sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Entrevista a Mons. Carlo Maria Viganò sobre o “Relatório McCarrick”

Depois de, há alguns dias, ter emitido uma breve nota sobre o relatório da Santa Sé relativo ao predador sexual Theodore McCarrick, o Arcebispo Carlo Maria Viganò, denunciante dos escândalos sexuais na Igreja norte-americana, concede uma muito esclarecedora entrevista a Raymond Arroyo, que o portal Dies Iræ, a pedido de Sua Excelência Reverendíssima, traduziu e apresenta aos leitores de Língua Portuguesa.         

Excelência, o relatório afirma que «não se apresentou» para mostrar provas para esta investigação vaticana: foi-lhe pedido que fornecesse informações? Alguém o contactou?

Descubro com surpresa que um dossier, em que sou mencionado 306 vezes, me acusa de não me ter apresentado para testemunhar nesta investigação sobre Theodore McCarrick. Mas a convocação das testemunhas, nos termos da lei, cabe ao instrutor do processo, com base nas provas recolhidas na fase de instrução.        

A minha primeira intervenção sobre McCarrick, como Delegado para as Representações Pontifícias na Secretaria de Estado, remonta a 6 de Dezembro de 2006, na sequência de um relatório do então Núncio nos Estados Unidos, Mons. Pietro Sambi. Sucessivamente, em 2008, apresentei um segundo memorando que relatava factos de tal gravidade e tão detalhados que me levaram a recomendar a deposição de McCarrick como Cardeal e a sua redução ao estado laical. É conhecido de todos o meu testemunho de Agosto de 2018 e as minhas sucessivas declarações.           

É completamente incompreensível e anómalo que não tenha sido considerado apropriado convocar-me para testemunhar, mas é ainda mais desconcertante que essa omissão deliberada tenha sido usada, posteriormente, contra mim. E não me digam que me tornei indisponível: o meu e-mail pessoal está na posse da Secretaria de Estado e ainda está activo. 

Por outro lado, assim como não fui interpelado para a redacção do Relatório McCarrick, também, em 2012, os três Cardeais, designados por Bento XVI, não me chamaram para as investigações sobre Vatileaks 1, que também me viu pessoalmente envolvido. Só no seguimento de um explícito pedido meu é que o Card. Julian Herranz, que presidia à Comissão, me permitiu testemunhar, com estas palavras: «Se queres mesmo…!».          

De outra parte, parece-me significativo que mesmo James Grein, a única vítima dos abusos sexuais de McCarrick que teve a coragem de denunciá-lo publicamente, não apareça no dossier e que não haja nenhum vestígio do seu depoimento, no qual também deveria ter referido a viagem feita, com McCarrick, a São Galo, no final dos anos cinquenta.

Das declarações públicas de James Grein, fica claro que o início da ascensão de McCarrick – então um neo-sacerdote – coincidiu com aquela visita à Suíça, a um mosteiro que, mais tarde, foi o local dos encontros dos conspiradores da chamada “máfia de São Galo”. Segundo as declarações do defunto Card. Godfried Danneels, aquele grupo de Prelados teria decidido favorecer a eleição de Bergoglio, seja depois da morte de João Paulo II, seja durante o Conclave que se seguiu à controversa renúncia de Bento XVI. 

Lembro-me que, durante uma conferência na Villanova University, a 11 de Outubro de 2013, o então Card. McCarrick admitiu que era favorável à eleição do Card. Bergoglio no início das Congregações Gerais do Conclave, realizadas alguns meses antes.     

Pergunto-me que confiabilidade pode ter um órgão judicial num claro conflito de interesses devido às suas relações anteriores com o acusado. Como podem Bergoglio e a Secretaria de Estado, que dele depende, fingir parecer imparciais quando McCarrick ia ao Vaticano com uma anómala frequência; quando, em Junho de 2013, foi encarregado de uma viagem diplomática à China? E como podem pensar que reiteradas tentativas de encobrir e de negar as suas responsabilidades não sejam a causa da sistemática tentativa de me desacreditar como testemunha, para não trazer à luz a cumplicidade e a conivência entre eles e o próprio McCarrick? 

De acordo com o relatório, o Papa afirma que não foi por si informado das actividades ou das restrições de McCarrick em Junho de 2013. Qual é a sua resposta? 

