quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Uma voz faz tremer a Igreja: «Está em jogo o destino do mundo»

 

O Dies Iræ traduz e publica, a pedido de Mons. Carlo Maria Viganò, uma muito oportuna entrevista, sobre a situação política e eclesial dos Estados Unidos da América, que, no passado dia 28 de Setembro, Sua Excelência Reverendíssima concedeu ao jornalista italiano Francesco Boezi.

 

Francesco Boezi: Monsenhor Viganò, por que escreveu uma carta em favor de Trump?

Arcebispo Viganò: Bento XVI fez-me saber, a 14 de Agosto de 2011, que estava convicto de que naquele momento a minha posição providencial era a Nunciatura nos Estados Unidos da América. Por isso, escreveu-me: «Desejo comunicar-lhe que reflecti e rezei em relação à sua condição depois dos últimos acontecimentos. A dolorosa notícia da morte de Sua Excelência Mons. Pietro Sambi confirmou a minha convicção de que a sua posição providencial neste momento é a Nunciatura nos Estados Unidos da América. Por outro lado, estou certo de que o seu conhecimento deste grande País o ajudará a enfrentar o exigente desafio deste trabalho, que em muitos aspectos é determinante para o futuro da Igreja universal».

Concluiu-se a minha missão oficial naquele imenso e querido País, mas aquele desafio, ao qual o Papa Bento XVI se referiu quase profeticamente e no qual me envolveu, está mais aberto do que nunca, aliás, tornou-se cada vez mais dramático, tomando dimensões tremendas: o destino do mundo está-se a jogar, nesta hora, na frente americana.

Agora, livre do meu cargo oficial, a inspiração que me foi confiada pelo Papa Bento XVI permite-me dirigir-me ao Presidente Trump com a máxima liberdade, evidenciando qual seja o seu papel no contexto nacional e internacional, e o quão decisiva é a sua missão no confronto épico que se está a delinear nestes meses.

É verdadeiramente um confronto épico?

A Santa Sé parece, hoje, atacada por forças inimigas. Falo como Bispo, como Sucessor dos Apóstolos. O silêncio dos Pastores é ensurdecedor e perturbador. Alguns até preferem apoiar a Nova Ordem Mundial alinhando-se com as posições de Bergoglio e do Cardeal Parolin que, frequentador do Bildelberg Club, se submeteu servilmente aos seus ditames, como muitos expoentes políticos e dos media mainstream.

Estou convencido de que o que denunciei na minha carta aberta ao Presidente Trump, em Junho passado, ainda é válido e pode ser uma chave de leitura para compreender os acontecimentos que estamos a vivenciar. Continua a ser um convite à esperança.

A Igreja Católica americana, em relação às eleições presidenciais e não só, aparece dividida. O Papa diz que dividir é obra do demónio, mas a divisão do Episcopado americano é evidente. O que está a acontecer?

A cisão dentro do Episcopado americano é o resultado de uma acção ideológica realizada desde os anos 1960, especialmente pelas universidades católicas – e pelos Jesuítas em particular –, na formação de inteiras gerações de jovens. A doutrinação progressista (na frente política) e modernista (na frente religiosa) criou um suporte ideológico para o Maio de 68, iniciado com o Concílio Vaticano II, conforme confirmou Bento XVI no seu ensaio Os princípios da teologia católica: «A adesão a um marxismo anárquico e utópico [...] foi apoiada, na primeira linha, por muitos capelães universitários e por associações de jovens, que viam florescer as esperanças cristãs. O facto dominante encontra-se nos eventos, em França, do Maio de 1968. Nas barricadas estavam dominicanos e jesuítas. A intercomunhão realizada durante uma Missa ecuménica de apoio às barricadas foi considerada uma espécie de marco na história da salvação, uma espécie de revelação que inaugurava uma nova era do cristianismo».

