quarta-feira, 14 de outubro de 2020

«Quem, hoje, fala em nome de São Francisco não quer converter»

O portal católico Dies Iræ tem a grande honra de apresentar, em exclusivo, uma entrevista que realizou à italiana Cristina Siccardi, licenciada em Letras, no ramo da História, e especialista em biografias, principalmente de Santos. Ao longo desta entrevista, Siccardi aborda o inegável gosto pela Hagiografia, questões relacionadas com as causas de beatificação e de canonização, a Liturgia e, naturalmente, a manipulação da figura de São Francisco de Assis.


1. Muito obrigado por tão cordialmente ter acedido à realização desta entrevista em exclusivo para o portal católico português Dies Iræ. Como e quando decidiu escrever as biografias dos Santos da Igreja Católica e outros excelentes livros e artigos? Como é que consegue compaginar uma exigente vida de mãe de família com a escrita, a pesquisa, a leitura e, ainda, encontrar inspiração para produzir uma muito meritória obra literária e devocional?

Na minha família de origem, liam-se as vidas dos Santos e era sempre um momento belíssimo e formativo, depois continuei a lê-las. A minha paixão pela História levou-me a escolher, depois do Secundário, a Faculdade de Letras e Filosofia com uma orientação histórica com um plano de estudos rico em História do Cristianismo e História da Igreja. A minha tese de licenciatura, sobre os escritos da vendeana Giulia Colbert, Marquesa de Barolo, agora Venerável, foi publicada em 1992 e, desde então, a paixão tornou-se profissão, foi assim que saíram muitas biografias de testemunhas do Evangelho e livros-investigação sobre História da Igreja e sobre Arte Sacra, que também foram traduzidas em diversas línguas. Quando nasceu o meu primeiro filho, despedi-me, de comum acordo com o meu marido, da redacção do semanário católico “il nostro tempo”, onde trabalhava, visto que a família vem em primeiro lugar se se escolhe este estado de vida; mas, graças às ferramentas informáticas actuais, nestes trinta anos foi possível prosseguir a investigação, o estudo, a actividade editorial e jornalística. A Providência, claramente, foi e é determinante.

2. Sobretudo desde o Pontificado de João Paulo II, aumentou enormemente o número de beatificações e de canonizações e, sobretudo, de processos que levantam sérias dúvidas, como, por exemplo, o de Mons. Óscar Romero, beatificado e canonizado no Pontificado do Papa Francisco, ou a possível beatificação do polémico Mons. Hélder Pessoa Câmara, antigo Arcebispo de Olinda e Recife, no Brasil, que foi um sobejamente conhecido promotor do modernismo, em particular da Teologia da Libertação. De que modo vê tudo isto?

Tudo isso se enquadra num contexto que podemos definir “fenomenologia do modernismo”, uma patologia da Igreja iniciada no século XIX e condenada, por São Pio X, com a encíclica Pascendi Domini Grecis, uma heresia («síntese de todas as heresias», como foi chamada pelo Papa Sarto) que pretendia submeter a Igreja às exigências liberais e relativistas do pensamento secularizado; mas a condenação papal não foi suficiente para erradicá-la e eis que essas instâncias penetraram no Concílio Vaticano II e, desde há cinquenta anos, a Igreja foi revolucionada em todas as suas formas, inclusive doutrinária e catequética, incluindo, portanto, o aspecto hagiográfico, para o qual, em muitos casos, se consideram dignas de elevar às honras dos altares figuras politicamente consideradas interessantes, em detrimento do exame das virtudes em em grau heróico, requisito que sempre foi considerado essencial nos processos de beatificação e canonização.

3. No ano em que se assinalam os cem anos da morte de Santa Jacinta Marto, irmã de São Francisco Marto e prima da Irmã Lúcia, videntes de Fátima, o que é que, nos nossos dias, temos a aprender com o seu exemplo?

