quinta-feira, 19 de novembro de 2020

A mártir que a falsa literatura feminista identificou com Hipácia

De Santa Catarina de Alexandria, cuja memória litúrgica facultativa ocorre a 25 de Novembro, provavelmente nascida em 287 e morta, como mártir, em Alexandria do Egipto, por volta de 305, há poucas informações documentais, motivo pelo qual nasceram várias tradições, inclusive populares. As fontes escritas são todas posteriores à sua vida: a mais antiga é uma Paixão, em grego, do século VI-VII, seguida por outra do século XI e a Legenda Áurea, que data do século XIII.         

Era, com certeza, uma bela jovem egípcia. A Legenda Áurea especifica que era filha do rei Costa, que a deixou órfã muito jovem, e que foi educada, desde a infância, nas artes liberais, como eram definidos os estudos secundários na Idade Média. Catarina foi pedida em casamento por vários homens de relevante importância, mas teve, em sonho, a visão de Nossa Senhora com o Menino que lhe colocava o anel no dedo fazendo-a sponsa Christi.         

Em 305, um imperador romano realizou grandes festejos, em própria honra, em Alexandria. Mesmo que a Legenda Áurea fale de Maxêncio (278 - 312), muitos acreditam que se trata de um erro de transcrição e que o imperador em questão fosse Maximino Daia (c. 285 - 313), que, precisamente em 305, foi proclamado César para o Oriente. Foi naquela ocasião que Catarina se apresentou no palácio imperial durante as celebrações, no seguimento das quais se celebravam ritos pagãos com sacrifícios de animais em adoração aos deuses, nos quais também participavam muitos cristãos por medo das perseguições. Catarina não apenas recusou aqueles actos, mas pediu ao imperador que reconhecesse Jesus Cristo como redentor da humanidade, argumentando o seu convite com conhecimento dos factos, profundidade filosófica e capacidade oratória, tanto que o imperador, impressionado com a beleza e a cultura da jovem nobre, convocou um grupo de retóricos para que a persuadissem a honrar os deuses e pediu-a, inclusive, em casamento. Mas os retóricos não conseguiram convertê-la, chegando ao ponto de ser eles, graças à eloquência e à santidade de Catarina, a converter-se ao Cristianismo. Foi assim que o imperador ordenou a sua condenação à morte e, depois de mais uma recusa de Catarina, condenou-a ao suplício da roda dentada; mas o instrumento de tortura partiu-se e Maximino decidiu, sucessivamente, mandá-la decapitar. Do corpo, em vez de sair sangue, jorrou leite, símbolo da sua pureza.         

Segundo uma outra versão, o corpo de Catarina foi transportado, pelos Anjos, para o Monte Sinai, onde, no século VI, o imperador Justiniano (482-565) fundou o mosteiro, originalmente denominado “da Transfiguração”, e, posteriormente, a ela dedicado, o célebre “Mosteiro de Santa Catarina de Alexandria”.

Somente a partir do século IX é que a devoção à santa se tornou muito popular e tal é atestado, de modo particular, pelos testemunhos iconográficos.   

No período em que se desenvolveu o pensamento iluminista-ateísta ou agnóstico, lançaram-se muitas sombras sobre a historicidade da personagem. A escritora feminista e historiadora da arte inglesa Anna Brownell Jameson (1794 - 1860) formulou a hipótese segundo a qual havia algumas características comuns entre Santa Catarina de Alexandria e Hipácia, nascida entre 350 e 370, matemática e filósofa pagã, também morta, em 415, em Alexandria do Egipto, por monges parabolanos, membros de uma seita que se dedicava ao cuidado dos enfermos, especialmente das vítimas da peste, e ao sepultamento dos mortos. Mas a hipótese de Brownell Jameson é falsa, tanto que não há qualquer fonte documentada que demonstre a sobreposição entre Santa Catarina e Hipácia.        

Na década de 1960, teve início um reexame de muitas figuras de santos dos primeiros séculos do Cristianismo; o espírito positivista, de facto, penetrou na Igreja e o cientificismo historicista prevaleceu sobre a tradição da própria Igreja, tanto que Santa Catarina de Alexandria, juntamente com outras figuras, não foi mais digna de reentrar no Martirológio Romano e decidiu-se eliminá-la entre 1962 e 2002, sem, todavia, jamais proibir a sua veneração, devido à enorme devoção a ela dirigida, ao longo dos séculos, em toda a catolicidade. Em 2003, Santa Catarina, com justiça, foi reinserida, entre os mártires, no Martirológio pelo Papa João Paulo II (1920-2005).        

Cristina Siccardi          


Através de Radio Roma Libera

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