sábado, 21 de novembro de 2020

Um novo genocídio cultural, no Alto Carabaque, contra os arménios?

Em 2015, o Estado Islâmico destruía – ou tentava destruir –, em Palmira, artefactos históricos centenários, e apenas o heroísmo, pago com a vida, do director do Museu de Palmira evitou que os bárbaros, financiados pelo Ocidente, causassem maiores danos. O Mundo inteiro podia assistir à propagação da barbárie em directo e, a 1 de Setembro, a UNESCO declarou que se tratava de crimes contra a civilização.          

Dez anos antes, algo semelhante tinha acontecido no Naquichevão, um território dentro dos limites do Azerbaijão que confina, principalmente, com a Arménia e o Irão. Mas ninguém tinha reivindicado a dúbia honra desta destruição cultural. O episódio passou quase despercebido.        

Foi, porém, o culminar de uma campanha azerbaijanesa para apagar os vestígios de um povo: a transformação do cemitério medieval da cidade de Julfa numa terra deserta. Os arménios viveram em Jugha – como era chamada a cidade – até ao final do século XIV, quando o xá Abas, o Grande, os forçou a transferir-se para o que se tornaria a nova capital da Pérsia Safávida. Em Julfa permaneceram os seus mortos, que homenageavam com enormes esculturas fúnebres, os khachkars. Passaram os séculos e o vento perene soprou implacável; também passou a União Soviética. Cerca de 22.000 khachkars permaneceram de pé; de acordo com outros cálculos, cerca de 10.000. Até 89 igrejas medievais arménias e 5.840 monumentos ainda estavam de pé quando a URSS desapareceu, de acordo com uma pesquisa do especialista local Argam Ayvazyan, que agora vive na Arménia.

Em 2005, a contagem, de acordo com testemunhas oculares especializadas, era, respectivamente, de 0, 0 e 0. Nada mais de khachkars, nem de igrejas, nem de mosteiros. Exactamente como em Palmira, mas sem ruídos ou reclamações.      

A 9 de Novembro, foi anunciado um acordo de paz entre a Arménia e o Azerbaijão para pôr termo ao conflito armado no Alto Carabaque, uma guerra desencadeada pelos azerbaijaneses com o apoio entusiástico dos turcos, os autores do primeiro genocídio do século XX, aquele contra os arménios, que os turcos ainda negam.   

A memória daquela destruição de 2005 ressurgiu depois de o primeiro-ministro arménio, Nikol Pashinyan, ter confirmado a assinatura do acordo com o Azerbaijão, que dá a Bacu grandes porções do território povoado por arménios que, neste momento, estão a emigrar.    

O anúncio foi uma surpresa para Hovhannisián, o abade de Dadivank e pároco de Kalbajar, cidade que será entregue às autoridades azerbaijanas. Hovhannisián restaurou, reconstruiu e manteve utensílios, objectos, khachkars e, até mesmo, os edifícios do mosteiro. Agora que deve regressar ao domínio de Bacu, o religioso teme o pior.     

Após o anúncio, Hovhannisián não fez nada além de recrutar veículos e voluntários para transportar o máximo de objectos possível para Erevan, a capital da Arménia. «Mas a coisa mais importante, que é o mosteiro, não pode ser transportada» Trata-se de um complexo de edifícios que remontam aos séculos IX-XIII e é um dos maiores complexos da Arménia medieval.    

Hovhannisián recorda que o mosteiro, antes de regressar aos arménios, tinha sido usado como estábulo pelos azerbaijaneses. O medo de Hovhannisián do que poderia acontecer à riqueza do complexo de Dadivank nasce do caso mais sensacional que já se verificou: o do cemitério de Julfa, no Naquichevão. Como a área tinha apenas cerca de 4.000 habitantes, escapou dos cenários de guerra, mas os seus tesouros foram constantemente destruídos a título da negação da história e da cultura.   

Marco Tosatti    

Através de Radio Roma Libera

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