A cúpula do Génesis é a fé do Salmo 24

«Ao Senhor pertence a terra e o que nela existe,  
o mundo inteiro e os que nele habitam;      
pois Ele a fundou sobre os mares      
e a consolidou sobre os abismos
» (Sl 24, 1-2).       

O Salmo 24 inicia com um grande acto de fé, que a tradição atribui ao Rei David: a mesma fé que, nas primeiras décadas do século XIII, orientou os operários laboriosos em São Marcos, em Veneza, na definição e no desenvolvimento do programa em mosaico da primeira das seis cúpulas do nártex veneziano, a do Génesis. O relato, composto por azulejos brilhantes e coloridos, é como uma paráfrase, por imagens, do incipit do Credo, que afirma, com certeza, a natureza de Deus Pai, criador do céu e da terra. A História da Salvação, em Veneza, começa, exactamente, aqui.          

Em torno de um medalhão central pontilhado de estrelas, três faixas concêntricas, que se referem à Trindade, são, por sua vez, divididas em compartimentos, cada um dos quais fixa um momento da eternidade. O Espírito de Deus, em forma de pomba, paira sobre os pródromos da matéria para lhe dar, finalmente, forma; o Filho – ou seja, a Sua sabedoria –, um homem jovem e sem barba, reconhecível pelo halo cruzado, move-se na esteira de tantos anjos quantos os dias que se passaram desde a iniciativa divina da criação, apresentando-se as criaturas celestes como uma metáfora do tempo.        

Do Senhor é, portanto, o mundo: a separação da luz das trevas, representadas, respectivamente, por esferas irradiadas – uma vermelha de fogo e outra de um azul profundo – é o primeiro gesto de Cristo, o Logos, que, nos painéis seguintes, se atenta a imaginar o esplendor do firmamento, a traçar os limites entre a terra e as águas, a fazer crescer as plantas, a iluminar o universo com o sol e com a lua. Eis, então, o lugar que, enfim, pode ser povoado: pelos animais da terra e os do céu, em que se destaca o leão, sinal da realeza da futura linhagem de Judá, da qual Jesus descenderá, e o pavão, símbolo de Cristo.

Prossegue o Salmo: «Quem poderá subir à montanha do Senhor e apresentar-se no seu santuário?». Deus precisa do homem: na superfície da cúpula de São Marcos, o momento crucial da criação de Adão é resolvido com criativo realismo, sendo retratado o Progenitor como um homem de pele escura, uma vez que é gerado do barro. Um pouco mais adiante, Deus infunde nele a alma, que se apresenta, aqui, sob a forma de um pequeno ser alado capaz, porém, de torná-lo único entre todas as criaturas vivas. O primeiro homem, ao sétimo dia, é capaz de amar ou de odiar, de seguir ao invés de escolher uma outra direcção, de discutir ou dialogar.      

É livre, assim, também de trair, como nos documenta a representação da expulsão do Paraíso Terrestre: no esplendor desta cena, surpreende a presença de uma sarça ardente, sobre a qual brilha uma cruz, e de duas fénixes, que significam a vida eterna e o desejo dela. O pecado não é, por conseguinte, a última palavra sobre o homem: atesta-o a iconografia veneziana, que prossegue, na abóbada das outras cúpulas, com a promessa feita a Abraão e à sua descendência, motivando a aclamação ao Rei da glória com que se conclui o salmo bíblico.    

Margherita del Castillo       

Através de La Nuova Bussola Quotidiana

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