terça-feira, 3 de novembro de 2020

«O sinédrio vaticano crê que pode derrubar a Igreja», denuncia Mons. Viganò

Numa recente intervenção para a Catholic Identity Conference, em Pittsburg, falei do eclipse que obscurece a Igreja de Cristo, sobrepondo-lhe uma anti-igreja de hereges, corruptos e fornicadores. O Católico sabe que a Igreja deve repercorrer as pegadas da sua Cabeça, Jesus Cristo, no caminho da Paixão e da Cruz, e que os últimos tempos serão marcados por uma grande apostasia que afectará o corpo eclesial até ao topo. Assim, como no Gólgota o sinédrio pensava que havia derrotado Nosso Senhor ao condená-lo à morte por Pilatos, hoje o sinédrio vaticano crê que pode derrubar a Igreja entregando-a nas mãos da tirania globalista anticristã.

Devemos, portanto, avaliar o que está a acontecer hoje com um olhar sobrenatural, à luz da batalha que a elite está a conduzir contra a civilização cristã. O ataque, inicialmente lançado de fora contra o monólito católico, evoluiu, a partir do Concílio Vaticano II, para uma acção de infiltração capilar, na sociedade civil com o deep state e na sociedade religiosa com a deep church. O inimigo conseguiu penetrar no Estado e na Igreja, ascender ao topo, construir uma rede de cumplicidades e conivências que mantém todos os seus membros vinculados pela chantagem, tendo-os escolhido, justamente, pela sua corruptibilidade. Não é por acaso que os funcionários honestos são sistematicamente obstaculizados, marginalizados, tornados alvo de ataques.

Nas últimas semanas, a imprensa noticiou mais um escândalo financeiro vaticano, após o qual Jorge Mario Bergoglio removeu Giovanni Angelo Becciu dos seus cargos oficiais e privou-o das prerrogativas cardinalícias. Quem pensa que esta remoção servirá para conter a corrupção da Cúria Romana ficará desconcertado ao saber que quem tomou o seu lugar como Substituto e que deveria sanar os desastres da má gestão e das intrigas de Becciu é igualmente, na verdade, ainda mais corruptível que o seu predecessor. Esta corruptibilidade é o requisito indispensável para poderem ser manobrados por aquele que, mesmo apresentando-se como reformador da Cúria e punidor de um não bem identificado clericalismo, de facto, se rodeou de personagens corruptos e imorais, promovendo-os e encobrindo as investigações que lhes dizem respeito.

Quando chegou a Roma, em 2018, chamado por Bergoglio, para ocupar o cargo de Substituto da Secretaria de Estado no lugar de Angelo Becciu, o Arcebispo venezuelano já era “falado”. Um relatório sobre ele indicava a sua conduta imoral: como Delegado para as Representações Pontifícias, recebi informações preocupantes sobre o Monsenhor e, prontamente, relatei-as ao Substituto Sandri. Falei sobre isso, publicamente, a 2 de Maio de 2019, na minha entrevista ao Washington Post, mas o jornal preferiu omitir as passagens sobre Peña Parra. Já que no Vaticano os dossiês comprometedores parecem destinados a não ser consultados, procuremos conhecer melhor qual é o currículo que levou este Monsenhor à Secretaria de Estado.

O jovem Edgar Peña Parra, nas vésperas da sua ordenação sacerdotal, já era assinalado como homossexual notório, a tal ponto que, em Fevereiro de 1985, o Arcebispo Roa Pérez referiu ao Reitor do Seminário, León Cárdenas, que tinha muitas dúvidas sobre o candidato, que acabava de receber relatos nesse sentido, bem como ter sabido que, já no terceiro ano de formação, havia sido expulso do Seminário de São Tomás de Aquino. Segundo o director espiritual, P. Leyre, a notícia dessa expulsão tinha sido escondida por outro sacerdote, P. Roberto Lückert León, que teria falsificado o relatório. Lückert León, entretanto, tornou-se Arcebispo, agora emérito, de Coro e poderoso Presidente da Comissão para as Comunicações Sociais da Conferência Episcopal Venezuelana. Os relatórios enviados ao superior de Peña Parra não o impediram de ser ordenado sacerdote, a 23 de Agosto de 1985, e, posteriormente, enviado à Pontifícia Academia Eclesiástica, onde se formam os futuros diplomatas da Santa Sé.

Em 1990, a 24 de Setembro, foi acusado de ter seduzido dois seminaristas menores da Paróquia de San Pablo, que deveriam ter ingressado no Seminário Maior de Maracaibo nesse mesmo ano. O facto aconteceu na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, onde era pároco o P. José Severeyn; foi denunciado à polícia pelos pais dos dois jovens e foi examinado pelo Reitor do Seminário Maior, P. Enrique Pérez, e pelo Director Espiritual, P. Emilio Melchor. O P. Enrique Pérez, ex-Reitor do Seminário Maior, confirmou o episódio por escrito.

