sábado, 7 de novembro de 2020

“Não à estratégia da mentira!”, a carta inédita de Viganò a Bergoglio

Por ocasião do lançamento do novo livro de Mons. Carlo Maria Viganò, coordenado pelo italiano Aldo Maria Valli, foi divulgada uma carta que, em Março de 2019, o antigo Núncio Apostólico nos Estados Unidos da América escreveu ao Papa Francisco, não tendo, porém, chegado a enviá-la. Pareceu-nos, pois, oportuno traduzir e divulgar o texto integral da missiva.

Santidade,

Inúmeras são as orações, ao Pai celeste, pela conversão do sucessor de Pedro, da parte de fiéis e de pastores em todas as partes do Mundo. Também eu, com eles, imploro a intercessão de Maria, Virgem Imaculada, Rainha dos Apóstolos e Mãe da Igreja, e dirijo-lhe, como já fiz várias vezes, um apelo de coração para que se converta e cumpra o mandato que Jesus deu a Pedro e aos seus sucessores de confirmar os seus irmãos.         

Papa Francisco, mantenha a promessa que fez solenemente quando aceitou a missão de sucessor do apóstolo Pedro!     

Grande é o sofrimento, grave é a perplexidade, a confusão, a divisão que as suas palavras, os seus gestos, os seus comportamentos, as suas decisões, os seus silêncios provocaram nos fiéis. Os pastores, cardeais, bispos e sacerdotes, por um falso conceito clerical de respeito e de obediência ao papa, calam-se: tanto pelo medo de provocar um cisma na Igreja, quanto para não transmitirem o seu sofrimento às almas dos fiéis, e porque têm medo do risco de incorrer em sanções canónicas, que agora afectam não aqueles que pregam doutrinas erróneas e praticam comportamentos gravemente imorais, mas os defensores das Verdades perenes, contidas na Sagrada Escritura e constantemente ensinadas na Tradição da Igreja.         

Na catequese da Audiência Geral de 14 de Novembro de 2018, quarta-feira, ao explicar o oitavo mandamento, “Não levantar falsos testemunhos”, afirmou: «Este mandamento – reza o Catecismo – “proíbe falsificar a verdade nas relações com outrem” (n. 2464). Viver de comunicações não autênticas é grave, porque impede os relacionamentos e, por conseguinte, também o amor. Onde há mentira não há amor, não pode haver amor. E quando falamos de comunicação entre as pessoas, entendemos não apenas as palavras, mas inclusive os gestos, as atitudes, até os silêncios e as ausências».       

O recente encontro de todos os presidentes das Conferências Episcopais, por si convocado para reflectir e indicar remédios para os abusos sexuais, para os crimes e para os pecados de sodomia cometidos por sacerdotes, bispos e cardeais, foi manipulado desde o início, reduzindo o seu objecto às violações apenas contra menores, ignorando, deliberadamente, o facto de que 80% dos abusos sexuais são cometidos contra jovens adultos, seminaristas e sacerdotes, e são de natureza homossexual. Vossa Santidade impôs um total silêncio sobre a homossexualidade, principal causa dos abusos perpetrados. Durante o encontro, as conferências, na Sala de Imprensa vaticana, ofereceram ao Mundo um espectáculo vergonhoso, que não poderia ter sido mais deprimente e desanimador. Jornalistas, especialmente mulheres de grande experiência e profissionalismo, inclusive de jornais laicos, tentaram, de todas as maneiras, em vão, obter respostas que pudessem restituir um mínimo de credibilidade ao encontro em curso; mas tiveram de lidar com duas falsas testemunhas, o Cardeal Cupich e o Arcebispo Scicluna. Este último, ainda aprendiz na cultura jesuíta, surpreendido por uma pergunta sobre o caso indecente do Bispo Zanchetta, depois de alguns resmungos, chegou a deixar escapar palavras constrangedoras e embaraçosas: «Não sei se estou autorizado».          

Um conhecido professor judeu, que se converteu, de maneira singular, à fé católica, comparou a actual corrupção na hierarquia da Igreja Católica com a existente no sinédrio que, há dois mil anos, condenou Jesus Nazareno à morte citando falsos testemunhos.   

Os abusos sexuais contra menores e jovens, cometidos pelo clero, os graves danos morais e os devastadores traumas psicofísicos causados
​​às vítimas, o silêncio, os persistentes encobrimentos da hierarquia produziram danos incalculáveis ​​à Igreja e uma grave perda de credibilidade, dificilmente recuperável pelos bispos e pelo próprio sumo pontífice.        

O P. Lombardi, que moderou o encontro de Fevereiro, observou que «encobrir os crimes é uma coisa extremamente grave. É a negação da verdade, da cura das vítimas, e é muito grave». E acrescentou: «Agora estamos a responsabilizar os bispos (…) mas, se não agem bem, devem responder por isso. E esta é uma das coisas concretas que se seguirão no encontro: os procedimentos e as normas, prestar contas não só a Deus, mas à comunidade e à Igreja».

Infelizmente, a repetição destas afirmações só serve para criar uma cortina de fumo e permanece letra morta. O princípio da não contradição foi anulado pela lógica, sacrificado no altar do relativismo vigente, segundo o falso princípio por si anunciado, pelo qual «a realidade é superior às ideias», princípio que também pode ser traduzido assim: os comportamentos humanos, sejam eles quais forem, mesmo de acordo com a lógica do mundo, são superiores às Verdades inscritas, no coração do Homem, pela lei natural e pela lei divina revelada em Jesus Cristo, e, consequentemente, também a realidade do pecado sodomita contra a natureza é superior à lei natural e revelada por Deus no Antigo e no Novo Testamento. Da mesma forma, o casamento monogâmico, entre um homem e uma mulher, é superado pela realidade do divórcio, do adultério e das uniões homossexuais! Erguer a realidade contingente a lugar teológico, arrebatando-a a um necessário julgamento moral coerente com a eterna Verdade de Deus, é uma aberração filosófica mesmo antes de ser teológica.          

O silêncio no ensinamento dos valores morais, como a castidade e a fidelidade conjugal, é, infelizmente, amplamente praticado na Igreja hoje e é constante no seu magistério. Esta é a estratégia da mentira daquele que é mentiroso e assassino desde o princípio (Jo 8, 44).           

São Pedro negou Nosso Senhor três vezes: ao cantar do galo, diz-nos o Evangelista, «flevit amare» (Lc 22, 62). Rezo de todo o coração para que Vossa Santidade possa seguir o príncipe dos apóstolos, do qual é sucessor, no arrependimento sincero, para, depois, poder confirmar os irmãos apascentando as ovelhas e os cordeiros que lhes são confiados pelo Único Pastor.   

Carlo Maria Viganò

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