terça-feira, 10 de novembro de 2020

O nosso lugar no campo de batalha

Um célebre verso de William Shakespeare, na comédia As you Like (Como gostais), diz: «Todo o mundo é um palco e todos os homens e mulheres são apenas simples actores» (All the world’s a stage, and all the men and women merely players, in As you like, Acto II, Cena VII). Há sabedoria nesta frase, mas poderíamos dizer com mais precisão: «O mundo inteiro é um campo de batalha e todos os homens e mulheres estão imersos nesta guerra». Isto é sempre verdade, mas é verdade, especialmente, hoje. Como negá-lo?          

As eleições nos Estados Unidos apenas agora se concluíram. Mas ter-se-ão verdadeiramente concluído? O presidente em exercício, até ao dia 20 de Janeiro, é, oficialmente, Donald Trump, que não reconheceu a vitória do seu adversário, já coroado como novo presidente pelos media. O que acontecerá daqui até ao dia 20 de Janeiro? Além das batalhas jurídicas em curso, os Estados Unidos estão divididos entre dois campos políticos, que se tornaram duas visões do Mundo entre as quais parece muito difícil encontrar um meio-termo. O resultado eleitoral recompensou, provavelmente, Biden, mas Trump apareceu mais firme e Biden mais fraco do que todos esperavam. O sistema político dos Estados Unidos, considerado um modelo desde que Alexis de Tocqueville descrevia, em 1831, Da democracia na América, mostra, hoje, toda a sua fragilidade e o cenário de uma guerra civil, repetidamente evocado pelo historiador britânico Neil Ferguson, parece menos improvável de que quanto possa parecer.

Mas a perspectiva de uma guerra civil não poupa a Europa. De Nice a Viena, as ruas e as praças da Europa são o teatro de um conflito religioso que poderia, repentinamente, envolver as periferias das grandes cidades, segundo o dramático quadro pintado pelo jornalista Laurent Obertone no seu romance Guerilla: le temps des barbares (Ring, Paris 2019). Ao lado da guerra assimétrica, que poderia ser provocada por uma súbita revolta das periferias urbanas, os analistas também preveem o retorno dos «conflitos simétricos», com a possibilidade de guerras de Estados contra Estados. O governo de Paris, por exemplo, tem relações cada vez mais conflituosas com a Turquia de Erdogan, mas também com a China, especialmente depois do que aconteceu na Nova Caledónia, onde, no referendo secessionista de 4 de Outubro, a população votou para permanecer francesa, recusando-se a entrar na órbita chinesa. Mas a China comunista não desiste do expansionismo no Pacífico, da mesma forma que poderia aproveitar o caos nos Estados Unidos para tentar invadir, senão todo o território da ilha de Taiwan, pelo menos algumas das ilhas que dela dependem. Como responderiam Joe Biden ou Donald Trump?

Mas o mundo também está em guerra contra um inimigo invisível que apareceu no início de 2020: uma guerra biológica que se soma à guerra política, cultural e psicológica já em curso. A pandemia do Coronavírus está a desestabilizar o Ocidente e poderia provocar o seu colapso social. Por outro lado, o Papa Francisco, em vez de tentar compreender os planos divinos na história, parece acelerar a catástrofe com os apelos a um mundo utópico desprovido de identidade religiosa e de raízes nacionais, que marcaria o aniquilamento da civilização ocidental e cristã. 

A guerra total está à porta? E qual é o nosso lugar neste campo de batalha? A resposta é simples. O nosso campo de batalha é aquele que a Divina Providência atribui a cada um de nós no momento presente. A nossa vida é feita de inúmeros momentos que se sucedem, mas nós combatemos no lugar e no momento que, dia-a-dia, a Providência nos designa.«Sufficit diei malitia sua» (Mt 6, 34): «basta a cada dia o seu problema», porque cada dia exige uma penosa luta, contra nós, o diabo e o mundo, com a ajuda da graça de Deus que sempre nos auxilia.        

Combater no momento presente significa, portanto, cumprir o próprio dever e aceitar virilmente as dificuldades de cada dia, na concreta condição histórica em que Deus nos quer. A tentação é desejar um campo de batalha diferente daquele em que nos encontramos e rebelar-nos contra os acontecimentos, em vez de ver neles a mão sábia de Deus que tudo ordena para o bem, até o mal que nos ataca e a toda a sociedade. Não nos deixemos ser subjugados pelo rio impetuoso dos acontecimentos, mas ancoremo-nos na rocha da divina Sabedoria que julga as coisas do mundo à luz da eternidade, deixando que as ondas que nos perseguem furiosamente desaparecerem, enquanto Deus, que é a rocha eterna, nunca muda e sempre está. São Francisco de Sales disse: «Saber aceitar o que Deus faz, os acontecimentos que dispõe, o que te acontece todos os dias, convencido de que tudo vem da sua mão, é uma ciência doce ao coração generoso e é uma ciência fechada ao coração egoísta» (Cristianesimo vissuto, Edizioni Fiducia, Roma 2017, p. 115). 

Mantenhamos, então, o nosso lugar no campo de batalha e combatamos generosamente, sem raiva e sem rancor, mergulhando-nos na infinita doçura da divina promessa de Fátima: «Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará».           

Roberto de Mattei      

Através de Radio Roma Libera

Sem comentários:

Publicar um comentário

«Tudo me é permitido, mas nem tudo é conveniente» (cf. 1Cor 6, 12).
Para esclarecimentos e comentários, queira contactar: info@diesirae.pt