Esta divisão nos Estados Unidos, que, hoje, se tornou ainda mais evidente com a iminência das eleições presidenciais, também é difundida na Europa e na Itália: os líderes da Igreja queriam fazer uma escolha radical –  e, na minha opinião, lamentável – preferindo seguir o pensamento dominante do ambientalismo, do imigracionismo, da ideologia LGBT, em vez de se levantar corajosamente contra ele e proclamar fielmente a Verdade salvífica anunciada por Nosso Senhor. Uma escolha que deu um salto, desde 2013, com a eleição de Jorge Mario Bergoglio, mas que remonta há, pelo menos, sessenta anos. É significativo que mesmo então os Jesuítas – e toda a intelligencija católica de Esquerda – olhassem para a China de Mao como um interlocutor privilegiado, quase um propulsor das reivindicações de suposta renovação social, exactamente como hoje La Civiltà Cattolica, de Spadaro, s.j., olha para a China de Xi Jinping. Os Jesuítas, que apoiaram a guerrilha na América Latina e que, no Maio francês, estiveram nas barricadas, hoje usam as redes sociais com reivindicações semelhantes, sempre com os olhos voltados para Pequim e com o mesmo ódio pela América.

É verdade que dividir é obra do demónio: Satanás semeia a divisão entre o Homem e o seu Criador, entre a alma e a Graça. O Senhor, ao invés, não divide, mas separa: Ele cria uma fronteira entre a Cidade de Deus e a Cidade de Satanás, entre aqueles que O servem e aqueles que O combatem. Ele mesmo separará os justos dos malvados no dia do Juízo (Mt 25, 31-46), depois de se ter colocado como «pedra de tropeço» (Rm 9, 32-33). Separar a luz das trevas, o bem do mal, de acordo com o ensinamento do Senhor, é uma obrigação se quisermos seguir a Cristo e rejeitar Satanás. Mas também é necessário separar, ao escolher quem melhor protege os direitos e a Fé dos Católicos, daqueles que apenas nominalmente se proclamam católicos e, nos factos, promovem leis que estão claramente em contraste com a lei divina e a lei natural. Assim como é divisivo o Pastor que adverte o rebanho contra os ataques dos lobos (Jo 10, 1-18).

Acusar Trump de não ser cristão simplesmente por querer proteger as fronteiras da Nação; evocar o fantasma da soberania como um desastre, enquanto o tráfico de seres humanos é favorecido; ficar em silêncio diante da perseguição aos Cristãos na China e noutros lugares, ou das milhares de profanações de igrejas que, desde há meses, vêm a ocorrer em todo o mundo: tudo isto não é divisivo?

Joe Biden é um abortista, mas alguns ambientes católicos americanos parecem omitir este aspecto. Veja-se, por exemplo, James Martin. O que acha?

O Padre James Martin, s.j., é o porta-estandarte da ideologia LGBT e, apesar disso – na verdade, em virtude disso –, foi nomeado, por Bergoglio, como Consultor da Secretaria para as Comunicações da Santa Sé. A sua obra – esta, sim, verdadeiramente “divisiva” no pior sentido do termo – serve para fortalecer, no seio do corpo eclesial, uma quinta coluna da agenda progressista, de modo a criar uma cisão ideológica e doutrinal dentro da Igreja e fazer crer que as demandas do progressismo, inclusive a chamada homoeresia, vêm da base. Na realidade, bem sabemos que os fiéis são muito menos inclinados às inovações do que a opinião pública é levada a crer e que o querer mostrar uma pretensa “vontade popular” para legitimar escolhas incompatíveis com o ensinamento perene da Igreja é uma manobra a que já se recorreu tanto a nível eclesial (pensemos na reforma litúrgica, que ninguém pediu) como a nível civil (por exemplo, a ideologia de género).

Permita-me recordar as palavras do Arcebispo americano Mons. Fulton J. Sheen (1895-1979): «A recusa de tomar posição sobre os grandes problemas morais é, em si, uma decisão. Representa um tácito assentimento ao mal. A tragédia do nosso tempo é que quem acredita na virtude carece de fogo e de convicção, enquanto que aqueles que acreditam no vício estão cheios de apaixonada convicção». Aprendamos a separar quem está com Cristo de quem está contra Ele, visto que não é possível servir a dois senhores.

Falou de “deep church”. É possível que exista uma? Por quem é composta?

