo

Destacando-se pelos excelentes artigos que, semanalmente, escreve subordinados a temáticas de História da Arte, e que sempre disponibilizamos, Margherita del Castillo tem a louvável capacidade de unir a arte ao divino. Assim, é com muito gosto que o portal católico Dies Iræ disponibiliza, em exclusivo, uma entrevista que realizou à historiadora de arte italiana.     

1. Muito obrigado por nos conceder esta entrevista. Desde sempre, a Igreja Católica deu grande importância ao Belo enquanto factor imprescindível para, sobretudo no contexto litúrgico, dar maior honra e glória a Deus. Considera que, actualmente, esta mensagem é transmitida?         

Obrigada a vós pelo interesse que demonstrais pelo que escrevo e por quererdes recolher este meu testemunho. Nestes anos de colaboração com a La Nuova Bussola Quotidiana, compreendi ainda mais que a Beleza, que justamente citaram com a inicial maiúscula, não é apenas um extraordinário instrumento para dar glória a Deus. Estou cada vez mais convencida de que seja uma necessidade primordial do Homem, algo que cada um de nós, no fundo, anseia. E quando a encontramos, reconhecemo-la. Trata-se, para além disso, de se deixar interrogar sobre o que significa, para a própria vida, o que se está a admirar, se ainda tem, hoje, algo a dizer à nossa humanidade, porque a Beleza nunca é um fim em si mesma, mas carrega consigo uma mensagem específica e profunda que tem a ver com o infinito. Penso, pois, que se esta mensagem chega ou não ao coração de todos depende, exclusivamente, do nosso olhar...       

2. Como é que nasceu esta sua atracção e amor pela arte autêntica de que a Itália é um dos grandes celeiros do mundo?           

Na verdade, tive e tenho sorte: a Itália é, realmente, um reservatório inesgotável de Beleza. Onde quer que se vá, desde a pequena e tranquila vila nas montanhas até às caóticas grandes cidades, encontra-se sempre um tesouro sobre o qual se deter. Mas estamos tão acostumados a viver num contexto tão superabundante do ponto de vista artístico que, às vezes, o risco é considerá-lo garantido. Porém, para mim, o que mais me fascinou desde criança foram os espaços ou a sacralidade dos ambientes em que se celebrava a fé. Lembro-me perfeitamente de quando a minha avó me levava a “saudar Jesus” – como ela me dizia –, dentro das igrejas, durante as nossas caminhadas milanesas. Recordo os nossos passos que percorriam naves silenciosas, aparentemente desligadas e distantes do mundo exterior. Milão sempre foi uma cidade frenética: aqui, porém, respirava um ar de paz, uma alegre harmonia que, sem dúvida, concorriam para o brilho das preciosas alfaias, as cores das janelas, as histórias e os personagens esculpidos na pedra dos capitéis... Um outro mundo neste mundo.  

3. A Dr.ª Margherita del Castillo estudou na Universidade do Sagrado Coração de Milão. Foi aqui, ou no seu seio familiar, que aprendeu a discernir e a fazer a correlação do sagrado na arte?   

Nasci e cresci numa família não particularmente devota – avó materna excluída. E, ao domingo de manhã, quando era pequena, tinha de pedir a alguém que me acompanhasse à Missa (os caminhos do Senhor são verdadeiramente infinitos!). Os meus pais, porém, sempre me deixaram livre para escolher. E serei sempre grata por isso. O encontro com a arte aconteceu no último ano do meu liceu clássico: naquela época, eu era uma menina muito desportiva que também gostava muito de estudar. Estava decidida a tornar-me professora de Educação Física e, depois da formatura, seguiria um curso específico para atingir tal objectivo. Um dia, a nossa professora de História da Arte, que já nos tinha desafiado ao propor-nos a leitura de textos científicos, para além do manual escolar, sugeriu-nos uma visita à Galeria de Brera. Numa das primeiras salas fui como que magnetizada pela força expressiva dos protagonistas da Pietà, de Giovanni Bellini, tão pungentes, tão verdadeiros, cheios de humanidade mas, ao mesmo tempo, ou talvez precisamente por isso, tão sagrados. Naquele dia, decidi que, no ano seguinte, me matricularia no curso de Letras Modernas, especializando-me em História da Arte. Na Universidade, conheci professores que nunca defraudaram as minhas expectativas. E aprendi muito.  

4. Em Outubro de 1996, fundou, em Milão, a cooperativa OPERA d’ARTE. Em que consiste este projecto e de que modo é que, no seu trabalho, se consegue aproximar mais do Criador?        