Esta afirmação é absolutamente falsa. Em primeiro lugar, foi o próprio Bergoglio, a 23 de Junho de 2013, a pedir expressamente a minha opinião sobre McCarrick. Como testemunhei no meu memorando de 2018, «respondi-lhe com toda a franqueza...:“Santo Padre, não sei se conhece o Cardeal McCarrick, mas se perguntar à Congregação para os Bispos, há um dossier muito grande sobre ele. Corrompeu gerações de seminaristas e de sacerdotes, e o Papa Bento forçou-o a retirar-se para uma vida de oração e de penitência”. O papa não fez o menor comentário sobre as minhas palavras tão graves e não mostrou nenhuma expressão de surpresa no rosto, como se já o soubesse há algum tempo, e mudou imediatamente de assunto. Mas, então, com que propósito é que o papa me fizera aquela pergunta: “Como é o Cardeal McCarrick?”. Evidentemente, queria saber se eu era aliado de McCarrick ou não».        

Devo observar que soube pelo próprio McCarrick que Bergoglio o recebera quatro dias antes da minha audiência e que o autorizara a ir à China. De que adiantou pedir-me uma opinião, quando Bergoglio demonstrava que tinha a maior estima por McCarrick? 

Enquanto isso, McCarrick vinha tranquilamente a Roma, recebia tarefas do Vaticano, inclusive oficiais, e continuava as suas actividades como se nada tivesse acontecido. Em Maio de 2014, soube, pelo Washington Times, de uma viagem de McCarrick, em nome do Departamento de Estado (o Secretário de Estado era, à época, John Kerry), à República Centro-Africana; também é mencionado no relatório. Estamos a falar de 2014; mas Bento XVI, desde 2008, tinha ordenado ao Cardeal americano que se retirasse para a vida privada, que não celebrasse ou interviesse em eventos públicos, que não viajasse.   

Por este motivo, dada a forma como era tratado McCarrick, perguntei ao Card. Parolin se as sanções contra ele ainda deviam ser consideradas válidas. Mas não obtive resposta. A essa altura, depois de ter comunicado pessoalmente ao Papa, não tendo recebido resposta do Secretário de Estado, o que poderia ainda fazer? A quem apelar?      

Pelo relatório, fico a saber que as tarefas e viagens contínuas de McCarrick ao exterior eram consideradas, pelo Arcebispo Wuerl e até pelo Núncio Sambi (falecido em 2011), como uma «forma suficiente de afastamento» (cf. nota 1013 do relatório). E fico sinceramente chocado ao saber que «as indicações não eram “sanções”; não foram impostas pelo Papa Bento XVI; McCarrick nunca foi proibido de celebrar Missa em público; McCarrick não foi proibido de proferir conferências. O Cardeal Re não impôs a McCarrick a “obrigação” de se dedicar a uma vida de oração e penitência; e McCarrick permaneceu livre para conduzir actividades, incluindo as viagens, com a permissão da Santa Sé, compreendido o Núncio» (cf. nota 1006, ibidem). Se assim é, significa que, apesar da conduta reprovável do Cardeal, a Santa Sé não considerou oportuno tomar medidas disciplinares contra McCarrick, o que confirma a minha denúncia sobre a corrupção da Cúria.          

O relatório faz de tudo para tentar retratá-lo como inadimplente na investigação das alegações do Padre 3. (Menciona apenas o facto de que tenha sido Vossa Excelência a trazer estas preocupações à Santa Sé em primeiro lugar). Evitou colocar-se «na posição de verificar a credibilidade do Padre 3»?          

É evidente qual foi o meu papel ao trazer à luz os escândalos de McCarrick e que sempre tomei medidas para relatar à Santa Sé qualquer informação chegada à minha posse. Recordo que estamos a falar de 2012, quando tinha sido recentemente nomeado Núncio nos Estados Unidos.        

O relatório acusa-me de não ter dado seguimento ao pedido de informação sobre as acusações do «Padre 3» contra McCarrick. Algo absolutamente falso! São os mesmos redactores do relatório a fornecer as provas do engano que planearam para me atingir e desacreditar. Com efeito, afirma-se, noutro ponto do relatório, que, a 13 de Junho de 2013, escrevi ao Card. Ouellet, enviando-lhe a carta que o bispo Bootkoski me tinha dirigido e a carta enviada ao «Padre 3». Informei-o de que a denúncia civil do «Padre 3» havia sido encerrada sem possibilidade de recurso. O bispo Bootkoski qualificava as acusações do «Padre 3» como falsas e caluniosas.          