Em Agosto de 1992, quando era aluno da Pontifícia Academia Eclesiástica, Edgar Peña Parra envolveu-se com o próprio José Severeyn na morte de duas pessoas, um médico e um certo Jairo Pérez, mortos por uma descarga eléctrica na ilha de San Carlos, no lago de Maracaibo. O dossiê acrescenta o detalhe de que os cadáveres foram encontrados nus, vítimas de práticas homossexuais macabras. Severeyn foi, então, removido da Paróquia pelo então Arcebispo, Monsenhor Roa Pérez, e foi nomeado Chanceler da Arquidiocese, encontrando-se em condições de destruir ou falsificar os documentos relativos a esses casos.

Em Janeiro de 2000, o jornalista de Maracaibo Gastón Guisandes López apresentou graves acusações contra alguns sacerdotes homossexuais da Diocese de Maracaibo, incluindo Peña Parra. Em 2001, Gastón Guisandes López pediu duas vezes para ser recebido pelo Núncio Apostólico na Venezuela, Monsenhor André Dupuy, mas o Núncio recusou-se a recebê-lo, mas no ano seguinte referiu à Secretaria de Estado estes episódios escandalosos em que estivera envolvido Edgar Peña Parra.

A relativa documentação encontra-se, portanto, nos arquivos da Nunciatura na Venezuela, onde, a partir daquela data, se sucederam, como Núncios, os Arcebispos Giacinto Berloco (2005-2009), Pietro Parolin (2009-2013) e o actual Núncio Aldo Giordano. Todos tiveram acesso aos documentos relativos a essas denúncias contra o futuro Substituto, assim como tomaram conhecimento os Secretários de Estado, os Cardeais Tarcisio Bertone e Pietro Parolin, e os Substitutos, Leonardo Sandri, Fernando Filoni e Giovanni Angelo Becciu[1].

Não obstante os dossiês enviados à Secretaria de Estado, de 2003 a 2007 Peña Parra prestou serviço na Nunciatura de Tegucigalpa na qualidade de conselheiro: daqui nasce a relação com o Cardeal Óscar Andrés Rodríguez Maradiaga e com Mons. Juan José Pineda, consagrado Bispo, em 2005, quando Peña Parra estava nas Honduras.

Maradiaga é conhecido nas notícias por escândalos financeiros, entre os quais se destaca o golpe contra Martha Alegria Reichmann, viúva do ex-Embaixador das Honduras junto da Santa Sé[2]. O Cardeal é um dos principais conselheiros de Bergoglio, figura-chave do Conselho de Cardeais a que foi confiada a reforma da Cúria e da Igreja, e desempenhou um papel decisivo em nomeações importantes, como a do Cardeal Blase Cupich (juntamente com McCarrick), em Chicago, e do novo Substituto da Secretaria de Estado, o Arcebispo Peña Parra. Recordo também que, em Abril de 2015, a fundação Open Society, de George Soros, pagou 650 mil dólares a duas organizações católicas progressistas, PICO e FPL, para «influenciarem bispos de modo a terem posições públicas de apoio a mensagens de justiça económica e racial a fim de começarem a criar uma massa crítica de bispos alinhados com o Papa». O Cardeal Maradiaga, nas relações com a PICO, não foi alheio a esta interferência do mencionado pretenso filantropo na política americana com a cumplicidade da parte pró-bergogliana do Episcopado.

As duas organizações destinatárias dos pagamentos foram escolhidas – explicam os documentos – porque estão envolvidas em projectos a longo prazo que visam mudar «as prioridades da Igreja Católica norte-americana». A grande oportunidade foi dada pela visita do Papa aos Estados Unidos e a fundação Soros apontou explicitamente a usar as boas relações da PICO com o Cardeal hondurenho Óscar Rodríguez Maradiaga, um dos principais conselheiros do Papa Francisco, para “engajar” o Papa nas questões de justiça social e também a possibilidade de enviar uma delegação ao Vaticano antes da visita de Setembro, de modo fazer o Papa ouvir directamente a voz dos católicos mais pobres da América.

Pineda, porém, é acusado de crimes financeiros, de assédio e abusos sexuais, além de cultivar uma rede de relacionamentos com homossexuais (incluindo prostitutos) nas Honduras e no exterior, aos quais também teria doado apartamentos, automóveis, motocicletas e viagens com os fundos da Diocese. Também foi acusado de defender e encobrir outros casos de abusos cometidos por clérigos. A 28 de Maio de 2017, um grupo de 48 seminaristas denunciou um modelo difundido e enraizado de prática homossexual, lamentando-se das agressões de Pineda. É inútil dizer que o Cardeal Maradiaga se recusou a levar em conta as acusações, apesar do suicídio de um seminarista de Santa Rosa de Copán depois de descobrir que o seu amante no Seminário tinha iniciado uma outra relação. Não basta: deve-se recordar que Maradiaga, em Dezembro de 2017, confiou a Pineda o governo da Arquidiocese, durante as suas contínuas e prolongadas ausências da diocese; e que a maior parte dos encontros sexuais do seu Auxiliar ocorreram na Villa Iris, a residência do Cardeal.

