Tradicionalismo liberal: é um risco real?

Por sugestão do Prof. Roberto de Mattei, nosso cordial e dedicado amigo, o portal Dies Iræ disponibiliza aos leitores de Língua Portuguesa um artigo que o historiador italiano escreveu no seguimento de um texto, da autoria do Prof. Corrado Gnerre, em que se unem os conceitos “tradicionalismo” e “liberal” para caracterizar aquilo que Roberto de Mattei considera ser «um novo fenómeno que se está a difundir na blogosfera».


Num artigo em I Tre Sentieri, o professor Corrado Gnerre cunhou o termo “tradicionalismo liberal” para descrever um novo fenómeno que se está a difundir na blogosfera. O oxímoro do professor Gnerre, que justapõe dois termos aparentemente contrários, não é infundado e merece uma reflexão.     

O liberalismo é, como se sabe, o erro que coloca a liberdade individual como bem supremo do Homem e que, ao aplicar os princípios filosóficos do naturalismo à ordem moral e civil, emancipa a ordem temporal da espiritual. O catolicismo liberal dos séculos XIX e XX procurou uma impossível conciliação entre os princípios do liberalismo e os da Igreja Católica. O tradicionalismo do século XX representa, por sua vez, a antítese do catolicismo liberal, ao qual opõe o ideal da Realeza social de Cristo.         

Diante da inesperada pandemia que caracterizou 2020, a reacção de alguns tradicionalistas foi negar a realidade do facto e, depois, forçados pela evidência, atribuir o coronavírus a uma obscura conspiração. Agora, a possibilidade de que o vírus tenha sido produzido em laboratório e dele tenha saído, deliberadamente ou não, existe, mas ainda não foi comprovada. Se assim fosse, tudo sugere que a responsabilidade pelo que aconteceu deva ser atribuída à China comunista, que está a conduzir uma guerra económica, informática, psicológica e, talvez, biológica contra o Ocidente. Os que avançam, com prudência, esta hipótese, associam a pandemia à propagação, no Mundo, dos erros e do comunismo, «uma luta friamente desejada e cuidadosamente preparada, pelo Homem, contra “tudo o que é divino”» (Pio XI, Divini Redemptoris), anunciada, por Nossa Senhora, em Fátima, em 1917, como castigo pelos pecados da humanidade.

O “tradicionalismo liberal” refere-se, em vez disso, a uma pluralidade de teorias da conspiração, algumas mais razoáveis, outras decididamente fantasiosas, cujo núcleo comum é a ideia de que a pandemia faz parte de um plano de limitação da liberdade, nascido no Ocidente e imposto por forças ocultas visando a escravidão da humanidade. O eixo dialéctico do raciocínio é a contraposição liberdade-totalitarismo, cara à ideologia liberal, que recusa, por princípio, qualquer limite à expansão da liberdade humana. A origem desta ideologia é a Declaração dos Direitos do Homem, de 1789, que atribui ao Homem a possibilidade de fazer tudo o que quer, mesmo em próprio dano, ignorando ou negando cada lei moral, com o único limite de não trazer danos à liberdade de terceiros.         

Na realidade, a liberdade não é ilimitada, mas deve estar sujeita às leis da ordem natural cristã. A essência do totalitarismo não está na ideia de limite ou mesmo no uso da força, mas naquele uso desordenado da força que se torna violência cega, porque desvinculada de referências morais. Em suma, a raiz do totalitarismo é a desordem, a confusão entre o bem e o mal, entre o que pode e o que não pode ser feito. A liberdade é relativa também porque precisa de limites para se canalizar, para se orientar para o seu objectivo e para o alcançar mais eficazmente. A ideia de que limitar a liberdade significa comprimi-la pressupõe uma falsa ideia de liberdade: uma liberdade absoluta para a qual cada limite, enquanto tal, constitui um elemento negativo. Mas se a liberdade não é absoluta, o limite deve ser entendido como o factor positivo que permite o seu desenvolvimento e a perfeição. Consequentemente, a doutrina social católica opõe a noção de um bem comum baseado na lei natural cristã ao individualismo liberal.   

