domingo, 1 de novembro de 2020

O Baptistério de Pádua, um empreendimento do Paraíso

«Quem poderá subir à montanha do Senhor        
e apresentar-se no seu santuário?     
O que tem as mãos inocentes e o coração limpo, 
o que não ergue o espírito para as coisas vãs
» (Sl 24, 3-4)      

«Um empreendimento que tem o fôlego de um cântico dantesco». É assim que o conhecido crítico Vittorio Sgarbi define o traçado decorativo do Baptistério da Catedral de Pádua, passada a soleira do qual, efectivamente, parece estar-se no Paraíso. Um empreendimento iniciado nos anos setenta do século XIV, quando Fina Buzzaccarini, esposa de Francisco I de Carrara, elegeu o referido monumento como mausoléu familiar, convocando um conhecido pintor, o florentino Giusto de’ Menabuoi, para encenar a História de Salvação.   

Giusto que teve o mérito de difundir, no Norte de Itália, a lição de Giotto, deixando em Pádua e, principalmente, nesta obra os mais altos testemunhos da sua arte, saturada de cor e de imagens em todo o espaço disponível, fundindo pintura e arquitectura. Tem muito para contar porque, se o Paraíso é o destino final, tudo começou com a Criação do homem por Deus. E daqui também começa Giusto, convidando-nos a iniciar um caminho, exactamente como Dante na sua Comédia.

O programa iconográfico, pensado e partilhado, muito provavelmente, com um teólogo próximo da comitente, proporciona no tambor da cúpula a sucessão de episódios retirados do Antigo Testamento, mais precisamente do Livro do Génesis, enquanto, nas paredes, a figura de João Baptista começa a história da vida terrena de Jesus que termina com o Pentecostes na abside. A vontade do pintor, que presta muita atenção à representação espacial das diferentes cenas, é actualizar o drama sagrado envolvendo também personagens conhecidos da corte carrarense do século XIV, que retrata entre os protagonistas dos acontecimentos do Novo Testamento. Com isso, pretende imergir o fiel espectador na representação pictórica, envolvendo-o emocionalmente na primeira pessoa.        

As visões apocalípticas de São João, detalhadamente descritas nas paredes da pequena abside, introduzem uma dimensão transcendente que encontra perfeita realização na cúpula central e no Paraíso que domina e abraça todo o espaço sagrado. Os quatro evangelistas nos pendentes são as colunas de sustentação: Mateus, Marcos, Lucas e João ocupam um lugar de destaque no “lugar santo”, porque são eles que, seguindo Jesus, foram os primeiros a falar disso ao mundo.   

E, através do seu testemunho, Cristo alcançou aqueles que, agora, se aglomeram na «montanha do Senhor». Dispostos em três fileiras concêntricas, os Santos constroem uma coroa hierática, cromaticamente diferenciada pelas suas vestes luminosas, como se uma luz pulsasse dentro deles, enquanto o ouro dos halos individuais domina por toda a parte, aumentando a sacralidade da cena.   

Ao centro, rodeado de querubins, um imponente Pantocrator segura entre as mãos o livro da Aliança, no qual as letras Alfa e Ómega o identificam como o Senhor do tempo e do cosmo. O azul celeste do Seu manto liga-o indissoluvelmente à Virgem orante, em perfeito eixo simétrico com o Filho. É Ela quem guia a “imensa multidão” dos puros de coração sentados na presença do Senhor; é Ela o elo entre Cristo e a humanidade. É Ela a Rainha dos Santos, entre os quais, na faixa mais externa, o pintor, de forma deliberada, representou aqueles particularmente venerados em Pádua: para que a sua invocação se tornasse, então e hoje, um costume familiar.

Margherita del Castillo

Através de La Nuova Bussola Quotidiana                  

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