segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Depois dos acontecimentos de Nice. As palavras são importantes

Mais uma vez, sangue numa igreja católica francesa. Corria o dia 26 de Julho de 2016 quando, na Igreja de Saint-Étienne-du-Rouvray, o P. Jacques Hamel, de oitenta e cinco anos, foi massacrado. Dois assassinos, ambos islâmicos, um deles sob controlo judicial mediante uma pulseira electrónica.        

E, agora, Nice, na Basílica de Notre Dame: três vítimas. Mais uma vez, sangue, mais uma vez, uma matança e uma decapitação. Mas vejamos algumas reacções, porque as palavras são importantes.          

O Presidente da Câmara, Christian Estrosi, falou em «terrorismo fascista-islâmico», tentando, assim, trazer o terrorismo islâmico de volta a uma categoria, a do fascismo, toda nossa: uma operação absurda e impensável, porque não há ligações entre as duas realidades totalmente diferentes em todos os aspectos.          

O Presidente francês, Emmanuel Macron, falou a quente, durante a sua visita a Nice, de um «ataque terrorista islâmico», acrescentando: «Somos atacados pela nossa liberdade, não cederemos».           

O Presidente italiano, Mattarella, na mensagem enviada a Macron, condena o fanatismo, mas apressa-se a acrescentar «de qualquer espécie».

As palavras Islão e islamismo também estão ausentes da nota publicada pelo Vaticano, na qual se fala de terrorismo e de violência sem adjectivos: «É um momento de dor num tempo de confusão. O terrorismo e a violência nunca podem ser aceites. O ataque de hoje semeou a morte num lugar de amor e de consolação, como a casa do Senhor. O Papa está informado da situação e está próximo da comunidade católica enlutada. Reza pelas vítimas e pelos seus entes queridos, para que cesse a violência, para que as pessoas se olhem novamente como irmãs e não como inimigas, para que o amado povo francês possa reagir, unido, ao mal com o bem».       

O comunicado de imprensa da Conferência Episcopal Francesa é menos vago, embora também não haja nenhuma menção ao Islão: «Os homicídios cometidos, esta manhã, em Nice, na Basílica de Notre Dame, mergulham a Conferência Episcopal Francesa numa imensa tristeza. Os nossos pensamentos e as nossas orações vão para as vítimas, para os feridos, para as suas famílias e entes queridos. Estas pessoas foram atacadas e assassinadas porque estavam na basílica. Representavam um símbolo a ser destruído. Estes assassinatos lembram-nos o martírio do P. Jacques Hamel. Por meio destes actos horríveis, todo o nosso País é atingido. Este terrorismo visa instilar ansiedade na nossa sociedade. É urgente parar esta gangrena, é urgente encontrar aquela fraternidade indispensável para nos mantermos de pé perante esta ameaça. Apesar da dor que nos atinge, os católicos recusam-se a ceder ao medo e, com toda a Nação, querem enfrentar esta ameaça traiçoeira e cega».        

E aqui está o Arcebispo de Paris, Michel Aupetit, que diz: «Rezamos pelas vítimas e pelas suas famílias, mas estamos estupefactos com esta loucura homicida em nome de Deus. Deus revelou-se um Deus de amor». Depois, uma referência à perseguição aos cristãos: «Desde o início, os cristãos foram perseguidos e, ainda hoje, são eles que, mesmo pregando e vivendo juntos no amor de Deus e do próximo, pagam o preço mais alto com o ódio e a barbárie».   

Prudente, até à reticência, a primeira página do L’Osservatore Romano: «Ataque a Nice, morte num lugar de amor e de consolação». Que não se fale do Islão é compreensível, dada a linha vaticana. Mas é difícil entender por que foi evitada até mesmo a palavra “igreja”, substituída pela perífrase «lugar de amor e de consolação», já usada no comunicado vaticano.     

Quem não teve medo das palavras foi o Cardeal Robert Sarah, Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, que, imediatamente após o atentado, falou de “islamismo”, definindo a incursão na igreja como um acto de «monstruoso fanatismo que deve ser combatido».     

Sim, as palavras são importantes.      

Aldo Maria Valli

Através de Radio Roma Libera

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