Cai-se no tradicionalismo liberal cada vez que se protesta contra a limitação da liberdade sem se referir a uma ordem de valores que torna ilegítima a restrição. Se, por exemplo, um governo fecha as igrejas ou pretende intervir na vida privada das famílias, viola a ordem natural e a resistência é legítima e necessária, mas se esse governo impõe regras sanitárias, como o uso de máscaras ou o distanciamento social, cumpre a sua tarefa, que é a de antepor o bem comum dos cidadãos à sua liberdade individual, e quem protesta cai, sem se dar conta, no erro liberal. Das medidas sanitárias podem, certamente, derivar graves consequências negativas no campo económico e psicológico, mas a responsabilidade por estes danos deve ser atribuída, principalmente, à doença e não ao governo. Não é necessário confundir a causa com o efeito. E se a nossa visão do mundo não é liberal, mas autenticamente católica, a uma pandemia, como a uma guerra ou a um terramoto, deve ser atribuída como causa primária Deus, de quem depende tudo o que acontece, excepto o pecado. As calamidades colectivas são castigos pelos pecados dos povos, quer Deus, para infligir estes castigos, se sirva dos anjos como causas secundárias, como no caso dos terramotos, quer se sirva dos homens, como no caso das guerras e das revoluções. E um véu de mistério ainda envolve as causas secundárias do castigo em curso.

Naturalmente, os agentes revolucionários tentam manipular a pandemia para os seus próprios fins, e tal manipulação deve ser combatida, mas ignorar que estes acontecimentos, como qualquer desastre colectivo, são sempre um castigo divino, tem o sabor da blasfémia liberal. Também devemos ter cuidado para não afirmar com certeza o que não podemos provar. Pretender demonstrar que o bloqueio é imposto porque existe um projecto totalitário, e que existe um projecto totalitário porque é imposto o bloqueio, é como dizer que, em Itália, existe Roma porque Roma está em Itália. Em termos de lógica aristotélica e tomista, isto chama-se uma falácia argumentativa. E, assim, devemos concluir que o paradoxo do tradicionalismo liberal é apenas aparente, enquanto o risco do ofuscamento das inteligências é uma real consequência do castigo do coronavírus.        

Roberto de Mattei      

Através de Duc in altum

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9 Comentários

  1. Mattei ignora testemunhos científicos que contrariam a sua posição de aceitação submissa e servil do discurso dominante sobre a dita pandemia. Estranhamente chama pandemia a uma coisa que não o é. A sua tradução é COVID 19, Corona Virus Disease 19, a doença do virus corona que "apareceu" em 2019. Mattei acha-se muito respeitável e não alinha com aquilo que considera "complot". Mattei, o verdadeiro tradicionalista liberal, deveria ver outras coisas como RTV(Michael Matt), Taylor Marshall, e muitos outros e não andar, como parece ser, com um pé aqui e outro acolá...

