terça-feira, 10 de novembro de 2020

Viva Biden, o católico: e assim a Igreja aceita o aborto

As eleições americanas deixaram claro que a Igreja agora aceita o aborto, considera normal que um político católico o inclua no seu programa e acredita que a posição a favor ou contra a vida já não é um critério para avaliar até mesmo os comportamentos políticos. A questão do aborto já não é uma questão para a Igreja Católica. Também disto devemos, hoje, tomar nota com mágoa, como fizemos, nos últimos dias, para o reconhecimento legal dos casais homossexuais. As últimas barreiras de defesa são arrancadas desde dentro.          

Naturalmente, não há nenhum documento oficial do Papa ou dos Bispos que diga que o aborto é moral e politicamente lícito. Deus nos livre... Mas, no caso das eleições americanas, foi oficializada a indiferença da Igreja pelo aborto, que se torna uma questão irrelevante que se pode fazer sem, por isso, merecer a condenação moral e política. O candidato Joe Biden afirmou, explicitamente, várias vezes que é a favor do direito ao aborto até ao nono mês e do direito das crianças à liberdade na decisão da sua identidade sexual. Durante as eleições teve, pois, a certeza de ser um candidato favorável a confirmar o direito de abortar e até querer ampliá-lo. Também foi um candidato favorável ao género não apenas como ideologia abstracta ou hipótese fantástica, mas como um conjunto de direitos reais que o Estado deve proteger. Para o candidato Biden, catolicidade e aborto não estão em conflito entre si. 

A tirar qualquer mal-entendido sobre o assunto também foi a escolha de Kamala Harris como candidata à vice-presidência, uma procuradora que havia dado incontestáveis provas
​​de querer neutralizar, por todos os meios, a cultura pró-vida nos Estados Unidos. Não apenas Biden, mas a equipa eleitoral completa tinha, por conseguinte, uma identidade irrefutável.    

Em 2008, quando Obama escolheu Biden como seu candidato à vice-presidência, o então Bispo de Denver, o franciscano Charles Joseph Chaput, disse que favorecer o aborto era uma grave culpa política e afirmou estar convencido de que a um político culpado disso, como Biden, não se devia dar a comunhão. E, na recente campanha eleitoral, o Cardeal Burke voltou ao assunto, apoiando a mesma tese de que um político a favor do aborto não deveria ser admitido à Eucaristia.    

Não obstante isso, durante toda a campanha eleitoral, assistimos ao apoio da Igreja Católica a Biden, não só da americana, mas também da vaticana. Até o famoso documentário “Francesco” estava impregnado de avaliações políticas em apoio a Biden. Mas o elemento mais desarmante foi a nota dos Bispos americanos de felicitações pela vitória (embora ainda não definitiva e decretada) do candidato democrata. O Arcebispo de Los Angeles, José H. Gomez, Presidente dos Bispos americanos, recorda, nesta nota, a fé católica de Biden, que o liga a Kennedy.     

Os Bispos, consequentemente, reconhecem a catolicidade de Biden, não notando qualquer contradição com as suas posições morais e políticas contrárias à vida, confirmando-o católico apesar da sua possível política sobre o aborto. Ao fazer isso, os Bispos americanos argumentam que é possível ser católico e financiar a Planned Parenthood, que comercializa fetos abortados (no famoso processo judicial durante o qual a promotora Kamala Harris tentou, de todas as maneiras, proteger a organização abortista mundial). Os Bispos não dizem, certamente, que o aborto é um bem, mas sinalizando, com orgulho, a catolicidade de um político que faz do aborto a flor na lapela do seu programa, testemunham a compatibilidade da fé católica com o aborto, por isso aceitam o aborto como uma coisa boa. Ou, pelo menos, como algo indiferente, que esteja ou não esteja num programa político nada diminui à catolicidade de quem abraça aquele programa.

A nota do Arcebispo Gomez contém apenas uma referência final muito genérica ao tema da vida, que deve estar sempre na vanguarda dos programas políticos. Diz-se feliz por Biden ser católico, mas não menciona o que tal significa na política. Congratula-se com a Vice-Presidente Kamala Harris, lembrando que é a primeira mulher a ocupar este cargo, como se isso, por si só, fosse um sinal de mérito, apesar das muitas provas que deu de combater contra a vida nascente. A nota apela ao bem comum, que, no entanto, é impossível de ser perseguido por um Presidente a favor do aborto, enquanto Gomez acredita que é possível. Finalmente, espera-se a unidade nacional, mas a unidade é possibilitada pelos bons fins que se procuram em conjunto: se um candidato propõe o mal no seu programa, um mal certo e irrevogável como o da matança, por lei, de indivíduos inocentes, não pode promover nenhuma verdadeira unidade.      

Esta breve nota dos bispos americanos, pela mão do seu Presidente, formaliza a aceitação do aborto que, agora, é a vida quotidiana na Igreja Católica. Quem viveu a época de João Paulo II, da Evangelium vitae e da luta contra a “cultura da morte” sentirá, certamente, um arrepio nos ossos.

Stefano Fontana

Através de La Nuova Bussola Quotidiana

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