A expressão “deep church” transmite bem a ideia do que está a acontecer, paralelamente, a nível político e a nível eclesial. A estratégia é a mesma, assim como idênticos são os objectivos e, em última análise, os mens que estão por trás. Nesse sentido, a “deep church” é para a Igreja o que o “deep state” é para o Estado: um corpo estranho, ilegal, subversivo e destituído de qualquer legitimidade democrática que usa a instituição na qual está inserido para atingir objectivos diametralmente opostos aos da própria instituição.

Um exemplo é John Podesta, “católico” liberal, democrata, ex-colaborador de Bill e Hillary Clinton e vinculado ao Centre for American progress de John Halpin. Num e-mail, datado de 11 de Fevereiro de 2012, Sandy Newman escreveu a Podesta pedindo-lhe orientações para «plantar as sementes de uma revolução» na Igreja em matéria de contracepção, aborto e paridade de género. Podesta responde confirmando que, para obter esta «primavera da Igreja» (note-se a assonância com a “primavera conciliar”), foram criadas a Catholics in aliance for the common good e Catholics united. Estas associações ultra-progressistas foram financiadas por George Soros, como as fundações dos Jesuítas e a viagem apostólica de Bergoglio, em 2015, aos EUA.

Devemos também lembrar a conspiração da Máfia de São Galo, com o objectivo de derrubar Bento XVI, em conjunto com Obama e Clinton que consideravam Joseph Ratzinger um obstáculo para a difusão da agenda globalista.

Como católico e consagrado, como é que julga o trabalho de Trump?

Limito-me a observar o que Trump fez ao longo dos anos do seu mandato presidencial. Defendeu a vida do nascituro, cortando as verbas à multinacional do aborto Planned Parentood e, precisamente nestes dias, emanando uma disposição que impõe atendimento imediato aos recém-nascidos não mortos pelo aborto: até agora, eram deixados a morrer ou usados
​​para lhes retirar os órgãos, destinados à venda. Trump está a combater a pedofilia e o pedosatanismo. Não abriu novas frentes de guerra e reduziu drasticamente as existentes ao estipular acordos de paz. Devolveu a Deus o direito de cidadania, depois de Obama ter até cancelado o Natal e imposto medidas que repugnavam a alma religiosa dos Americanos.

E observo também a guerra mediática travada pela imprensa e pelos centros de poder contra o Presidente: foi demonizado desde 2016, apesar de ter conquistado democraticamente a maioria dos votos. É bem sabido que o ódio a Trump – não diferente do que acontece na Itália a membros muito mais brandos da oposição – encontra a própria motivação na consciência do seu papel fundamental na luta ao deep state e a todas as suas ramificações internas e externas. A corajosa denúncia do Comunismo – de que os Antifa e os BLM são a versão global e a ditadura chinesa a incubadora – vem, de alguma forma, sanar o silêncio da Igreja, que, apesar dos apelos da Virgem Maria em Fátima e em La Salette, preferiu não renovar a condenação desta ideologia infernal. E se Mons. Sanchez Sorondo pode impunemente afirmar, contra todas as evidências, que a China é a melhor realizadora da doutrina social da Igreja, devemos alegrar-nos com as palavras do Presidente dos Estados Unidos e com aquelas não menos corajosas do seu Secretário de Estado, Pompeo.

Ao que parece, Bergoglio não se encontrará com o Secretário de Estado americano.

Agora chegamos ao paradoxo, ao ridículo. Certas atitudes parecem mais adequadas aos caprichos de um aluno indisciplinado do que à prudência e ao protocolo diplomático. Pompeo denuncia a violação dos direitos humanos na China e de Santa Marta chega a resposta irritada: E eu não jogo mais. São comportamentos indignos, dos quais até mesmo os membros do círculo mágico de Bergoglio começam a sentir uma evidente vergonha. Não só não recebe o Secretário de Estado, por não lhe dizerem ore rotundo que a América não ficará parada enquanto a Igreja se entrega nas mãos de uma feroz ditadura, como nem sequer responde ao pedido do Cardeal Zen para ser recebido em audiência, confirmando a precisa vontade do Vaticano de renovar a sua submissão ao Partido Comunista Chinês.

Vossa Excelência organizou um Rosário por Trump? Por que motivo?

