sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Eugenia e aborto, Marie Stopes muda de disfarce

Dos Estados Unidos da América ao Reino Unido, é o novo imperativo das organizações anti-vida: obscurecer a ligação entre a eugenia (com os seus corolários racistas) e o aborto. Primeiro, a remoção do nome de Margaret Sanger de uma clínica da Planned Parenthood, em Nova Iorque, para acompanhar o movimento (aliás, abortista) Black Lives Matter e evitar, assim, o fogo amigo. Agora, uma operação de proporções muito maiores, que envolve a Marie Stopes International, uma multinacional do aborto, fundada em Londres, que decidiu remover o nome da britânica Marie Stopes (1880-1958), uma convicta promotora do controlo da natalidade através de esterilizações forçadas e da contracepção.  

Permanecerão, na verdade, as suas iniciais. E, assim, desde o passado dia 17 de Novembro, a gigante, com sede no Reino Unido, chama-se, oficialmente, MSI Reproductive Choices. A nova denominação – “Escolhas Reprodutivas” – é uma perfeita adesão à neolíngua. O jogo de maquilhagem levou à mudança do domínio na Internet, dos endereços de e-mail, das páginas sociais.         

O motivo do ostracismo em relação à inspiradora e mãe ideal da MSI é brevemente explicado pelo administrador delegado, Simon Cooke: «Marie Stopes foi uma pioneira do planeamento familiar; todavia, também foi uma defensora do movimento eugénico e expressou muitas opiniões que estão em total contraste com os valores e os princípios fundamentais da MSI». Segundo Cooke, a mudança de nome justifica-se com o lançamento de uma «nova estratégia» que visa eliminar, até 2030, qualquer aborto «inseguro» (existe algum que seja seguro?) e garantir, a todos, o acesso à contracepção. Nem mesmo um alienígena que estivesse na Terra há apenas alguns meses aceitaria tal retórica, já que não há nada de “novo” nesta estratégia.

É claro que a MSI não sabe como romper os laços com Marie Stopes sem renunciar ao seu negócio e à sua história. De resto, o próprio Cook recordou, mais à frente, que «a MSI foi fundada, em 1976, pelo Dr. Tim Black, por Jean Black e por Phil Harvey, que assumiram a clínica no local da original “Mothers Clinic”, de Marie Stopes [por ela fundada em 1921, n.d.r], no centro de Londres» e que deram o seu nome à organização em reconhecimento da sua «obra pioneira». A ideia deles era “emancipar” as mulheres com a contracepção e o aborto: e esta visão, acrescenta o administrador, é «tão relevante hoje como o era em 1976».

Portanto, o novo nome é apenas um truque, que nada muda na substância. O aborto de crianças com alguma deficiência – física ou mental, real ou presumida – está intimamente ligado aos princípios da eugenia. A cultura do aborto legal nasce da mesma árvore da contracepção, que se desenvolve por impulso das várias sociedades eugénicas, nascidas, no início do século XX, na onda do darwinismo social, do britânico Francis Galton, que se enraizou de um lado ao outro do Atlântico.

O percurso de vida e ideológico de Marie Stopes, sem dúvida, tem uma extraordinária semelhança com o de Sanger (1879-1966). As duas conheceram-se, pessoalmente, em 1915, depois de a activista americana, que fugiu para a Inglaterra, ter falado sobre contracepção diante dos membros da Fabian Society. Marie Stopes aconselhou-se com Sanger para um capítulo de um seu artigo sobre o controlo da natalidade, tema que “respirava” há já algum tempo.         

Já em criança, a paleontóloga e ensaísta britânica conhecera, através do pai, Galton. Participara, depois, no congresso inaugural, em 1912, da Eugenics Education Society (hoje, Galton Institute), e, em 1921, tornou-se membro. Nesse mesmo ano, fundou a já mencionada Mothers Clinic e, para apoiá-la, uma organização cujo nome diz tudo: Society for constructive birth control and racial progress.       

O progresso racial que Stopes tinha em mente previa, como escreveu em Radiant Motherhood, que «a esterilização daqueles que são totalmente inadequados para a paternidade deve ser imediata, aliás, obrigatória». Entre os inadequados, disse ela, estavam «os depravados, os de mente fraca e os desequilibrados», que «produzem menos do que consomem». Pelo menos publicamente, Stopes declarava-se contra o aborto (em alguns casos, no entanto, mostrara-se favorável em privado), uma vez que acreditava que a contracepção fosse suficiente para construir a raça superior e perfeita – baseada na wise parenthood, “paternidade sábia” – da qual se considerava profetisa. O contraste com a Igreja Católica era gritante.

O controlo da natalidade devia ocorrer, particularmente, entre as classes mais pobres e, não por acaso, a primeira clínica de Marie Stopes nasceu numa zona, à época, indigente de Londres (Holloway, de onde se mudou em 1925). Racismo, sobretudo, social, que está associado àquele em sentido mais estreito das clínicas de Planned Parenthood, nos Estados Unidos, muitas vezes localizadas em bairros de maioria afro-americana.    

De grande pragmatismo, Stopes foi hábil a publicar os seus escritos e a espalhar as suas ideias eugénicas entre os governantes. Na sua concepção de raça entrava também um forte anti-semitismo. E, em Agosto de 1939, poucos dias antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial, enviou um livro de poesia (Love Songs for Young Lovers) a Adolf Hitler, com a esperança – segundo parece, desiludida – de que o Führer mandasse distribuir esses poemas nas clínicas alemãs de controlo da natalidade.     

O desprezo por uma vida frágil, ou mesmo minimamente imperfeita, levou Stopes a tentar impedir o casamento do filho, Harris, com Mary Wallis, “culpada” por ter «uma doença ocular hereditária», praticamente uma forma de miopia, e «tenho horror que a nossa linha [genética] esteja contaminada e de crianças pequenas com a miséria dos óculos».       

Estas são as mentes que espalharam a eugenia que, posteriormente, evoluiu, com a ajuda de políticos e dos media, para a indústria do aborto. Refazer o seu visual não basta. É necessário fechá-la.      

Ermes Dovico    

Através de La Nuova Bussola Quotidiana

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