terça-feira, 17 de novembro de 2020

O relatório McCarrick e a “homo-eresia na Igreja”

No passado dia 12 de Novembro, a Santa Sé dedicou um extenso e documentado relatório ao caso McCarrick, a história que terminou com a redução ao estado laical do cardeal americano culpado de actos de pedofilia. Entre os inúmeros comentários, um dos razoáveis ​​é o de Riccardo Cascioli, em La Nuova Bussola Quotidiana, de 13 de Novembro: «Enquanto se aguardam novos aprofundamentos específicos sobre a história do ex-cardeal arcebispo de Washington Theodore McCarrick, – escreve Cascioli – há duas questões que saltam à vista, ambas ligadas à homossexualidade: a primeira é a tolerância da prática homossexual, mesmo entre o clero; a segunda está na ocultação da existência de um lobby gay e de um sistema que favorece a “carreira” de eclesiásticos com tendência.    

Em relação ao primeiro ponto, embora emerja do relatório a figura de um McCarrick predador em série, a grande reacção é desencadeada apenas quando, em 2017, chega a primeira denúncia de abusos de um menor. E isso está bem sublinhado em vários pontos do relatório, mas também é o dado sobre o qual insiste o director da comunicação vaticana, Andrea Tornielli, no seu editorial de apresentação do relatório, publicado no portal Vatican News. Depois de anos de rumores, cartas anónimas e acusações “sem fundamento”, referentes a “comportamentos imorais com adultos” – explica Tornielli –, “tudo muda com o surgimento da primeira denúncia de abuso de um menor. A resposta é imediata. A disposição gravíssima e inédita da demissão do estado clerical surge na conclusão de um rápido processo canónico”.        

Na prática, dizem-nos que os “comportamentos imorais com adultos” não são, certamente, uma coisa boa, mas, no final, são tolerados; o alarme real, aquele que também prevê sanções pesadas, só é accionado com a menor idade do abusado. Como se as dezenas e dezenas de futuros padres que partilharam a cama com McCarrick e, portanto, em grande parte condenados a uma vida sacerdotal, no mínimo, desequilibrada, não contassem muito. Como se a devastação moral e de fé provocada por um bispo predador – vocações perdidas, sacerdotes que, por sua, vez repetirão os abusos, nomeações episcopais distorcidas por laços mórbidos – fossem um problema menor. Claro, os rumores persistentes desaconselhavam a promoção de McCarrick a sedes de prestígio, mas a armadilha só é accionada quando, entre os acusadores, aparece um menor. É uma abordagem gravíssima que ignora o facto de que o segundo crime – abusos sobre menores – é filho do primeiro.       

Quanto ao segundo aspecto, a reconstrução do caso McCarrick acredita a ideia de que se trata de uma página negra para a Igreja, sim, mas, em todo caso, um episódio que, graças a todas as medidas tomadas, sobretudo, pelo Papa Francisco, será mais difícil de voltar a acontecer. “Uma história triste com a qual toda a Igreja aprendeu”, diz Tornielli.        

É duvidoso, acima de tudo, porque se ignorou, deliberadamente, que o que permitiu a irresistível ascensão de McCarrick foi um sistema de poder também chamado de lobby gay, que favorece a nomeação e a carreira de bispos com determinadas características. Da leitura do relatório, publicado ontem, poder-se-ia pensar que o caso McCarrick seja o resultado de uma combinação infeliz de diferentes factores: a personalidade exuberante (para usar um eufemismo) do personagem, a falta de regras claras, a imprecisão das acusações, o erro, de boa-fé, de um Papa, a fraqueza do governo de um outro. Claro, estes também são elementos que tiveram o seu peso, mas o verdadeiro problema é que, sem a existência de uma rede de relações e de cumplicidades a diversos níveis, certas carreiras seriam quase impossíveis
».      

Subscrevo as observações de Cascioli e limito-me a reler o que escrevi, em Corrispondenza Romana, a 3 de Julho de 2013, quatro meses depois da eleição do Papa Francisco, após ter utilizado o termo ‘lobby gay’: «A atitude de certas autoridades eclesiásticas é estupefaciente. Quando tomam conhecimento da existência de uma situação imoral numa paróquia, num colégio, num seminário, não procedem para averiguar a verdade, afastar os culpados, eliminar a sujidade, mas manifestam aborrecimento, senão reprovação, para com os que denunciaram o mal e, no melhor dos casos, limitam-se a levar em consideração o que pode ser do interesse da justiça civil, por medo de serem envolvidos em questões jurídicas. Fazem silêncio sobre o que tem uma pura relevância moral e canónica. O slogan poderia ser “tolerância zero” para os pedófilos, “tolerância máxima” para os homossexuais. Estes últimos continuam, tranquilamente, a ocupar os seus cargos de párocos, bispos, reitores de colégios, formando a “homo-máfia” que o Papa Francisco define como “lobby gay”.   

A afirmação do Papa vai além da grave denúncia da “sujidade na Igreja”, feita pelo Cardeal Ratzinger, na Sexta-Feira Santa de 2005, na véspera da sua eleição para o Pontificado. Também nesse caso, o futuro Bento XVI quis, certamente, referir-se a esse flagelo moral que se espalha na Igreja sob a forma de pedofilia, efebofilia ou, mais simplesmente, de homossexualidade. Mas o alcance da declaração de Francisco é mais amplo e alcança o de Paulo VI quando, na sua homilia de 29 de Junho de 1972, afirmou que, “de alguma fenda”, tinha entrado “a fumaça de Satanás no templo de Deus”. O que está a acontecer é, justamente, a consequência daquela fumaça de Satanás que, hoje, envolve e sufoca a Igreja. Intervirá o Papa Francisco? É esta a pergunta aflita de todos aqueles que rezam e combatem por uma autêntica reforma doutrinal e moral do Corpo Místico de Cristo
».        

Fazíamos essa pergunta em Julho de 2013. Oito anos se passaram e, sob o pontificado do Papa Francisco, a situação piorou. O lobby gay, que ele parecia deplorar, foi por ele encorajado e as únicas intervenções da Santa Sé, como aquela contra o cardeal McCarrick, diziam respeito a casos de pedofilia, não de homossexualidade. Teria sido mais útil um relatório de 450 páginas não sobre o caso McCarrick, mas sobre o que um estudioso polaco deste fenómeno, o P. Dario Oko, define como a agora crescente ‘homo-eresia’ na Igreja.   

Roberto de Mattei      

Através de Radio Roma Libera

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