Enquanto o mundo trava uma guerra político-sanitário-económica, desencadeada pelo COVID-19, comemora-se, como bem recorda, o centenário da morte, aos dez anos, de Santa Jacinta Marto (Aljustrel, 11 de Março de 1910 – Lisboa, 20 de Fevereiro 1920) devido à pandemia do vírus da Gripe Espanhola (gripe H1N1), doença que afectou também o seu irmão Francisco. A inocente vontade de Jacinta de se dedicar totalmente, depois das aparições de Nossa Senhora de Fátima, à oração, à recitação do Santo Rosário, às penitências, completou-se com o sacrifício da própria vida pelos “pobres pecadores”, pela Igreja e pelo Papa. Até ao momento das aparições do Anjo de Portugal (1916) e de Nossa Senhora de Fátima (1917), tinha sido uma criança enérgica, alegre e despreocupada que gostava de cantar e dançar; depois, transformou-se e tornou-se, como demonstram os testemunhos e as fotografias que a retratam, muito séria, só mais dedicada à conversão dos pecadores e a salvar as almas do Inferno. Aqui está: Santa Jacinta ensina-nos a ter um olhar sobrenatural, menos ligado ao mundo e às suas misérias, a ter uma atenção vertical e não horizontal. A santidade da Jacinta não é a da “sala de visitas”, da fraternidade mundial, mas, como todos os Santos de Deus, incita e impulsiona à conversão da própria alma e da própria vida em nome e por amor de Cristo, único portador da Verdade e da salvação eterna.

O perfil que Lúcia traça da prima é extraordinário: é o retrato dos puros de coração. «Se soubessem…» repetia sempre, pensando nos homens dos tempos modernos. Se soubessem o quê? «Que os actos desta vida terrena têm um valor eterno. Este é o grande problema do homem de hoje: não sabendo mais o que está a fazer no mundo, procura avidamente o sentido das coisas, sem jamais encontrá-lo», escreveu, no livro Giacinta (Etabeta), o monge P. Serafino Tognetti, da Comunidade dos Filhos de Deus.

4. Num artigo que publicou, em Abril de 2020, na Corrispondenza Romana, referiu o feliz aumento – durante o período de confinamento provocado pelo COVID-19 – do número de sacerdotes que tomam contacto com a Missa Gregoriana e com toda a liturgia anterior ao Concílio Vaticano II. Em oposição, considera que a actual liturgia, manifestamente próxima dos cultos protestantes, educa para a santidade?

O Novus Ordo, como demonstram sérios estudos teológicos e históricos, foi, claramente, uma revolução litúrgica – provocada, in primis, por Mons. Annibale Bugnini (1912-1982) – para aproximar a Missa ao espírito protestante; o resultado foi trágico: cada vez menos fiéis na igreja, cada vez mais confusão, cada vez menos fé. O sensus fidei das almas, seja de quem tem uma vocação sacerdotal ou religiosa, seja dos leigos, conduz, diria, de maneira natural e fisiológica à Santa Missa da Tradição: basta assistir a uma Santa Missa em Vetus Ordo para perceber a substancial diferença (como não notar a concentração do sacerdote e a concentração dos fiéis diante do Mistério eucarístico? Mesmo as crianças pequenas permanecem atentas e em silêncio: é o efeito da sacralidade que se sente no ar). É a intentio liturgica não traída que remete a uma fé autêntica, onde gestos, palavras, sinais e símbolos concorrem para criar uma sinfonia religiosa harmoniosa, perfeita na sua beleza e integridade, a começar por dirigir o olhar para Deus e para o Tabernáculo e não para a assembleia (para usar o termo caro à linguagem católica protestantizada). Na Missa de sempre, ao centro está apenas o Santo Sacrifício do altar e nada mais, sem distracções antropocêntricas.

5. Mais recentemente, nomeadamente no Pontificado de Bergoglio, tem-se assistido a uma manipulação da vida e da acção de São Francisco de Assis. Na encíclica Fratelli tutti, Bergoglio coloca no mesmo plano do “pobrezinho de Assis” figuras como Martin Luther King, Desmond Tutu e Mahatma Gandhi. A seu ver, o que se pretende com isto?