Gostaria de enfatizar um aspecto em particular. Aqueles que me acusam de não ter enviado uma comunicação escrita a Mons. Bootkoski, Ordinário do «Padre 3» e Bispo de Metuchen, sabem bem que isso depende das indicações precisas da Secretaria de Estado. E sabem igualmente bem – como confirma o relatório – que houve uma comunicação telefónica entre mim e o bispo Bootkoski, da qual, no que me diz respeito, informei o Cardeal Ouellet.  

Não se deve esquecer que naqueles anos havia advogados que não se contentavam em chamar em juízo as Dioceses por crimes cometidos por sacerdotes, mas queriam demonstrar que a própria Santa Sé – como quartel-general de uma multinacional – tinha a responsabilidade última nas indemnizações por abusos. Sabe algo sobre isso o advogado Lena, que conseguiu, em dois distintos processos, evitar que a responsabilidade do encobrimento dos abusos recaísse sobre o Papa Bento XVI.       

E o que pensa do facto de o relatório atribuir a João Paulo II e a Bento XVI a maior parte da culpa pela promoção e confirmação de McCarrick na Igreja?        

As intenções dos redactores do relatório são claras: descarregar as responsabilidades das promoções de McCarrick sobre os Predecessores, um defunto e canonizado (João Paulo II), o outro idoso e débil (Bento XVI). O primeiro não pode se defender do túmulo, o segundo é brando demais para repudiar abertamente o seu sucessor, chamando-o de mentiroso e desacreditando, com ele, também a função que exerce. O que é desconcertante é que dentro do mesmo relatório – elaborado por várias mãos, naturalmente – existem inúmeras contradições, a ponto de tornar pouco credíveis os argumentos apresentados.      

Pergunto-me então: quem convenceu João Paulo II e Bento XVI a não levar em conta as graves acusações sobre McCarrick? Quem tinha interesse em fazer com que McCarrick fosse promovido, de modo a tirar vantagens em termos de poder e de dinheiro? 

Provavelmente, alguém fez João Paulo II acreditar que as acusações contra McCarrick tinham sido feitas propositalmente, segundo o modelo das operações de descrédito que a Polónia comunista já havia realizado contra bons bispos ou sacerdotes que se opunham ao regime.    

No caso de João Paulo II, o principal interesado na promoção de McCarrick era, certamente, o Cardeal Sodano. Foi Secretário de Estado até Setembro de 2006: todas as informações chegavam-lhe. Em Novembro de 2000, o Núncio Montalvo enviou-lhe o seu relatório e as denúncias de graves abusos cometidos por McCarrick.  

Não esqueçamos que, naquele período, estourou o escândalo do padre Maciel, que Sodano tentou encobrir, chegando a falsificar um comunicado de Bento XVI em que se dizia que o Papa considerava o caso encerrado. Bento XVI convocou uma plenária da Congregação para a Doutrina da Fé e o Cardeal Arinze conseguiu que Maciel fosse condenado, não obstante a oposição do Secretário de Estado.      

O nome do Card. Sodano também apareceu envolvido numa escandalosa especulação imobiliária. Em 2003, o sobrinho do Purpurado, o engenheiro Andrea Sodano, com cartas de recomendação do tio Secretário de Estado e na qualidade de consultor da imobiliária Follieri (em alguns actos oficiais é também indicado como Vice-Presidente do grupo), adquiriu, ao desbarato, bens das Dioceses americanas condenadas a indemnizar os danos dos processos civis por abusos sexuais, obtendo para si uma enorme vantagem económica em detrimento dos danos da Igreja. Raffaello Follieri, dono da holding, foi condenado por fraude e lavagem de dinheiro, justamente por operações imprudentes na comprova e venda desses imóveis. Desnecessário dizer que Follieri tinha estreitas relações com a Clinton Global Initiative e a família Clinton, assim como com os Democratas: «O ex-presidente e a senadora Hillary são nossos amigos», vangloriou-se Follieri.       

Repetem-se as estreitas relações, as mesmas cumplicidades, as mesmas frequentações. McCarrick, Clinton, Biden, os Democratas, os Modernistas. Com um não indiferente cortejo de homossexuais e abusadores em série.     

