terça-feira, 3 de novembro de 2020

Tomasi é o novo Delegado para a Ordem de Malta: reforça-se a ala alemã

Primeiro a nomeação cardinalícia, depois aquela como Delegado Especial junto da Ordem Soberana e Militar de Malta. Para Monsenhor Silvano Maria Tomasi, Núncio Apostólico, que completou recentemente oitenta anos e que foi observador permanente da Santa Sé nas Nações Unidas, foi uma semana de sorte. Ontem [dia 1 de Novembro, n.d.r.], chegou a Carta Pontifícia com a qual o Papa Francisco lhe confiou o mandato de seu Delegado junto da OSMM. Resolvida, portanto, a dúvida sobre o único cargo não mencionado no comunicado oficial emitido, pela Santa Sé, no passado dia 24 de Setembro, para dar conhecimento da renúncia de Becciu à direcção da Congregação para as Causas dos Santos e aos direitos ligados ao cardinalato.      

De facto, na carta a Mons. Tomasi, o Papa Francisco escreveu que «aceitou a renúncia de Sua Eminência Reverendíssima o Cardeal Angelo Becciu». O pontífice conferiu ao diplomata, nascido em Casoni di Mussolente, «todos os poderes necessários para decidir as eventuais questões que possam surgir para a implementação do mandato» e «para receber o juramento do próximo Grão-Mestre», indicando-o como seu «exclusivo porta-voz de tudo o que diz respeito às relações entre esta Sé Apostólica e a Ordem».    

A Ordem vive um dos momentos mais difíceis da sua história quase milenar; sem Grão-Mestre após a morte de Fra’ Giacomo Dalla Torre, a lutar, com os adiamentos e as discussões, para uma eleição a ser realizada em plena pandemia, no meio de uma reforma da Carta Constitucional e do Código que ainda está em andamento. O novo Delegado Especial conhece bem as questões da Ordem cavaleiresca, tendo sido coordenador do Grupo dos 5 que a Santa Sé criou, em Dezembro de 2016, para investigar a crise institucional que eclodiu depois da suspensão do Grão-Chanceler, von Boeselager, ordenada pelo então Grão-Mestre, Fra’ Matthew Festing.  

Os leitores recordar-se-ão de que o nobre e religioso britânico, a pedido do Santo Padre, se demitiu, precisamente, no final de uma disputa, sem precedentes, com a Santa Sé, que começou após a sua recusa em aceitar o estabelecimento de uma comissão de inquérito sobre o “torpedeamento” de von Boeselager. Festing considerava a suspensão do Grão-Chanceler um «acto de administração interno ao governo da Ordem Soberana de Malta» e, portanto, da exclusiva competência deste último, uma vez que o barão alemão pertencia ao segundo grau e não ao primeiro.  

Não obstante a oposição do então Grão-Mestre, com muitos pedidos aos funcionários da OSMM para não cooperarem, o Grupo coordenado por Tomasi começou e, depois, completou o seu trabalho de investigação, culminando num relatório final apresentado, no dia 23 de Janeiro de 2017, ao Papa Francisco. Um relatório que, a julgar pelos desenvolvimentos subsequentes, teve o efeito de reabilitar a imagem de von Boeselager, cuja suspensão estava ligada à acusação de ter permitido a distribuição de contraceptivos, em Mianmar e na África, no âmbito de projectos humanitários da Malteser International (o nobre alemão defendeu-se alegando que não teve «um papel operacional» no caso).        

No dia seguinte à entrega do relatório do Grupo dos 5, o Papa convocou Festing ao Vaticano e pediu a sua renúncia. O ex-Grão-Mestre, que também havia demonstrado não temer o rompimento com a Santa Sé para defender uma decisão que considerava da sua exclusiva competência, obedeceu ao pontífice, vinculado, como estava, pelo juramento de obediência enquanto cavaleiro professo. Um episódio que suscitou interesse e reacções contrastantes em todo o mundo e que levou o canonista Edward Condon a afirmar que, «nos termos do direito internacional, a Santa Sé acaba de anexar mais uma entidade soberana».          

O mandato de Delegado Especial remonta àquela época, quando o Papa Francisco nomeou o então Monsenhor Becciu, Substituto para os Assuntos Gerais da Secretaria de Estado, como seu porta-voz exclusivo junto da OSMM, da qual deveria ter sido o “barqueiro” pontifício naquela fase de incerteza. Uma fase, porém, que, quase quatro anos depois, ainda não se esgotou e que, de facto, tornou necessário o prolongamento de um cargo que nasceu, então, como temporário. O carácter de temporaneidade também se reflecte na Carta Pontifícia, assinada ontem, com essa indicação a Tomasi para exercer o cargo «até à conclusão do processo de actualização da Carta Constitucional e do Código Melitense», embora com o acréscimo – não marginal – para proceder, «em qualquer caso, até quando o considerar útil para a própria Ordem».           

Que nos Palácios Sagrados não era visto desfavoravelmente o trabalho realizado por Tomasi à frente da comissão de investigação contestada por Festing, já estava claro no comunicado, de Janeiro de 2017, da Sala de Imprensa vaticana – também publicado no “L’Osservatore Romano” – em que era expressa «confiança nos cinco membros do grupo formado, a 21 de Dezembro de 2016, pelo Papa Francisco», rejeitando «qualquer tentativa de desacreditar as figuras e a obra», em referência aos protestos de Festing e dos seus homens. A decisão de pedir a renúncia do ex-Grão-Mestre e as sucessivas de declarar nulos os seus actos a partir de 6 de Dezembro de 2016, tinha dado a ideia de um relatório final do Grupo dos 5 favorável à defesa de von Boeselager que, efectivamente, reabilitado na época, ainda hoje ocupa o cargo de Grão-Chanceler.          

A anunciada púrpura e a nomeação como Delegado Especial no lugar de Becciu, confirmam a confiança da Santa Sé em Tomasi e no seu trabalho no que diz respeito aos assuntos relacionados com a Ordem melitense. A escolha, que recaiu no ex-coordenador, por outro lado, poderia desagradar a ala da OSMM que mal tolerou a constituição e as conclusões do Grupo dos 5. Uma ala que, certamente, não se extinguiu com a demissão de Festing, mas que, com a nomeação de um Delegado Especial a que se opôs há quatro anos, aparece mais fraca no equilíbrio de poder com a chamada facção alemã. Uma curiosidade: o Cardeal Raymond Leo Burke, destituído, de facto, com a nomeação de Becciu após a renúncia de Festing, do qual fora “aliado” no caso von Boeselager, permanece, do ponto de vista formal, como Patrono da Ordem Soberana e Militar de Malta.       

Nico Spuntoni   

Através de La Nuova Bussola Quotidiana   

Sem comentários:

Publicar um comentário

«Tudo me é permitido, mas nem tudo é conveniente» (cf. 1Cor 6, 12).
Para esclarecimentos e comentários, queira contactar: info@diesirae.pt