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  2. Devo dividir o comentário em 2, porque o blog não me deixa postá-lo inteiro em 1 só.
    Tem que ser extremamente ingênuo e imprudente para achar que os bloqueios e as máscaras foram impostas pelos governos para proteger a saúde, e não para perseguir agendas. E sim, as consequências da medida devem ser atribuídas ao governo, se a medida tomada foi errada, como é o caso. Mas quando o óbvio é tão ululante, tamanha imprudência chega a ser pecaminosa, como é o caso em questão, pois até eles mesmos dizem o que estão fazendo. O autor faz um sofisma ao dizer que se pretende que "o bloqueio é imposto porque existe um projecto totalitário, e que existe um projecto totalitário porque é imposto o bloqueio". A primeira oração é verdadeira, ou seja "o bloqueio é imposto porque existe um projecto totalitário", já a segunda, ou seja que "existe um projecto totalitário porque é imposto o bloqueio", é falsa, além de mostrar gigantesca imprudência e ingenuidade achar que o projeto totalitário só começou com esses bloqueios.
    No mais, o artigo inteiro é um grande sofisma ao querer associar a resistência às medidas tomadas pelos governos ao liberalismo só porque as medidas restringem a liberdade. É uma lógica infantil. Até porque são justamente os governos liberais quem as impõem, e a ala que mais quer que elas sejam impostas são, justamente, os progressistas. Por causa desse sofisma devo refutar todos os parágrafos do post um a um.
    O professor não é médico e parece ter um conhecimento bastante raso sobre epidemiologia, geopolítica e história recente. Aparentemente não sabe que mudaram a definição de "pandemia" recentemente, e também não sabe que a quantidade mundial média de óbitos não alterou com a suposta "pandemia" do "vírus mortal". Também não sabe que o que na verdade alterou muito, são os números de óbitos por gripe e pneumonias, que praticamente desapareceram. Basta que se olhe os relatórios oficiais dos países diversos.
    O autor também quer ignorar a massiva evidência de que uma suposta pandemia era prevista por muitos dos conhecidos globalistas, e que são também conhecidos conspiradores (e só estultos o negam).
    O vírus novo não é castigo de Deus em medida maior que qualquer cepa de Influenza. As medidas tomadas supostamente para conter o vírus, isso sim, são definitivamente castigo de Deus.
    Nós sabemos por tradição teológica que o Anticristo terá o poder temporal totalitário no mundo por um tempo. Suponho que isso para esse professor seja "teoria de conspiração". Ora, então os maiores teólogos são "teóricos de conspiração". No mais, a própria Igreja já há mais de um século revelou os planos que a maçonaria tinha e que convergem nessa direção. Mas não preciso fundar nisso para mostrar a debilidade do artigo. Porque os próprios globalistas dizem o que querem fazer. Basta que vá ao site do Fórum Econômico Mundial, onde mostram que vão fazer o reset econômico, e visitar o sites como este https://www.worldgovernmentsummit.org/, no qual, sem surpresa nenhuma, esse sujeito Tedros (de passado que conhecemos) diretor da WHO, figura em palestras. Além disso, abundam fontes em que eles mostram que querem um governo único mundial, e vários líderes se referem a isso abertamente.

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  3. É completamente estúpido fingir que não há conspiração quando o próprio inimigo já o diz abertamente. Esse tipo de atitude é na verdade resultado do modo moderno e infantil de pensar, no qual as pessoas não são más e não conspiram. A mesmíssima mentalidade que foi abundante para o Concílio.
    Pois bem, a partir do 4º parágrafo começa o sofisma de querer associar a resistência à implantação do governo mundial com o catolicismo liberal, sem qualquer argumento que sustente esse absurdo. Já expliquei a infantilidade da coisa. Ele só se esquece é que o governo mundial é exatamente o que é será o mais oposto à realeza de Cristo, basta ver como pensam os que querem e tentam implantá-lo. Colorário: na verdade é mais liberal quem não quer resistir ao governo mundial, justamente por não querer fazer resistência ao próximo estágio da revolução, que é justamente isso.

    O autor acerta ao dizer que a raiz do totalitarismo é o "uso desordenado da força que se torna violência cega, porque desvinculada de referências morais". Mas sofisticamente não menciona que é justamente isso o que ocorre com as medidas de bloqueio tomadas pelos governos. Continua que "a raiz do totalitarismo é a desordem, a confusão entre o bem e o mal", e novamente não menciona que é justamente isso o que causa os bloqueios, bloqueios esses que causam mais confusão por sua vez. Acerta que "a doutrina social católica opõe a noção de um bem comum baseado na lei natural cristã ao individualismo liberal", mas não menciona que os bloqueios causam terrível dano ao bem comum acima de qualquer suposto benefício, o que até a própria WHO já admitiu, mas os negacionistas (sim, porque são eles os que negam a ciência e a verdade) fingem que não.

    O autor sofisticamente finge que a imposição de máscaras e o distanciamento social não interferem na vida privada da família, coisa que logo na frase anterior admitiu ser motivo de "resistência é legítima e necessária". Não vamos nem falar que as máscaras não foram comprovadas funcionar para reduzir a propagação de tal vírus, e geram problemas de saúde. E que mesmo se fosse comprovado, causam mais dano que ajudam, razão porque nunca foram usadas mesmo que doenças muito piores sempre existiram.

