domingo, 15 de novembro de 2020

O Salvator Mundi, de Bernini, no mistério do Seu Rosto

«Mas, quando se manifestou a bondade de Deus, nosso Salvador, e o Seu amor para com os homens, Ele salvou-nos, não em virtude de obras de justiça que tivéssemos praticado, mas da Sua misericórdia» (Tt 3, 4-5).      

Ao aproximar-se do fim da sua vida, Gian Lorenzo Bernini (1598-1680), o aclamado “grande realizador do Barroco”, sentiu cada vez mais a necessidade de um confronto pessoal e sincero com o Mistério a que, no último período, procurou ir ao encontro não apenas intensificando as práticas devocionais e de caridade, mas também por meio dos instrumentos da sua profissão. Deu-lhe, finalmente, um rosto que é aquele belíssimo do Salvator Mundi, agora conservado num nicho da basílica romana de São Sebastião fora dos Muros, na antiga Via Appia. Foi a sua última obra-prima e o seu testamento espiritual.     

A esta conclusão, e à definitiva inserção da obra no catálogo do artista, chegou-se há relativamente pouco tempo. Na verdade, não havia mais notícias do maravilhoso busto, esculpido em mármore, desde o final do século XVII e, no fim do último milénio, os seus traços ainda eram seguidos naqueles que, mais tarde, seriam reconhecidos, quase unanimemente pelos estudiosos competentes, cópias. Até 2001, quando um olhar mais atento se concentrou na escultura romana, julgando-a demasiado bela para a mão do artista menor a quem, até então, fora atribuída.      

O filho Domenico, na biografia do pai, tinha escrito o seguinte: «Aos oitenta anos quis (...) encerrar o acto da sua, até àquela hora, bem conduzida Profissão, com o representar uma obra, que feliz é aquele Homem quem termina com ela os seus dias. Esta foi a imagem do nosso Salvador em meia figura, mas maior do que o natural, com a mão direita, um pouco levantada, como se estivesse a abençoar».

Estudos actualizados levantam a hipótese de que a criação do Salvator Mundi – não destinado à devoção pessoal do artista, como se acreditou durante muito tempo, e nem mesmo concebido como um presente para a Rainha Cristina da Suécia, querida amiga do escultor – estava intimamente relacionada à vontade, que permaneceu incompleta, de Inocêncio XI, de transformar o Palácio de Latrão num hospício para os romanos pobres. A Basílica lateranense e a sua tradicional ligação com o Salvador, teriam, portanto, guiado o artista na execução da escultura escolhida como emblema de um local dedicado à caridade.          

O que quer que tenha acontecido, a monumental efígie é bela porque é fruto de uma perfeita união entre a perfeição artística e a urgência da fé de um homem que, vivido no coração palpitante do mundanismo romano, sente, no fim, a necessidade de meditar na verdade última do seu destino: Cristo.  

Jesus, envolto num lapidado panejamento liso, que sugere o efeito da seda ou do cetim, tem uma fisionomia precisa: as maçãs-do-rosto ossudas, a fronte recuada e o nariz alongado são emoldurados por grossos e longos cabelos, enquanto a mão direita que abençoa, virada na direcção oposta em relação ao Seu olhar, descartando o tradicional hieratismo desta iconografia, confere ao simulacro um teatral dinamismo.         

E fala do poder do Seu gesto, salvífico «não em virtude de obras de justiça que tivéssemos praticado, mas da Sua misericórdia».        

Margherita del Castillo       

Através de La Nuova Bussola Quotidiana

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