domingo, 4 de outubro de 2020

Salvator Mundi, o rosto de Jesus segundo Antonello

«É a tua face que eu procuro, Senhor. Não desvies de mim o teu rosto» (Sl 27, 8-9).

Cristo, diz São Paulo aos Colossenses, «é a imagem do Deus invisível». Imagem, portanto uma realidade perceptível, sobre a qual – em cujo rosto, especifica o apóstolo, dirigindo-se aos Coríntios – «brilha a luz do Evangelho da glória de Cristo» (cf. 2 Cor 4).

Ao longo dos séculos, os artistas que tentaram representar o Deus encarnado tiveram que se confrontar com estas autorizadas verdades de fé. Que assumiu, ao longo do tempo, diferentes fisionomias: desde o jovem imberbe das catacumbas e dos primeiros sarcófagos cristãos, onde muitas vezes aparece sob a aparência do Bom Pastor, com cabelos cacheados e uma beleza apolínea, até ao adulto barbudo, majestoso e severo como um filósofo antigo. Até ao advento do Mandylion de Edessa e das imagens consideradas acheiropoietas – não pintadas por mãos humanas – que difundiram, tanto no Oriente como no Ocidente, um retrato de Jesus coerente com os seus traços históricos. E se a beleza da adolescência se refere à dimensão da eternidade de Deus, no Seu aspecto maduro fazem-se, pelo contrário, coexistir a sabedoria humana e a omnipotência divina.

Depois chega Antonello, contado entre os retratistas mais revolucionários do Renascimento, formado na oficina napolitana de Colantonio, activo na corte de Afonso de Aragão, onde o oriundo de Messina conheceu e aprofundou a paixão descritiva e mimética dos artistas flamengos com quem também aprendeu a técnica da pintura a óleo. O seu Salvator Mundi, fruto desses enxertos culturais, é um sublime retrato sagrado.

A mesa tem as reduzidas dimensões típicas de uma obra destinada a práticas de devoção privada. Se as influências nórdicas são, em geral, evidentes, por outro lado Antonello optou por adoptar, para esta pintura, a natureza hierática dos ícones que, no entanto, conseguiu conferir uma carga de humanidade não encontrável nos artefactos bizantinos.

Jesus, em posição frontal, é uma presença física e concreta que ocupa um volume preciso, definido pelo encurtamento do gesto de bênção e pelos dedos da mão esquerda dobrados sobre o parapeito. Este último, com uma cártula enrugada e saliente – acima da qual o artista anotou, pela primeira vez na carreira, a data e a assinatura –, tem a função de fundir e confundir o espaço real e o pintado, convidando o observador a entrar em profundidade.

Porque é da profundidade do fundo escuro que emerge a figura de um Homem que afirmou, com toda a humildade, ser o Filho de Deus. A veracidade desta declaração foi confiada pelo pintor à simplicidade das Suas roupas modestas – a veste vermelha e o manto azul – que contrastou com uma análise precisa e meticulosa da barba e dos cachos dos seus longos cabelos, iluminados pela quente e envolvente luz que vem de uma fonte à esquerda de quem observa.

O elemento que mais atrai e capta é o olhar. Tão intenso. É fixo em quem aceite apoiá-lo. Para que qualquer pessoa, mesmo nós, como de resto São Paulo, possa, literal e visualmente, sentir-se agarrado por Cristo que, querendo, já encontrou cada um de nós.           

Margherita del Castillo         

Através de La Nuova Bussola Quotidiana   

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