    Disso decorre que quem protesta protege o bem comum, ao contrário do que o autor acha. Aliás, ele sofre da cancerosa ideia liberal de que se deve oferecer junto com a sua própria face, a face dos que deveria proteger. Ou está fingindo que o uso de máscaras não é terrível para problemas com problemas respiratórios, claustrofóbicos, reduz a expectativa de vida (especialmente de portadores de doenças crônicas), causa grande impacto no desenvolvimento psicológico das crianças e muitos outros danos, além de especular-se até que aumente a chance de infecção por coronavírus, outros vírus e bactérias. Quanto ao isolamento, também nega as tremendas consequências que causa. É simplesmente falta de caridade da parte desses que querem defender essas medidas e oferecer a face do próximo para que apanhe. Como já disse antes, as consequências devem sim ser atribuídas a quem mandou tomar as medidas, pois a doença em si não foi sua causa, contra o que ele diz.

    De fato, o ofuscamento das inteligências é uma real consequência do castigo das medidas tomadas supostamente por causa do coronavírus, como se vê. Os negacionistas da conspiração por fim ignoram como todos os liberais e sua mídia são os que sustentam a posição que é a mesma que eles.

    Não resistir à conspiração é não resistir à revolução. O estado policial é o próximo estágio da revolução. Mas alguns falsos tradicionalistas vão contra todo o bom senso e pretendem ser contra a resistência. Perderam o bonde da história. Por não verem que a revolução está passando a um novo estágio, acham que os que resistem a ela só o fazem porque querem o estágio anterior, e os acusam falsamente de liberalismo.

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  4. Adendo: para a questão específica do coronavírus, deve-se entender as evidências científicas, pois aí é que se resolve quem está certo ou não. E não se precisa de muito para ver que a narrativa mainstream é mentirosa. Quem não vê é quem não quis pesquisar. Poderia mandar inúmeros materiais provando-o, mas a essa altura do campeonato a coisa está tão óbvia que me parece inútil fazê-lo: é que quem não quer ver é porque cegou-se propositadamente, e acredita com fé dogmática na narrativa mainstream. Aliás, não veem eles que não têm nenhum argumento sólido a favor do que se está fazendo, e que tudo isso só é mantido pelo apoio da mídia? Até os não católicos já o perceberam há muito, o que mostra que essas pessoas que compram a narrativa da mídia perderam o senso comum em grau maior até mesmo que infieis.

    PS: quando a FSSPX e a Resistência assumirem já a posição contra os bloqueios, o que restará a esses leigos fazerem? Pois vários padres já se manifestaram, inclusive SER Dom Williamson, vide seus comentários eleison. Dirão também que são "conservadores liberais"? Acho é que esses negacionistas da conspiração deveriam é tirar a trave dos próprios olhos.

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  5. Esqueci-me de um último PS. Perdoe-me a quantidade de comentários, mas é necessário perguntar:

    Esses que compram a narrativa da mídia, o que dizem sobre todos os médicos e cientistas que são contra ela? Que mentem? Julgamento temerário terrível, talvez até pecado mortal. E basta que se tenha o mínimo do mínimo de senso comum para ver que é impossível que todas essas pessoas estejam mentindo, e que é a mídia e os que apoiam a narrativa dela os verdadeiros mentirosos.

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    1. "Esses que compram a narrativa da mídia, o que dizem sobre todos os médicos e cientistas que são contra ela? Que mentem?"

      R: E o que você diz sobre os médicos e cientistas que tem opinião contrária à sua? Que mentem?
      Quando é contrário ao que vc acredita é julgamento temerário e talvez até pecado mortal, mas quando é a favor não tem nada demais?

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    2. Teu comentário é um sofisma. Ele dá a entender que ponho como pecaminosa a ideia contrária à minha pelo fato de ser contrária à minha, o que é falso. Além disso me acusa falsamente que disse que os médicos com opinião contrária à minha mentiram.

      Mas mesmo se o fizesse, não estaria em erro. Pois teu comentário ignora a diferença fundamental que há entre defender uma posição que é fundada em evidência massiva e outra que se reduz a propaganda e sentimentalismo. Defender uma posição contrária a toda evidência sensível e lógica, é ato baseado em má intenção, ou perversão mental em algum nível. Não é nada diferente dos filósofos modernos que querem negar o óbvio.

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  6. Anjos causam terramotos? Loucura total.

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