No mesmo ano de 2017, Pineda foi destituído do cargo de Bispo Auxiliar de Maradiaga sem dar qualquer justificação aos fiéis de Tegucicalpa. O Visitador Apostólico, Mons. Alcides Casaretto, entregou a Bergoglio um substancial relatório sobre ele, juntamente com as acusações de um grupo de Católicos escandalizados pelo silêncio da Santa Sé.

De 1993 a 1997, Peña Parra foi enviado, com incumbências diplomáticas, à Nunciatura no Quénia. Tornou-se Monsenhor em 1995 e, em 1999, foi enviado a Genebra como membro da Representação Pontifícia às Nações Unidas. Em 2002, foi nomeado membro da Nunciatura nas Honduras e, em 2006, foi enviado à Nunciatura no México. Em 2011, recebeu a Consagração episcopal e foi nomeado Núncio no Paquistão, depois, em 2015, em Moçambique. A 15 de Outubro de 2018, Bergoglio nomeou-o Substituto da Secretaria de Estado, por recomendação do Cardeal Maradiaga.

Emiliano Fittipaldi, no Domani, lembra que Peña Parra, segundo os documentos dos magistrados da Santa Sé, desempenhou, de 2018 a 2019, um papel fundamental em algumas decisões financeiras que fizeram com que os cofres vaticanos perdessem mais de cem milhões de euros. Os magistrados também falam de negociações secretas do Substituto venezuelano. Teria sido Peña Parra, um dos homens mais poderosos do Vaticano e escolhido pessoalmente por Bergoglio, a «abrir a porta do galinheiro às raposas famintas», para usar uma expressão de Fittipaldi.

Particularmente desconcertantes e graves parecem o comportamento e as responsabilidades do Secretário de Estado, Card. Parolin, que não se opôs não só à nomeação de Peña Parra como Substituto – isto é, como seu primeiro colaborador – mas antes ainda à de Arcebispo e Núncio Apostólico, em Janeiro de 2011, quando Parolin era Núncio em Caracas. Antes de tal importante nomeação, é instruído um rigoroso processo informativo para verificar a idoneidade do candidato. Mas ainda mais preocupante é que Bergoglio, para um papel tão importante na Igreja, escolheu um colaborador acusado de crimes tão graves.

As recentes declarações de Bergoglio sobre as uniões civis homossexuais; o número impressionante de Prelados homossexuais com os quais até se rodeia na sua residência em Santa Marta, a começar pelo secretário pessoal, Mons. Fabian Pedacchio, repentinamente demitido e desaparecido no nada; os escândalos que surgem todos os dias sobre o lobby homossexual vaticano: todos esses elementos sugerem que o argentino queira legitimar a ideologia LGBTQ não apenas para apoiar a agenda globalista e demolir os princípios imutáveis
​​da Moral católica, mas também para despenalizar os crimes e os abusos dos seus colaboradores, protegendo o círculo mágico que envolve Maradiaga, Pineda, Peña Parra, Zanchetta e toda a lavender mafia vaticana.

Pergunto-me se o próprio Bergoglio, cuja existência muitos ignoravam até ao dia 13 de Março de 2013, não está sob chantagem por parte daqueles que beneficiam tão impunemente da sua clemência. Isto explicaria o motivo que leva aquele que se senta no Trono a enfurecer-se com tanta crueldade contra a Igreja de Cristo, enquanto usa todos os respeitos com personagens notoriamente corruptos, pervertidos e quase sempre envolvido em crimes sexuais e financeiros. A alternativa – quanto à plausibilidade de que se estão a reunir, dia após dia, inquietantes elementos – é que a escolha de Bergoglio de se rodear de pessoas perversas e, portanto, chantagistas seja deliberada, e que o objectivo final que persegue consista no demolir a Igreja Católica, substituindo-a por uma espécie de ONG filantrópica e ecuménica subserviente à elite globalista. Diante desta traição de quem ocupa o Papado, uma obra de transparência e de clareza não pode excluir, para ser eficaz, aquele que, há mais de sete anos, proclama, com palavras, que quer limpar o Vaticano e a Igreja.

Carlo Maria Viganò



[1] Note-se que Sandri foi criado Cardeal em 2007, Filoni em 2012 e Becciu em 2018.

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