OPERA d’ARTE é a minha segunda casa, a minha segunda família. É uma cooperativa cujo objectivo, declarado no estatuto, é a valorização do Bem Cultural, não um fim em si mesmo, mas, como dizia no início, qual instrumento para cumprir o desejo de Beleza inerente ao coração de cada Homem, independentemente de se este último está ciente disso ou não. Os métodos são os mais diversos e adaptam-se à demanda de cada um dos nossos interlocutores. Fazemos, por exemplo, um grande trabalho educativo, oferecendo, às escolas de todos os níveis de ensino, oficinas e visitas guiadas: porque até o gosto pelo Belo é fruto de uma educação. Mesmo com os mais crescidos, com os adultos. O aspecto surpreendente do meu trabalho é que, mesmo quando acompanho turmas ou grupos de pessoas pela enésima vez para verem o mesmo monumento, nunca é, para mim, um gesto repetitivo: porque aquele monumento obriga-me sempre a questionar-me sobre as razões do que estou a comunicar. E isto, numa profissão que poderia ter simplesmente um valor “turístico”, faz a diferença.           

5. São Tomás de Aquino diz que Deus pôs uma misteriosa relação entre cores, formas e sons. Quem lê os seus magníficos artigos, em La Nuova Bussola Quotidiana, por nós disponibilizados em português, sobre arte percebe essa relação. A Dr.ª Margherita del Castillo poderia explicar-nos onde se inspira para interpretar as obras de arte sacras sob uma óptica profundamente católica?         

Tive, como disse, bons professores. Não só na Universidade, onde, em todo o caso, aprendi, sobretudo, um método. Até no trabalho: as minhas actuais sócias acolheram-me quando eu era uma jovem recém-formada e, com elas, aprendi a “ler” a obra de arte, a olhá-la em profundidade, não parando na superfície ou no puro prazer estético. Até porque, banalmente, por trás de uma pintura, uma escultura, um monumento, um edifício, entrelaçam-se as histórias de homens e mulheres, de artistas e comitentes que viveram em determinados contextos históricos imprescindíveis para o resultado da obra realizada. O Catolicismo, pela sua natureza, oferece uma visão universal que deve levar em consideração todos os factores. Contar tudo isto, nos artigos que escrevo semanalmente, é uma tarefa fascinante. Acrescento que a tentativa de viver a fé na quotidianidade que uma mãe de família, como eu, tem de enfrentar todos os dias é um ingrediente essencial que alimenta esta sede de verdade.   

6. Um pouco por todo o mundo, sobretudo depois da reforma litúrgica implementada pelo Concílio Vaticano II, assistimos a uma cada vez mais massificada difusão de objectos estranhos que são cunhados com o nome de arte. Veja-se, por exemplo, o horrendo “presépio” colocado, há poucos dias, em plena Praça de São Pedro, no Vaticano. É possível, a seu ver, associar uma profunda crise de fé a uma crescente crise da arte religiosa?       

Sim, infelizmente penso que sim. É inútil negar a profunda crise de fé que está em acto no mundo contemporâneo. Não seríamos realistas. E isto, creio, reflecte-se, inevitavelmente, na expressão artística religiosa dos nossos tempos. Tenho em mente tantas igrejas contemporâneas pelas quais, pessoalmente, sou negativamente afectada, pela sua frieza e anomia. Dito isto, sempre que faço uma observação deste tipo, como no exemplo que citaram sobre o criticado Presépio que está, actualmente, na Praça de São Pedro, obrigo-me a perguntar-me qual possa ser o aspecto positivo, algo que valha a pena valorizar daquele preciso artefacto escultórico ou daquela empresa arquitectónica. Procuro sempre encontrar uma força de onde partir para transformar o que vejo num testemunho – actualizado em linguagens que, talvez, me são distantes, mas misteriosamente acessíveis aos outros – de que Nosso Senhor Jesus Cristo é, no entanto, Imagem do Deus invisível e se fez carne por nós. Caso contrário, nem sequer estaríamos aqui a falar sobre isto.

7. A concluir, podemos pedir-lhe que enderece uma mensagem aos católicos portugueses, em particular àqueles que, através da arte, se aproximam mais do divino?       

A todos, mesmo aos iniciantes na arte, diria: deixem-se envolver pela Beleza, que se manifesta sob diferentes formas, a arte, a música, a literatura... Nutri-vos assim que tiverdes ocasião porque, vividas em profundidade, podem transformar-se em oração, em pedido a Deus para que se faça sentir o mais próximo possível de nós. E acrescentaria: vinde visitar-me a Itália!

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