Para São Francisco, não havia fraternidade a não ser em Cristo Senhor. São Francisco falava, escrevia, pregava, ia em missão para converter: o seu único propósito foi viver em Cristo para levar Cristo às pessoas e fez abundantes colheitas de almas. São Francisco não pode ser associado nem a Martin Luther King, nem a Desmond Tutu, nem a Mahatma Gandhi... Quem, hoje, fala em nome de São Francisco não quer converter, mas fazer irmãos através de um espírito globalista e relativista, onde as religiões estão todas colocadas ao mesmo nível, sem considerar o Caminho indicado pelo Filho de Deus, que é Verdade e Vida. Com clara evidência e sem ambiguidades, estamos diante da mistificação de uma das personalidades mais marcantes da história da Igreja, como já expliquei, com as Fontes Franciscanas nas mãos, e sem qualquer outra interpretação, na biografia histórico-espiritual San Francesco. Una delle figure più deformate della storia (Sugarco Edizioni).

Recordo que o título da encíclica do Papa Francisco, Fratelli tutti, foi extraído de uma precisa e explícita citação das suas Admoestações: «Irmãos, ponhamos todos diante dos olhos o Bom Pastor que, para salvar as suas ovelhas, sofreu a paixão da cruz. As ovelhas do Senhor seguiram atrás dele, na tribulação e na perseguição e no opróbrio, na fome e na sede, na enfermidade e na tentação, e nas demais provações; e, como recompensa, receberam do Senhor a vida eterna. Disto deveríamos ter vergonha, nós os servos de Deus: Que os santos tenham praticado boas obras, e nós, só de contar e pregar o que eles fizeram, já daí queremos receber honra e glória» (VI, 1-3, FF 155). São Francisco, que se definia “católico” (para se diferenciar das heresias do seu tempo, em particular as heresias cátaras e valdenses), que falava da Santíssima Trindade (para não se confundir com o Deus dos hebreus e o Alá dos muçulmanos), que foi o primeiro a ter as chagas de Nosso Senhor impressas na sua carne, foi Alter Christus, vindo ao mundo para converter as almas, pagar, pessoalmente, o seu preço pelos pecadores e restaurar a Igreja em Cristo.

6. Por fim, gostaríamos de lhe pedir que dirigisse uma mensagem aos nossos leitores de língua portuguesa.

Com muito prazer, obrigada. A vossa nação remete-me a acontecimentos históricos que me são caros: aos vossos grandes, corajosos e católicos primeiros soberanos, Afonso I e Mafalda de Saboia, sobre os quais fiz estudos aprofundados, descobrindo que a Dinastia Saboia (eu nasci em Turim) é ligada por um duplo nó a Portugal, também as Aparições de Fátima, como falei no livro Fatima e la passione della Chiesa (Sugarco Edizioni), e será lançado, em Novembro deste ano, o ensaio Casa Savoia e la Chiesa. Una grande, millenaria Storia europea com documenti inediti e un intervento di Re Simeone II di Bulgaria (Sugarco Edizioni), onde, também nesta ocasião, falei longamente sobre as ligações entre Portugal e a Casa de Saboia. O Senhor quis que nascessem numa nação privilegiada: aí venceu o Catolicismo contra o Islão, aí apareceu Nossa Senhora de Fátima e aí, como declarou Nossa Senhora, «conservar-se-á sempre o dogma da fé». Precisamente por estes divinos motivos, estou certa de que os portugueses que permaneceram católicos serão fiéis à Rainha dos Céus e concorrerão para o apoio à Igreja militante da Tradição, através da qual não há confusão e não há apostasia, mas apenas certezas de Verdade, aquela Verdade que conduz à verdadeira paz das almas, das famílias e das nações, precisamente como ensinaram Jesus, os seus Apóstolos e os seus Santos, entre os quais Francisco de Assis.

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