Acordo Vaticano-China: carta de Arthur Tane ao Cardeal Parolin

Com a devida autorização, o portal Dies Iræ traduziu e publica, em exclusivo para Língua Portuguesa, uma carta que Arthur Tane, Director Executivo do Council on Middle East Relations, escreveu ao Secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Pietro Parolin, por ocasião da iminente renovação do Acordo secreto entre o Vaticano e o regime de Pequim. Como seria de esperar, Tane não recebeu qualquer resposta de Roma.

Eminência,

No caso de o Vaticano renovar o seu Acordo com o Partido Comunista Chinês, usando as palavras do Secretário de Estado americano, Mike Pompeo, a Santa Sé «questionaria a autoridade moral da Igreja». 

Com grande dor e constrangimento para os Cristãos de todo o mundo, o Acordo entre o Partido Comunista Chinês e o Vaticano coloca a Igreja, e especialmente o Papa Francisco, que é o seu principal responsável, do lado errado da história. Isto reforça a percepção generalizada de que este primeiro papa Jesuíta não seja apenas arrogante e ignorante, mas que também esteja espiritualmente falido. A sua vergonhosa recusa de se encontrar com o Cardeal Zen, de Hong Kong, vindo à Cidade Eterna para discutir a renovação do Acordo, revela um homem de pouca humildade.

Como saberá, um dos problemas de Zen consiste na nomeação de um novo Bispo para a sede vacante de Hong Kong. Zen teme que a Igreja na ex-colónia britânica – que recentemente perdeu a oportunidade de defender as liberdades que foram reconhecidas, sob o princípio de “uma nação, dois sistemas”, na transferência de 1977 – possa ser governada por um Bispo apoiado pela China, mas não pelos fiéis locais.      

O Acordo entre o Partido Comunista Chinês e o Vaticano nunca foi trazido à luz. A transparência não é uma questão importante nem para Pequim nem para este Papado. Em qualquer caso, tal questão coloca um poder considerável, nas mãos do estado chinês, sobre a nomeação dos Bispos.     

Tal poder nem sequer fazia parte do famoso Reichskonkordat, de Julho de 1933, entre o Vaticano e o recém-estabelecido governo nazi alemão.  

Até agora, este vergonhoso pacto, assinado pelo Cardeal Eugenio Pacelli (o futuro Pio XII), então Secretário de Estado de Pio XI, fora o último episódio em que a Igreja cometera um semelhante erro com um regime totalitário.          

Menos de quatro anos depois, em Março de 1937, Pio XI retrocedeu na encíclica (a forma mais solene de uma carta papal) Mit brennender sorge (Com ardente preocupação). Pio XI condenou as teorias raciais e as discriminações com base na raça ou na nacionalidade. Não mencionou explicitamente Hitler ou os nazis, mas a encíclica era dirigida apenas à Igreja na Alemanha.  

Desta vez, a Igreja ainda tem a oportunidade de sair enquanto há tempo. Se não o fizer, assumirá a responsabilidade histórica de tal opróbrio. Como disse Zen, se e quando, no futuro, «as pessoas se unirem para reorganizar a nova China, a Igreja Católica poderá não ser bem-vinda».          

As premissas eram negativas quando o Acordo foi definido em 22 de Setembro de 2018; muitas coisas pioraram desde então. Nós, australianos, estamos bem cientes das agressões da China no Mar da China Meridional e contra Taiwan, dos seus constantes ataques informáticos e das incursões do “soft power” nas universidades e na política, dos problemas dos “Mil Talentos” e do programa de manipulação “Belt and Road”.      

Francisco faz-se ouvir sobre as mudanças climáticas e para condenar o capitalismo económico, mas o seu silêncio sobre a violação dos direitos humanos pela China, incluindo a liberdade religiosa, é ensurdecedor. Existem mais de 380 campos de concentração, para a minoria dos Muçulmanos Uighur, no Extremo Oriente da China, apesar das alegações chinesas de que os campos de “reeducação” estavam em via de encerramento. Testemunhas confirmam que os abortos e as esterilizações forçadas se estão a difundir. Os defensores vaticanos do Acordo secreto afirmam que é o resultado de um trabalho preparatório dos precedentes papas, São João Paulo II e Bento XVI. Ambos queriam um progresso com a China; mas nenhum deles estava disposto a assumir os compromissos que este Acordo comporta.   

Hoje, na China, as autoridades Comunistas estão a submeter os Muçulmanos a uma vigilância sem precedentes, a demolir ou destruir, com escavadoras, as igrejas cristãs, a obrigar os monges a aceitar o Marxismo-Leninismo, a proibir as crianças de ouvir ou ler a Palavra de Deus, e a reescrever o Evangelho dizendo que Jesus apedrejou, até à morte, homens e mulheres.    

Sob a “aculturação chinesa da religião”, imposta por Xi Jinping, os símbolos e as imagens são destruídas ou substituídas. Mao no lugar da Virgem Maria; Xi no lugar de Jesus.

Esta é uma abominação total e a obra de mentes possuídas pelo Satanismo.

Se o Acordo entre o Partido Comunista Chinês e o Vaticano for renovado pelo Papa Francisco, essa infâmia manchará as paredes da Igreja com o sangue dos inocentes.   

Se a Igreja não compreender o significado da sua missão, tornar-se-á um templo de cambistas. Porque Jesus disse: A minha casa há-de chamar-se casa de oração, mas vós fazeis dela um covil de ladrões (Mt 21, 12-13).

Atenciosamente,

Arthur Tan          
Director Executivo     

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