Fui incentivado por muitos a lançar esta iniciativa e não hesitei em aderir, tornando-me o promotor desta cruzada espiritual. Esta é uma guerra sem quartel, na qual Satanás é libertado das correntes e as portas do inferno tentam, de todas as maneiras, prevalecer sobre a própria Igreja. Uma semelhante contradição enfrenta-se, sobretudo, com a oração, com a arma invencível do Santo Rosário.

O empenho dos Católicos na política, sob a orientação dos seus Pastores, constitui uma acção concreta como cidadãos e membros tanto do Corpo Místico de Cristo como do corpo social: o Católico não é um dissociado, que na Igreja acredita que Deus é autor e senhor da vida, mas nas urnas ou no parlamento aprova o assassinato de crianças inocentes.

A esta acção de ordem natural apoia-se – deve-se apoiar – a consciência de que os assuntos humanos, e com eles os acontecimentos sociais e políticos, têm uma dimensão espiritual transcendente, na qual a intervenção da divina Providência é sempre determinante. Por este motivo, o Católico não se afasta do mundo, não foge da arena política esperando passivamente que o Senhor intervenha com o raio, mas, pelo contrário, dá um sentido à sua acção quotidiana, ao seu compromisso na sociedade, dando-lhe uma alma, um propósito sobrenatural.

Neste sentido, a oração invoca, ao Senhor do mundo e da história, aquelas graças, aquela ajuda especial que só Ele pode dar tanto à acção do cidadão comum como à obra do governante. E se, no passado, até os reis pagãos puderam ser instrumentos do bem nas mãos de Deus, tal pode acontecer ainda hoje, numa época em que a bíblica batalha entre os filhos das trevas e os filhos da luz atingiu um ponto crucial.

Que cenários esperam os Católicos do mundo no caso de Trump perder?

Se Trump perder as eleições presidenciais, falhará o último kathèkon (2 Ts 2, 6-7), ou seja, o que impede que o «mistério da iniquidade» se manifeste e a ditadura da Nova Ordem Mundial terá, no novo Presidente americano, um aliado, depois de já ter conquistado Bergoglio para a sua causa.

Joe Biden não tem uma consistência própria: ele é apenas a expressão de um poder que não ousa mostrar-se pelo que é e que se esconde por trás de um personagem totalmente inadequado para o cargo de Presidente dos Estados Unidos, mesmo pelas suas degradantes condições de saúde mental; mas é precisamente na sua fraqueza, pelas denúncias pendentes, na sua chantagem, pelos conflitos de interesse, que Biden se mostra como um fantoche manipulado pela elite, um fantoche nas mãos de pessoas sedentas de poder e dispostas a fazer qualquer coisa para expandi-lo.

Encontrar-nos-emos perante uma ditadura orwelliana pretendida pelo “deep state” e pela “deep church”, na qual os direitos, que hoje consideramos fundamentais e inalienáveis,
​​seriam espezinhados com a cumplicidade dos media mainstream.

Quero evidenciar que a religião universal desejada pelas Nações Unidas e pela Maçonaria encontra, na hierarquia da Igreja, colaboradores activos que usurpam a sua autoridade e adulteram o Magistério. Ao Corpo Místico de Cristo, colocado como única arca de salvação para a humanidade, está-se a opor o corpo místico do Anticristo, segundo a profecia do Venerável Arcebispo Fulton Sheen. Ecumenismo, ambientalismo malthusiano, pansexualismo, imigracionismo são os novos dogmas desta religião universal, cujos ministros preparam o advento do Anticristo antes da última perseguição e da vitória definitiva de Nosso Senhor. Mas, como a gloriosa Ressurreição do Salvador foi precedida pela Sua Paixão e Morte, assim a Igreja caminha para o seu próprio Calvário; e, assim como o Sinédrio pensava que tinha eliminado o Messias ao crucificá-Lo, assim a seita infame acredita que o eclipse da Igreja seja um prelúdio para o seu fim. Permanece um “pequeno resto”, composto por Católicos fervorosos, assim como, aos pés da Cruz, permaneciam a Mãe de Deus, São João e a Madalena.

Sabemos que os destinos do mundo não estão nas mãos do Homem e que o Senhor prometeu não abandonar a Sua Igreja: «as portas do Abismo nada poderão» (Mt 16, 18). As palavras de Cristo são a rocha da nossa esperança: «E sabei que Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos» (Mt 28, 20).

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