domingo, 25 de outubro de 2020

Tríptico de Mantegna: Cristo desceu e venceu ascendendo

«Ora, este “subiu” que quer dizer senão que também desceu às regiões inferiores da terra? Aquele que desceu é, precisamente, o mesmo que subiu muito acima de todos os céus, a fim de encher o universo» (Ef 4, 9-10).    

«...uma tábua [de Mantegna], na qual há histórias de figuras não muito grandes, mas belíssimas [...] no castelo de Mântua, para a capela». Segundo Vasari e outros documentos historiográficos, o tríptico de Andrea Mantegna, agora na Galeria degli Uffizi, representando a Ascensão, a Adoração dos Magos e a Circuncisão, teria sido realizado para a capela privada do Marquês Luís III Gonzaga, no Castelo mantuano de San Giorgio. O condicional é obrigatório porque, ao pronunciar-se sobre a concepção e o destino das três tábuas, que, efectivamente, apresentam diferenças e incongruências, tanto no formato quanto no estilo, os estudiosos ainda são muito cautelosos.        

O certo é que, em 1827, as três pinturas foram reunidas numa mesma moldura neo-renascentista, entalhada e dourada. Arbitrariamente, de acordo com alguns; não para nós que, levando em grande consideração os autorizados juízos dos historiadores da arte, olhamos e lemos a obra à luz da fé e das palavras de Paulo aos Efésios: «Aquele que desceu é, precisamente, o mesmo que subiu muito acima de todos os céus…». O tríptico da Galeria degli Uffizi parece-nos uma perfeita transcrição pictórica da passagem epistolar.          

Aquele que desceu, portanto, e a quem os Magos vieram adorar. A cena central retrata um colorido e exótico cortejo – do qual fazem parte homens de diferentes nacionalidades, a julgar pelos chapéus – que serpenteia por um caminho tortuoso até ao limite da gruta. Aqui, a Virgem, rodeada de querubins, tem nos braços Jesus que abençoa: o gesto maternal já parece aludir à oferta do Filho, portanto, ao sacrifício de Cristo, do qual a gruta rochosa se torna, ao mesmo tempo, lugar de nascimento e sepulcro. Até o cometa, aqui forjado como uma longa espada que pende sobre a cabeça de Maria, refere-se à dor de Nossa Senhora, como Simeão teria profetizado pouco depois.           

Aqui está, de facto, o idoso sacerdote, no centro do sumptuoso interior clássico do Templo da Circuncisão, enquanto, com um gesto firme e decidido, se dirige ao Menino nos braços da Mãe, sob o olhar atento da profetisa Ana e de São José que, fiel à tradição do rito hebraico de purificação da mãe, traz como dom duas rolas. O ambiente, detalhadamente descrito, inclui também duas lunetas decoradas com desenhos monocromáticos, cujos temas, o Sacrifício de Isaac e a Entrega das Tábuas da Lei, remetem ao cumprimento da antiga promessa de Deus que, com a apresentação de Jesus, sanciona a Nova Aliança.   

Uma aliança estreita para a Redenção do Homem, definitivamente confirmada na Ascensão de Cristo que venceu a morte. Sinal inequívoco desta vitória é o vexilo cruzado do Jesus de Mantegna: dentro de uma matéria amendoada de nuvens e querubins, Ele eleva-se acima do grupo orante dos Apóstolos e da Virgem que, cheios de espanto, acompanham, com os olhos, a subida ao céu d’Aquele em quem se cumpre a plenitude de todas as coisas.       

Margherita del Castillo       

Através de La Nuova Bussola Quotidiana

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