sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Grech, o pastoralismo que mata a Igreja

O pastoralismo está a corroer a Igreja, descentraliza-a, projecta-a para fora de si mesma, a ponto de fazê-la esquecer coisas essenciais. A Igreja de hoje está doente de pastoralismo, que agora se tornou a ideologia dos líderes eclesiásticos. Deste modo, eles acabam sempre por inverter as coisas de como são realmente para como aparecem para a nova ideologia. Acredita-se que se liberta a Igreja do doutrinalismo e, em vez disso, está-se a escravizá-la ao mundo, porque a impedem de vê-lo a partir de cima e de fora.   

O Bispo maltês Mario Grech, futuro Cardeal e Secretário do Sínodo dos Bispos em substituição de Lorenzo Baldisseri, deu mais uma prova do novo escolasticismo pastoral numa entrevista a La Civiltà Cattolica, publicada no número que está em distribuição. O tema é a Igreja depois da pandemia.

Muitos fiéis sofreram com a suspensão das Santas Missas e com o encerramento das igrejas devido a regulamentações governamentais. A Santa Missa e a liturgia eucarística são o coração da vida cristã. Nenhum fiel jamais pensou que a celebração da Missa pelo sacerdote fosse uma forma de clericalismo. Nem mesmo as Missas em streaming, quando realizadas, foram consideradas, pelos fiéis, uma forma de pretenso exibicionismo, uma pretensão de monopólio clerical do contacto com o mistério. Monsenhor Grech, por outro lado, pensa que, durante a pandemia, «surgiu um certo clericalismo, mesmo através das redes sociais». «Assistimos a um certo exibicionismo e pietismo que cheira a magia» e «tantas iniciativas pastorais neste período centraram-se apenas na figura do presbítero». Para ele, esta fixação na Santa Missa e nos Sacramentos é uma forma de clericalismo que nos impede de compreender «que havia outras formas pelas quais poderíamos experimentar Deus»: a emergência «transformou enfermarias hospitalares noutras catedrais».                 

Durante as restrições da liturgia, perguntámo-nos por que motivo a Igreja se curvou imediatamente perante as disposições governativas e apenas alguns ínfimos Bispos, como Monsenhor Giovanni D’Ercole, protestaram e reivindicaram o «direito à Santa Missa». A razão é que, agora, a grande maioria dos pastores, e especialmente aqueles que foram chamados ao topo da hierarquia, hoje pensam como o futuro Cardeal Grech, para o qual a Santa Missa é apenas uma «experiência de Deus». Bem, se assim for, então é verdade que, como diz ele, uma experiência de Deus também pode ser feita noutro lugar e que todas as áreas do mundo, e não apenas as enfermarias dos hospitais, podem ser consideradas locais onde se faz experiência de Deus, uma igreja, um altar, uma liturgia eucarística. É o que diz o pastoralismo e, por isso, está a matar a Igreja.      

Durante as proibições litúrgicas, a essência da Missa parece ter-se tornado a fraternidade experimentada pelo distanciamento e pelo uso da máscara: ia-se à Missa para usar a máscara, não se usava a máscara para ir à Missa. O preceito dominical consistia em manter o distanciamento social.    

Ainda sobre a Missa, o futuro purpurado disse outra coisa espantosa: «Quanto à Palavra, portanto, devemos desejar que esta crise, cujos efeitos nos acompanharão por muito tempo, seja um momento oportuno para nós, como Igreja, para trazer de volta o Evangelho para o centro da nossa vida e do nosso ministério». A falta da Palavra eucarística seria, por conseguinte, uma oportunidade para reapropriar-se melhor da Escritura. Nem mesmo um protestante iria tão longe. O pastoralismo leva a isto: ler o Evangelho em casa seria mais importante do que ouvi-lo proclamado e explicado, na Igreja, na liturgia da Palavra e, sobretudo, tomá-lo nas Espécies eucarísticas como real Palavra Encarnada, Morta e Ressuscitada.         

E eis que chegamos ao tema da família. Segundo o Bispo, quase Cardeal, Grech, durante a pandemia a família tornou-se Igreja também no sentido litúrgico. É, em si mesma, uma Igreja doméstica e, agora, também se tornou na liturgia, tanto que «quem, durante este período em que a família não tiveram oportunidade de participar na Eucaristia, não aproveitou para ajudar as famílias a desenvolver o seu próprio potencial, perdeu uma ocasião de ouro». Foi, certamente, oportuno sugerir a oração em família, dada a ausência da liturgia eucarística, mas a família não tem nenhum «próprio potencial» que a possa assimilar à celebração da Santa Missa.          

A família é “Igreja doméstica” porque há a Igreja que celebra a liturgia eucarística. O Bispo Grech, pelo contrário, pensa que a Igreja existe porque há famílias e que «não é a família que é subsidiária à Igreja, mas a Igreja a ser subsidiária à família», utilizando o princípio da subsidiariedade de forma absolutamente inaceitável. Na esfera civil, o Estado é subsidiário à família porque as famílias vêm antes do Estado, mas, na esfera eclesial, nada vem antes da Igreja, que não é a assembleia de várias Igrejas domésticas. O motivo pelo qual o Bispo Grech insiste no potencial litúrgico da família é o de valorizar o sacerdócio universal e, assim sendo, também dos pais, acabando por colocá-lo ao mesmo nível do sacerdócio ministerial.

Segundo Grech, depois da pandemia seria um suicídio voltar à velha pastoral centrada na Missa e nos Sacramentos. Mas eu não acredito.    

Stefano Fontana          

Através de La Nuova Bussola Quotidiana

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