sábado, 7 de novembro de 2020

Ordem de Malta: derradeiro apelo de um Cavaleiro italiano ao Papa

Beatíssimo Padre,

O meu nome é Giuseppe Scammacca e sirvo a Ordem de Malta desde 1976, quando tinha 19 anos. 

A última missão que recebi foi a inclusão na comissão para a reforma da Carta Constitucional e do Código, para a qual trabalhei, oficialmente, durante muitos meses e, ainda hoje, oficiosamente, para o interesse dos Cavaleiros de Justiça, com os quais estou em constante contacto.     

Por esse motivo, no último período encontrei-me, por várias vezes, com o Cardeal Becciu, na sua qualidade de Delegado de Vossa Santidade para a reforma da Ordem. Creio ter dado a Sua Eminência muitas informações sobre o real funcionamento das estruturas melitenses e as disfunções criadas na gestão dos estudos da comissão e, de um modo mais geral, na gestão administrativa da Ordem.         

Hoje, em particular, deve-se relevar que existem muitos procedimentos que não se conformam às normas melitenses e ao Direito Canónico, tanto no que diz respeito à eleição (na verdade, nomeação) dos próximos membros do Conselho Completo de Estado que deverá eleger o próximo Grão-Mestre ou o Lugar-Tenente do Grão-Mestre, quanto na realização de actos extraordinários, quando o actual Tenente Interino não tem esse poder.       

Com Sua Eminência Becciu, falámos, muitas vezes, sobre a legalidade e do envolvimento total dos religiosos nas decisões, pois eles são a essência espiritual e histórica da Ordem, e o Cardeal, que conhece muito bem as falhas da Ordem, sempre insistiu, precisamente, sobre estes dois pontos, também e sobretudo, nas comunicações enviadas ao Tenente Interino e ao Soberano Conselho.         

Santidade, rogo-lhe de todo o coração que queira interromper o processo de secularização que, actualmente, ocorre devido a um grupo de Cavaleiros em Obediência, cujo objectivo é a expulsão, de facto, da alma da própria Ordem, ou seja, a classe religiosa, os Cavaleiros de Justiça. Basta observar que, desde 2011, o número total dos religiosos diminuiu de 67 para 45; muitos religiosos com votos simples foram forçados, nos últimos anos, a abandonar o percurso religioso para regressar às classes leigas.          

Agora tudo acontece nos bastidores e cada decisão é tomada por um grupo muito restrito de Cavaleiros que, no entanto, já não representam a Ordem, mas a si próprios. Muitos deles vivem graças à Ordem, não tendo outros rendimentos senão os que derivam das elevadas prerrogativas que recebem. E isso na total falta de comunicação e transparência.

Para não correr o risco de ter “obstáculos” por parte dos Cavaleiros de primeira classe, o governo da Ordem, nos últimos anos, colocou em “gremio religionis” 14 religiosos de um total de 45. O último foi Francisco Vassallo, colocado em “gremio religionis” neste Verão: também aqui o Tenente Interino, tendo apenas capacidade jurídica de administração ordinária, não podia tomar esta decisão. Mas o resultado é um Cavaleiro teimoso a menos e mais um voto secular.        

Peço-lhe, Santidade, que intervenha com urgência, visto que se aproxima o dia 7 de Novembro e a eleição de um Grão-Mestre incapaz de se fazer obedecer e dominado pelo “tribunal”, aliás laico, seria um desastre para o futuro da Ordem, que ficaria em risco de se tornar uma ONG e não mais um ramo, ainda que minúsculo, da Santa Igreja Romana.  

A irregularidade de muitas, demasiadas, disposições arrisca, além disso, gerar acções judiciais também contra a próxima eleição do Grão-Mestre, desacreditando ainda mais a Ordem e criando um estado de confusão institucional nunca sofrido até hoje, com a única exceção do período sucessivo à ocupação de Malta, por Napoleão, em 1798.        

Ajude-nos Vossa Santidade a tornar a nossa Ordem adequada aos tempos actuais, mas sempre ligada aos seus valores cristãos, motivo da sua existência quase milenar, e a fazer-nos aplicar, nos factos e não apenas por palavras, o carisma “Tuitio Fidei et Obsequium Pauperum”.

Santo Padre, estando disponível para qualquer especificação posterior, peço humildemente a sua bênção,

Giuseppe Scammacca, Cavaleiro de Honra e Devoção

Através de Stilum Curiæ

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