Quanto a Bento XVI, quem tinha um acesso diário e directo ao Papa eram o Secretário de Estado, Bertone, e o Substituto, Sandri, que conseguiam controlar e filtrar as informações sobre McCarrick e exercer pressão sobre ele.         

Também neste caso, o relatório fala por si. A apresentar a questão directamente ao Papa Bento XVI foi o Card. Bertone, que, ao contrário do que eu havia proposto repetidamente – isto é, que as acusações muito graves e detalhadas contra McCarrick exigiam um procedimento canónico exemplar até à sua remoção do Colégio Cardinalício e à sua redução ao estado laical –, induziu o Papa Bento XVI a decidir que não fosse instruído um processo, nem prescritas sanções canónicas, mas que simplesmente se apelasse à «consciência e ao espírito eclesial» de McCarrick.        

E aqui aparece evidente mais uma flagrante contradição: como se concilia um simples apelo à consciência com as instruções formais que foram dadas ao Núncio Sambi e a mim, segundo as quais McCarrick não podia residir no Seminário onde estava hospedado, não poderia participar em actividades públicas, não podia viajar e tinha que levar uma vida retirada de oração e de penitência?  

A corrupção dos vértices do Vaticano é tão evidente que é possível considerar este relatório como uma indigna tentativa de fazer Bergoglio parecer absolutamente alheio às manipulações da Cúria, mais, uma espécie de perseguidor implacável dos corruptos, enquanto a evidência dos factos demonstra o contrário. Eu diria que Bergoglio está para a deep church como Biden está para o deep state... 

Permito-me observar que o facto de culpar João Paulo II pela nomeação de McCarrick, malgrado o parecer negativo da Congregação dos Bispos e do seu Prefeito, Card. Re, também poderia aplicar-se ao próprio Jorge Mario Bergoglio, sobre o qual o Geral dos Jesuítas expressara fortes reservas. Se Wojtyla se enganou com McCarrick e, por isso, é implicitamente considerado responsável pelos escândalos verificados, o que impede que este julgamento se estenda também à promoção de Bergoglio como Arcebispo de Buenos Aires e, depois, como Cardeal? Recordo que, naquele Consistório de 2001, para além de McCarrick e de Bergoglio, receberam o barrete expoentes da Máfia de São Galo... 

Há mais alguma coisa que devamos abordar?      

Para terminar, gostaria de citar um artigo recente de Riccardo Cascioli, fazendo meu o seu lúcido juízo: «Embora emerja do relatório a figura de um McCarrick predador em série, a grande reacção é desencadeada apenas quando, em 2017, chega a primeira denúncia de abusos de um menor [...] Na prática, dizem-nos que os “comportamentos imorais com adultos” não são, certamente, uma coisa boa, mas, no final, são tolerados; o alarme real, aquele que também prevê sanções pesadas, só é accionado com a menor idade do abusado. Como se as dezenas e dezenas de futuros padres que partilharam a cama com McCarrick e, portanto, em grande parte condenados a uma vida sacerdotal, no mínimo, desequilibrada, não contassem muito. Como se a devastação moral e de fé provocada por um bispo predador – vocações perdidas, sacerdotes que, por sua, vez repetirão os abusos, nomeações episcopais distorcidas por laços mórbidos – fossem um problema menor. [...] É duvidoso, acima de tudo, porque se ignorou, deliberadamente, que o que permitiu a irresistível ascensão de McCarrick foi um sistema de poder também chamado de lobby gay, que favorece a nomeação e a carreira de bispos com determinadas características. [...] Não, não há, realmente, um sinal de que a Igreja tenha aprendido com o caso McCarrick; pelo contrário, há a sensação de que se faz pagar um para poderem continuar tranquilamente os outros. E, enquanto isso, promover a ideia de que, para um padre, ter tendências homossexuais não é um problema».     

Nesta grotesca farsa, agora envolta numa falsa aparência de legalismo, não se hesita em arrastar para a lama toda a Igreja, o seu prestígio perante o mundo, a sua autoridade em relação aos fiéis, para salvar a imagem, agora comprometida, de Prelados corruptos, indignos e perversos. Limito-me a observar que, no Vaticano, Bergoglio ainda se rodeia de homossexuais conhecidos e de personagens com reputação seriamente comprometida. Esta é a mais flagrante negação da alegada obra moralizadora de Bergoglio.

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