A coroação de Carlos Magno: Natal da Cristandade

Na solenidade do Natal de 800, com a coroação de Carlos Magno, em Roma, nasceu o Sacro Império Romano, ao qual estava reservada a missão de propagar o reino de Cristo nas regiões bárbaras do Norte e de manter a unidade europeia sob a direcção do Romano Pontífice. Corria o ano 800. Era o dia de Natal. Em Roma, na Basílica de São Pedro, entrou um homem majestoso, de quase sessenta anos, cuja estatura, quase de gigante, exprimia a força indomável do guerreiro, enquanto os seus cabelos brancos e a barba revelavam uma doçura extraordinária. Não era um homem comum, via-se imediatamente. Esse homem era Carlos Magno, rei dos Francos, o povo de Clóvis, chamado a Roma, pelo Papa, para que colocasse a sua espada, contra os Lombardos, ao serviço da Cruz.    

O rei dos Francos, no ano 800 depois de Cristo, já subjugou os aquitanos e os lombardos; atravessou os Pirenéus para domar, em Espanha, o poder ameaçador dos árabes; reprimiu a revolta dos saxões e dos bávaros; e está em plena batalha com os ávaros. Ele não é apenas um guerreiro. Sob a sua influência, as artes e as ciências florescem em toda a Europa. Muito amado pelos seus súbditos, venerado pelos seus guerreiros, estende a influência benéfica da Religião Católica às terras que conquista.   

E, agora, Carlos Magno, herdeiro de Clóvis, entra na Basílica de São Pedro, numa noite de Natal, fria devido aos rigores do Inverno, mas quente pela atmosfera de entusiasmo que reina na Basílica. O rei dos Francos ajoelha-se, abaixa a cabeça, adorando Deus feito homem e implorando misericórdia pelos seus pecados. Bate no peito e recorre à intercessão da Virgem Maria, sem se aperceber que alguém se aproxima dele em silêncio respeitoso. Não é um simples sacerdote ou bispo, é um Papa, um Papa santo. As crónicas contam que, «quando o rei se levantava da oração, durante a Missa, diante do altar da confissão de São Pedro Apóstolo, o Papa Leão III aproximou-se dele e colocou-lhe, sobre a testa descoberta, uma coroa. Uma coroa nova, não de Rei, mas de Imperador».       

O Papa, São Leão III, colocava a coroa imperial na cabeça de Carlos Magno; e a terra atónita tornava a ver um César, um Augusto, já não sucessor dos Césares e dos Augustos da Roma pagã, mas investido com aqueles títulos gloriosos pelo Vigário d’Aquele que é definido, nas Escrituras, o Rei dos reis, o Senhor dos senhores. O povo romano aclamou-o com estas palavras: “a Carlos Augusto, coroado, por Deus, grande e pacífico imperador dos Romanos, vida e vitória”, enquanto os Francos, batendo com as lanças nas espadas, gritavam “Natal, Natal”, um grito que, desde o tempo de Clóvis, recordava a entrada de seu povo na história.   

Dois dias antes da coroação, um monge de São Saba e um monge do Monte das Oliveiras, em Jerusalém, tinham oferecido ao rei dos Francos, da parte do Patriarca, «as chaves do Santo Sepulcro e do Calvário e as da cidade e do Monte Sião com uma bandeira». Era uma homenagem simbólica, uma nova auréola de santidade circundava a testa do rei que havia espalhado a sua protecção além dos mares, que deveria proteger os cristãos da Palestina, da Síria, do Egipto, da Tunísia.     

Naquele Natal, na Catedral do Vigário de Cristo, nasceu o Império Católico do Ocidente, pilar da Civilização Cristã medieval – como 800 anos antes, no mesmo dia, nascera, numa manjedoura, o Menino Jesus.  

Fundando a Igreja Católica, Apostólica, Romana, Jesus Cristo colocara nela, em semente, todas as potencialidades para gerar uma grande civilização. Com a expansão da Igreja, com a conversão dos povos ao longo de oito séculos, a semente desenvolveu-se, tornou-se uma possibilidade concreta, floresceu, finalmente, no ano 800, no império de Carlos Magno, abençoado e ratificado pelas mãos de um santo sucessor de Pedro. Começou numa época em que, como ensina Leão XIII na encíclica Immortale Dei, «o sacerdócio e o império estavam ligados entre si por uma feliz concórdia e pela troca amistosa de serviços» e, «organizada de tal modo, a sociedade civil deu frutos superiores a todas as expectativas».

Um outro Papa, João Paulo II, no 1200.º aniversário da coroação de Carlos Magno, recordou que «a grande figura histórica do imperador Carlos Magno evoca as raízes cristãs da Europa, trazendo, a quem a estuda, a uma época que, não obstante os limites humanos sempre presentes, foi caracterizada por um impressionante florescimento cultural em quase todos os campos da experiência. À procura da sua identidade, a Europa não pode prescindir de um enérgico esforço de recuperação do património cultural deixado por Carlos Magno e conservado ao longo de mais de um milénio».     

Carlos Magno foi grande não só pelas suas guerras vitoriosas de um extremo ao outro da Europa, mas, sobretudo, pela sua obra de restauração jurídica, cultural e artística inspirada nos princípios do Evangelho. Numa época de decadência e de desordem, ele pode ser considerado o fundador da Europa cristã. Com o primeiro imperador cristão, o Ocidente adquire, pela primeira vez, consciência de si e apresenta-se na cena da história consciente da sua unidade cristã e romana.   

A coroação de Carlos Magno é, além disso, um acto público e simbólico de importância universal, destinado a expressar, por mais de um milénio, o conceito da soberania cristã. A fonte da autoridade é o representante de Deus na terra, porque – na terra – não existe autoridade que não venha de Deus. Neste sentido, a coroação de Carlos Magno pode ser considerada como o Natal da Cristandade. 

Aquela que, um dia, foi a Cristandade, hoje agoniza, sob os ataques dos inimigos externos e internos, e nós esperamos, com ansiedade, um novo dia de Natal, um dia de nascimento e de ressurreição para as nossas almas e para toda a sociedade: o dia bendito, anunciado em Fátima, do triunfo da Igreja e da restauração da Civilização Cristã.   

Roberto de Mattei      

Através de Radio Roma Libera

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